“Que Mais Posso Querer”: A intensidade das emoções e a efemeridade da experiência de amar

Que mais posso querer Silvio Soldini 2023 1 41

Encontro-me profundamente apaixonado pela discografia do cantor e compositor brasileiro Guilherme Arantes. A forma como Arantes expressa as emoções através de suas letras é simplesmente arrebatadora. Em particular, a música “Um Dia, Um Adeus” é uma obra-prima que me toca de forma única.

Recentemente, enquanto ouvia essa música novamente, fiquei surpreso ao perceber como ela se conecta de maneira tão profunda com a trama do filme “Que Mais Posso Querer”, do brilhante Silvio Soldini. A intensidade das emoções e a efemeridade da experiência amorosa são retratadas tanto na música quanto no filme de uma maneira poderosa. Ambos abordam questões de limites, culpa, medo e questionamentos que muitas vezes surgem no contexto do amor.

 

Arantes habilmente envolve o ouvinte nas duas primeiras estrofes da canção, que transbordam de uma paixão intensa. Detalhando melhor, o eu lírico é arrebatado pelo “tom” e “cor” de algo, o que lhe proporciona uma nova visão e desperta sua percepção para a beleza ao seu redor. É como se uma “luz” radiante surgisse, como uma estrela no deserto ou um farol no mar da incerteza, guiando o narrador com esperança e determinação.

No entanto, apesar de toda a intensidade do sentimento, o eu lírico enfrenta a tristeza de ter que dizer “adeus” em algum momento. Mesmo assim, embora a aventura tenha sido breve, é descrita como uma “loucura” que deixou uma marca profunda em seu coração. A expressão “E eu indo embora” sugere uma partida inevitável, talvez com relutância, mas também com um senso de aceitação.

A frase “quanta loucura por tão pouca aventura” transmite a sensação de que a intensidade da experiência foi tão poderosa e significativa, apesar de sua brevidade. Revela como a intensidade do momento foi marcante, embora tenha sido efêmero. Essas estrofes me fazem lembrar do casal de amantes Anna e Domenico.

Nesse ínterim, sejamos sinceros, qualquer pessoa casada pode ter pensamentos sobre outras pessoas, mas isso não é algo sério para se obcecar. É uma fantasia que pode se tornar realidade se houver reciprocidade. Quando você percebe que a outra pessoa também está interessada, começa a procurá-la constantemente, ansioso por estar perto dela. Você idealiza suas ações, como se ela brilhasse com uma luz própria. E então, você se apaixona e o medo se instala.

Desse modo, a vida de Anna, interpretada por Alba Rohrwacher, era preenchida por certezas: casamento, casa, emprego estável, almoços em família e sábados à noite com amigos. Mas bastou um olhar para quebrar essa rotina: dois corpos se conectam, se chamam, se procuram, e de repente, todas as certezas desmoronam. Isso acontece quando ela conhece o irresistível Domenico, interpretado por Pierfrancesco Favino.

 

Nessa perspectiva, Silvio Soldini, por meio de um estilo quase documental, apresenta em “Que Mais Posso Querer” uma história de atração incomum, uma busca por algo diferente, o medo e a necessidade de questionamento. Ele aborda de forma sóbria os efeitos perturbadores do adultério na vida familiar, retratando a infidelidade como um fardo que traz mais problemas do que benefícios, apesar das emoções envolvidas.

Além disso, Soldini habilmente dá vazão e significado aos problemas e contradições enfrentados por uma geração de quarenta anos, que se depara com a ausência de horizontes claros em um contexto que mescla o precariado italiano e a pequena burguesia milanesa, temas que ele conhece profundamente.

À vista disso, o romance torpe e apaixonante de Domenico e Anna é uma rebelião sussurrada que repousa sobre um equilíbrio estável como a vida deles: encontros clandestinos, discussões no telemóvel, mentiras, carícias sufocadas no final do intervalo do almoço, sexo engajado consumido em um quarto barato de motel, promessas impossíveis e ressentimentos latentes.

