O Ramiro é um alfarrabista lisboeta. O Ramiro é, também, um poeta de publicações esquecidas, de versos desconhecidos. A vida de Ramiro está dominada pela poesia da rua, pela poesia da vida mundana – mas que grandeza! -, pela poesia da honesta simplicidade – mas que estranheza! O seu sentido de humor é bruto, é simples, é sincero e marca o seu discurso – talvez ele também poético – no dia-a-dia.

O Ramiro é um homem antiquado, com um natural apego por objectos, pessoas, histórias e memórias do passado: uma ligação quebrada por nós, que deixámos que esses elementos se transformassem numa miragem de um passado longínquo. A ligação de Ramiro ao passado não é, no entanto, um amor desmedido – ou absurdo – por tudo aquilo que já aconteceu e que não retorna. A prisão não está no passado, mas sim no presente que procura incessantemente deixar tudo para trás, na tentativa de alcançar o futuro cada vez mais rapidamente.

O Ramiro é um homem de pés assentes na terra, mas com uma visão que ultrapassa os limites deste mundo: ele, tal como as pessoas que o rodeiam e acompanham, apresenta traços de uma humanidade já pouco vista (quase sobrenatural).

O mundo de Ramiro é simples, dentro da complexidade natural e inevitável da vida (tanto maravilhosamente bela, como profundamente trágica, numa magnitude adequada).

Olhar para a vida de Ramiro – esta história ficcional que o rodeia e a que a todos é capaz de dizer alguma coisa – é olhar para (um)a verdade: a não poetização dos versos da vida.

Mozos apresenta-nos Ramiro sob a perspectiva de um olhar – também ele – sincero, humilde e honesto, marcado pela excepcional quebra da – supostamente inevitável – banalidade. Mozos mostra-nos uma vida e uma realidade em que o fogo de artifício não é permanente, em que as explosões não são constantes e em que é aberto um espaço de possibilidades: um espaço onde é possível existir uma respiração natural, um riso descontrolado, uma lágrima fugaz. O olhar de Mozos é de extrema beleza, de uma enorme adequação, de um poder inesperado: um dos olhares mais refrescantes do panorama cinematográfico português deste ano. Uma viagem a um passado que habita o presente do futuro, uma viagem a uma Lisboa que se perde a cada passo, uma aventura pelas peripécias da telenovela das nossas vidas.

Rir com Ramiro é rir da sua tragédia, é rir da nossa tragédia. Rir com Ramiro é reconhecer a dimensão actual de excpecionalidade da banalidade e da sua representação. As suas acções, carregadas de amizade e de amor, são as acções que deveriam existir no futuro deste nosso presente. Rimo-nos de Ramiro, mas a tragédia está em nós: rimos para não chorar.

O docLisboa iniciou a aventura cinematográfica de 10 dias com a apresentação de um registo não-documental carregado de uma verdade (levemente trágica, levemente cómica): a verdade dos homens realmente humanos – mas que raridade!

Se não conheceram o Ramiro, têm de o conhecer.

Se não foi desta, fica para uma próxima (esperamos nós).

Realização: Manuel Mozos
Argumento: Telmo ChurroMariana Ricardo
Elenco: António MortáguaMadalena AlmeidaFernanda Neves
Portugal/2017 – Drama
SinopseRamiro é alfarrabista em Lisboa e poeta em perpétuo bloqueio criativo. Vive, algo frustrado, algo conformado, entre a sua loja e a tasca, acompanhado pelo cão, pelos fiéis companheiros de copos e pelas vizinhas: uma adolescente grávida e a avó a recuperar de um AVC.

«Ramiro» – Já conhecem o Ramiro?
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