Querido Diário: Edição Cineclubes #4 (Maia)

Querido Diario - Edição Cineclubes

“Querido Diário: Edição Cineclubes” é uma rubrica original dos criadores do Cinema 7ª Arte que remete o leitor para uma viagem de vespa por Portugal fora, numa demanda dos cineclubes ainda ativos. De cidade em cidade, iremos conhecer cada cineclube e os seus nativos que se esforçam por partilhar a paixão pela sétima arte.

Obrigado por nos receberem aqui na Maia. Apesar de serem um cineclube muito jovem (fundado em 2009) e de estarem numa cidade bastante próxima do Porto, que também tem um cineclube, o cineclube da Maia tem vindo a crescer consideravelmente nos seus primeiros anos de vida, sendo hoje um exemplo a seguir.

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(Foto de: Mariana Bártolo)

Legenda: C7A – Cinema 7ª Arte / CCM – Cineclube da Maia

C7A: O que motivou a criação de um cineclube numa cidade como a Maia, que é muitas vezes vista como uma cidade subúrbio e industrial?

CCM: Exactamente essa imagem – por vezes merecida e por vezes profundamente injusta – de dormitório descaracterizado, impessoal e sem história. A Maia tem quase 150000 habitantes, reduzir tanta gente a uma imagem tão redutora não nos parece sequer possível. A cidade adoptou essa imagem de subúrbio confortável, verde e seguro como estratégia de crescimento, mas hoje em dia ela é muito mais que isso. Dispõe de equipamentos culturais fantásticos e cabe à sua população começar a dar-lhes uso de acordo com os seus interesses. Esse foi e continua a ser o principal objectivo do Cineclube.

C7A: O público adere com facilidade à vossa programação? Vocês criam uma programação pensada em exclusivo para o público?

CCM: A programação foi desde sempre pensada de forma realista, tendo em conta os hábitos culturais dos maiatos. Aquando da fundação do Cineclube não existiam cinemas activos no centro da cidade e o cinema Venepor, onde exibimos regularmente, era apenas utilizado de forma esporádica para exibir cinema. Não existiam hábitos ligados ao cinema e a presença dos multiplex nos centros comerciais periféricos era esmagadora. Ir ao cinema era um acto exclusivamente lúdico, descartável e profundamente individualista. Para nós o Cineclube teria que incentivar uma postura muito mais pessoal, quase de comunidade, mas seria catastrófico se ignorasse a capacidade de entreter que o cinema também tem.

C7A: É dificil para vocês criar uma programação de cinema mais independente e com clássicos do cinema, sem que não apareça muito público?

CCM: O papel do Cineclube da Maia é criar eventos, pontos de encontro. Isso é o mais importante na construção de um público fiel que confia nas nossas escolhas. Hoje em dia, tendo em conta a facilidade com que se acede a todo o tipo de conteúdos, as pessoas passaram a valorizar a forma como a programação se estrutura e, sobretudo, como se apresenta ao público. Desde a primeira sessão no Venepor que nos pareceu essencial aproveitar o bar, convidar um artista que pudesse preparar o público para o filme que vai ver, em suma, criar um lugar onde as pessoas se podem conhecer, conversar, discutir, sempre sob o pretexto de ver um filme. Isso dá-nos alguma liberdade no que toca à programação.

C7A: Costumam passar algum cinema português?

CCM: Sim. Além das obras portuguesas integrarem a programação regular do Cineclube (que consiste sobretudo em reposições de filmes que estrearam no cinema), tentamos exibir cinema português noutros formatos sempre que isso faz sentido: no Cinema da Relva deste ano exibiram-se apenas filmes portugueses e na próxima edição dos Ciclos Pequenos serão exibidos três documentários portugueses.

C7A: Atualmente, em época de muita crise, onde as pessoas tem menos dinheiro para ir ao cinema, como conseguem gerir as contas do cineclube?

CCM: Felizmente não sentimos grandes variações para já. Temos a privilégio de fazer parte da lista de prioridades de um grupo importante de pessoas, espectadores e pequenas empresas que têm garantido a sobrevivência do projecto. Por outro lado, este ano iremos receber apoio público pela primeira vez desde a fundação, o que nos permitirá aumentar a programação e dar passos importantes para nos afirmamos enquanto proposta cultural consolidada na Maia.