 

É, infelizmente, o amor muitas vezes tem a ver com linhas nítidas, limites. As do corpo, em primeiro lugar, que Domenico a ensina a descobrir e amar. Mas, até que ponto o amor é tolerável? Bem, não existe um manual para entender nossos sentimentos, e a verdade é que se houvesse um que esclarecesse aqueles que se referem ao amor, a vida não seria mais simples.

Logo, a obra italiana retrata o custo emocional diário de um caso amoroso não só para Anna e Domenico, que se sentem cada vez mais culpados e irritados um com o outro, mas também para seus familiares, amigos e conhecidos. A questão de ter sentimentos por outra pessoa é que nossa atitude muda gradualmente, independentemente de nossos esforços para esconder, o que resulta em problemas tanto com nosso parceiro oficial quanto com a pessoa com quem estamos tendo o relacionamento extraconjugal.

 

Por conseguinte, nem sempre somos capazes de manter essa duplicidade escondida, e aos poucos nos tornamos mais acostumados, mesmo que acreditemos que estamos conseguindo equilibrar ambas as relações.

Nesse sentido, apesar de toda a trama shakespeariana que envolve o enredo, Soldini buscou retratar em seu longa diversos tipos de amor, indo além da paixão avassaladora entre Domenico e Anna. O filme também aborda as relações construídas por eles com suas respectivas famílias e parceiros. O contexto em que a história se desenrola e sua relação com a vida dos personagens é de grande importância.

Tanto que, ao longo do filme, fica evidente que a vida é efêmera e que os momentos de felicidade devem ser vividos plenamente. O medo muitas vezes nos impede de avançar e coloca obstáculos em nosso caminho. No entanto, ambos os protagonistas decidem se lançar, mesmo sem terem plena consciência das consequências, em busca dessa promessa de felicidade que sentem. O desfecho da história se torna secundário diante dessa incerteza.

 

Em meio a essa jornada, identificar seus desejos e questionar uma vida inteira não é uma tarefa fácil. Não se trata apenas de aceitar o presente e se adaptar passivamente, mas sim de confrontar os dilemas e desafios que surgem no caminho. O filme nos faz refletir sobre a complexidade de tomar decisões diante das incertezas da vida, e como isso pode afetar nossas escolhas e trajetórias pessoais.

Nessa significação, a narrativa de Soldini certamente não é inédita, mas de alguma forma consegue quebrar os padrões. Ela levanta questionamentos, porém não fornece respostas claras. Às vezes, pode até atrapalhar, talvez devido à sua urgência ou ao fato de deixar espaço para interpretações nem sempre idealizadas. O amor de Domenico e Anna é intenso e assustador, pois causa desequilíbrio. É um tipo de amor que nem todos têm a chance de experimentar ao longo da vida. A traição em um relacionamento amoroso afeta profundamente e prejudica a capacidade de autoconhecimento e de encontrar sentido nos acontecimentos. É um evento traumático, e como todo trauma, possui múltiplas consequências e nuances.

 

Em essência, o olhar de Soldini é investigativo, e seu estilo cinematográfico se revela como um sismógrafo de emoções, capturando tanto os abalos intensos quanto os pequenos tremores, talvez causados por algo fora do quadro. Pois alcançar o bem-estar pessoal, como Anna e Domenico desejam, sem causar danos aos outros (o que se deseja evitar a todo custo), é uma das conquistas mais desafiadoras de se alcançar.

De resto, novamente, não há um manual definitivo para entender os sentimentos humanos, e o amor pode ser extremamente complexo e desafiador. Nesse sentido, tanto a música de Guilherme Arantes quanto o filme de Silvio Soldini me fazem refletir sobre as nuances do amor e como ele pode se manifestar de maneiras imprevisíveis. É uma jornada emocional que envolve altos e baixos, e muitas vezes nos confronta com nossos próprios limites e medos.

Enfim, a conexão entre a letra da música “Um Dia, Um Adeus” e a trama de “Que Mais Posso Querer” é comovente e profundamente impactante. Ambas as obras me levam a questionar as complexidades do amor e as consequências de nossas escolhas. É uma expressão poderosa da experiência humana e uma verdadeira obra de arte que me toca em um nível profundo.

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