Regresso a Casa – A Sala como Memória (Parte 2)

Para celebrar o regresso às salas de cinema, o C7A convidou personalidades ligadas à sétima arte para escrever um pouco sobre a sua experiência de retorno.

Eis, então, a segunda parte do nosso especial.


Foi-me solicitado que procedesse a uma breve análise da experiência de regressar a uma sala de cinema. Análise não satisfaz, seria mais correta a designação de introspeção, que este breve apontamento dispensa pretensões de rigor científico. Ainda assim, não discutiremos aqui emoções e sentimentos, pois ir ao cinema é o produto da aplicação de uma metodologia rigorosa. No caso em questão, iniciou-se o processo com a antecedência de uma semana, justamente no momento em que surgiu a boa nova de que o Ideal iria regressar. A escolha do filme foi simples, sendo o “Retrato da Rapariga em Chamas” o elegido. Discuti o horário mais favorável com o meu parceiro de filmes e, após optarmos pelo dia 1 de junho, redondo, quase premonitório, falhámos na promessa por motivos frívolos de mais para enunciar. Adiámos 48 horas e, por fim, lá dei por mim sentada na sala, como se nada fosse, com a deliciosa vivência das luzes a escurecerem, do senhor da bilheteira a fechar o acesso, do vislumbre pálido do contorno da porta (que a luz exterior timidamente deixa antever), do som daquele instrumento de percussão que não sei precisar com exatidão qual é (mas que incita em cada membro individual da audiência a necessidade de recostar uma última vez, de arrumar os pertences e de focar a atenção em exclusivo na matéria defronte), do engolir em seco face à expectativa perante um ecrã negro; a expectativa de ficar tremendamente tocado, de sair diferente do que se entrou.

Viaja-se, então.

As luzes acendem-se importunamente (é o fim?) e durante uns segundos abate-se em mim uma sensação de desorientação. O regresso não é imediato e por momentos habito ainda no século XVIII e estou naquela ópera milanesa a ouvir Vivaldi; mas afinal a realidade é bem mais convencional e encontro-me numa sala de cinema lisbonense a ver um filme. Sinto-me desconjuntada dos pés à cabeça, um compêndio de fragmentos soltos que não encaixam – quase como se uma fagulha de fogo tivesse saltado de dentro para fora da tela, pousado em mim e dito: “Eis que não és já quem eras, estás desconstruída e agora cabe-te a ti fazeres-te outra mais completa.”

Reconheço nesta valência do cinema propriedades aditivas – a vontade é sempre a de continuar a desferir golpes no torpor da vida diária. Talvez por aí se justifique a dura abstinência precipitada por este período de suspensão – mas triunfámos graças à paciência do apaixonado; diria, então, que não será descabido afirmar:

Eurídice vive.

Inês Neves – Colaboradora C7A

Voltar à sala de cinema. A mesma sala que se diz ser única, na sua experiência coletiva, silenciosa e em escuridão e à qual nos deslocamos, especificamente, para “ver um filme”. É isso que a diferencia da sala de cinema que se tenha hoje em casa, com um televisor ou videoprojetor de altíssima resolução – melhor até do que em muitas salas comerciais – dotado de um poder sonoro estrondoso – melhor do que em muitas salas comerciais – mas que não é “a sala  de  cinema”. A todos quantos se apaixonaram pelo cinema, vendo‐o no recanto escuro do seu assento contra um ecrã horizontal iluminado com as imagens profundamente analógicas de uma cópia em 35 mm – enquanto lá fora chovia – sabe da importância que é o regresso a esse “local de paixão e crime”, aquele que é o do amor ao cinema, pelo que ele é, espetáculo ou arte, conforme seja o dia em se esteja mais para um ou outro inclinado, mas, sobretudo, por ser aquele que se vê no espaço tão específico e com qual ainda estamos tão enamorados: “a sala de cinema”. O primeiro filme que vi, após a reabertura das salas, foi o mais recente de Werner Herzog, o “Family Romance, LLC”. Vi­‐o no Cinema Trindade, a minha sala de cinema de sempre, onde vi filmes enquanto criança, adolescente, jovem adulto e agora – após a sua reabertura comercial – já bem adulto. Tudo o que acima digo ficou impresso em mim através dos muitos filmes vistos nesse cinema e explicam­‐me bem o quanto é importante voltar lá, desde que assisti – absolutamente encantado – à estreia de “Regresso  ao  Futuro”. Se lá ainda volto, como muitos voltam, em tantos cinemas por esse mundo fora, é porque damos toda a importância a esse local mágico e dos sonhos que é “a  sala de cinema”.

Luís Miranda – Realizador e Docente

Entrar numa sala de cinema é sempre um ritual fantástico onde, durante cerca de duas horas, somos banhados por aquela presença constante e prateada que é a luz da tela de cinema. Essa experiência é agora ampliada, depois do confinamento forçado pela COVID-19. Entrar no Cinema Ideal para finalmente ver um filme em sala foi o remédio de que precisava. Após dois meses fechado em casa a ver filmes no PC (eu sei, não se faz), regressar à sala foi um momento especial.

Ao entrar, e por entre as máscaras, sentia-se o pulsar daqueles que se viram privados da sua sala de cinema durante estes dois meses e eu ansiava pelos pequenos gestos da sala: pelo cochichar antes do filme começar, por ver a forma como cada um se posiciona na cadeira, mais ou menos descontraídos, mas sempre expectantes, por ouvir o riso ou o choro miudinho, por ver as luzes a apagar e a descer sobre nós o manto negro da sala, pelo ritual de permanecer sentado até os créditos terminarem para ver o nome do tradutor (pois também faz parte da experiência cinematográfica), enfim, por viver essa experiência comunal que é tão característica da sala de cinema. E que filme melhor do que “Retrato da Rapariga em Chamas”, de Céline Sciamma, que pude finalmente ver projetado no grande ecrã, para partilhar essa experiência conjunta? Tal como no filme, é a memória que nos faz voltar a este lugar de sonho, ela é a força ígnea que incendeia a nossa cinefilia e nos incita a nunca esquecer: a sala é o cinema.

Ainda antes do filme começar, fui abordado por um grupo de jornalistas a fazer uma reportagem sobre a reabertura do Ideal. Perguntaram-me se tinha medo, se ver um filme com máscara me fazia confusão. Respondi que não às duas perguntas. Tinha voltado finalmente a casa e confusão era o que sentia por estar longe.

Nuno Sousa Oliveira – Subcoordenador C7A

É bom ver a vida a reativar, as pessoas a sair e a usufruir dos espaços públicos. Fico particularmente contente com a reabertura das salas de cinema que, ainda antes desta pandemia, já viviam numa situação difícil. Enquanto vejo uma série de iniciativas e eventos culturais a repensarem no seu formato e a virarem-se para o online, a reabertura dos cinemas dá-me conforto e esperança para continuar a pensar em cinema – enquanto espectadora – como uma experiência coletiva. Ir a uma sala de cinema pressupõe um compromisso físico, mas é também esse compromisso, essa predisposição a ir a determinada hora e a determinado lugar, que nos envolve mais emotiva e conscientemente com a obra.

Na verdade, estrear filmes e ir ao cinema, neste tempo em que vivemos, é para mim um ato de resistência.

Rita Bonifácio – Assessora de Imprensa