C7A: Qual a importância deste cineclube para a Maia e qual a importância dos cineclubes hoje na sociedade?

CCM: Construir uma actividade cultural focada no meio onde se inserem e no público que decidiram construir e educar, algo que o cinema comercial não quer oferecer e que as estruturas centrais do estado não conseguem. Existem objectivos transversais a todos os Cineclubes nacionais, mas julgamos ser aquilo que os distingue que os torna mais importantes. Cada Cineclube é diferente na medida em que se insere num contexto cultural diferente e consegue atingi-lo de forma muito mais eficaz que qualquer grande instituição.

C7A: O público da Maia aderiu positivamente a este projeto cultural?

CCM: O público da Maia não existe enquanto entidade, tal como não existe o público de qualquer cidade. É comum recebermos críticas ao nosso trabalho, positivas e negativas, seria pouco natural isso não acontecer. O que podemos garantir é que o Cineclube foi capaz de construir um público dentro da população maiata, e isso mostra que ele era necessário e soube responder a essa lacuna.

C7A: Sentem falta de apoios do estado ou das câmaras municipais para os cineclubes?

CCM: Como já referimos, iremos receber apoio monetário do ICA pela primeira vez este ano e por isso não consideramos ter experiência suficiente neste tipo de parceira para falar sobre o assunto. Em relação à Câmara Municipal da Maia, iremos também receber um apoio monetário pela primeira vez este ano, para além da cedência das instalações municipais (Cinema Venepor, Pequeno Auditório do Fórum da Maia e Quinta da Caverneira). Em ambos os casos, julgamos que o apoio recebido se adequa à abrangência da nossa actividade.

C7A: Acham que deveria haver uma maior relação de parceria entre outros cineclubes do país?

CCM: Julgamos que poderia existir uma resposta mais energética na defesa dos interesses comuns dos Cineclubes, principalmente no que toca à rápida diminuição da oferta de filmes em 35mm que poderá conduzir ao desaparecimento de algumas associações, como é o nosso caso, se não se criarem meios para equipar os recintos com projectores digitais.

C7A: Uma das vossas iniciativas que vos tem lançado bastante é o cinema ao ar livre, “Cinema na Relva”. Fale-nos um pouco do evento.

CCM: O evento faz parte de uma estratégia mais abrangente de trazer o Cineclube para a cidade, usufruindo ao mesmo tempo das inúmeras praças e jardins públicos que a Maia soube construir nos últimos anos. É o nosso evento com maior orçamento e que abrange mais público, tentando criar um equilíbrio entre a linha programática do Cineclube e o espírito de veraneio associado às noites de cinema ao ar livre. Este ano foram exibidas exclusivamente obras portuguesas, rompendo com a programação dos anos anteriores e testando os limites do formato, uma estratégia cujo balanço está agora a ser feito dentro do Cineclube.

C7A: O cineclube só vive da dedicação e trabalho dos voluntários?

CCM: Sim, e consideramos que no nosso caso em particular isso faz sentido.

C7A: Película ou Digital?

CCM: Película. E esse é o nosso problema mais grave no imediato, como já referimos, e o risco mais importante para a sobrevivência de alguns Cineclubes.

C7A: Um dos principais objectivos de um cineclube é o de discutir e refletir sobre cinema. Acha que os cineclubes hoje tem cumprido essa missão, para além da simples exibição?

CCM: Existem Cineclubes que desenvolvem um trabalho de incrível qualidade e longevidade. Incentivar a discussão e a reflexão sobre cinema por parte do público é um objectivo difícil de definir e perseguir, há boas ideias que falham e há muita margem para demagogia porque os resultados nunca são objectivos. Mas nada é possível sem uma programação cuidada, regular, bem apresentada e bem comunicada e isso a esmagadora maioria dos Cineclubes tem sabido oferecer.

Mais uma vez, um muito obrigado ao Cineclube da Maia!

cineclube da maia logotipoQuerido Diario - Edição Cineclubes - #4

Próxima paragem: Cineclube de Guimarães

Uma ideia original de

Cinema 7ª Arte

Texto de

Tiago Resende

Revisão de

Eduardo Magueta