“Restos do Vento” – Máscaras e Culpas

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A terra prende. Nela, o vento é uma força que traz e leva, mas sobretudo é ele que mais radica os corpos nos caminhos corridos e nas pedras que são o registo mudo das coisas acontecidas, esquecidas, não contadas e guardadas no segredo dos sangues derramados e das violências tidas. À terra não se foge, ela marca o tempo dos passados elididos e dos presentes pagadores. Porque ela não esquece. Os males feitos nos corpos de outros tempos são trazidos para outros corpos, mais novos, mas sempre com um haver a saldar, um pagar pelo outro que ficou por cobrar, um sangue vertido pelo sangue outro caído.

O rito iniciador dos jovens que se querem fazer homens, o uso da máscara que esconde o ardor que deseja o corpo feminino, que avança e tenta tomá-lo é uma pulsão tão pétrea como as montanhas que a foram formando, e ela que, continuado como sempre foi, mais tarde trará, noutros corpos, um mesmo anseio, uma mesma recusa e um mesmo fim que, entre continuação e (ir)resolução, para sempre virá a perpetuar a antinomia (violenta) entre o querer ter e o ter que ter e a impossibilidade de ficar com a corporalidade que não quer ser invadida e ser tão só tida e usada. O mesmo fato-máscara e o mesmo crime – o de um desejo não temperado e violentador – fará os crimes dos jovens, tanto quanto fez os dos adultos.

O segredo e a culpa ardem lado a lado. O Laureano adulto (Albano Jerónimo) seria ela pessoa diferente – ele que sempre assim pareceu – se não tivesse sido batido de tal forma a torná-lo ainda mais diverso e estranho aos outros? A Judite (Isabel Abreu), cumpre a prossecução de uma culpa, a da salvação corporal enquanto jovem, por força da defesa – também ela corporal – que Laureano não lhe negou, protegendo-a da invasão forçada por parte daqueles que a tentavam ter? Aos outros, a Samuel (Nuno Lopes) e Vítor (Gonçalo Waddington) não parece haver uma assunção clara de uma culpa, não dita pelo menos, de terem feito o mal de o deixarem – a Laureano – demasiado combalido, que ele mais não pôde caminhar, a concussão sangrando, e finalmente caído, a consciência apagada e futura auto- percepção ferida? Nada se diz, a tudo se alude, no silêncio.

O mesmo silêncio que fará razão nova e que vitimará um só mesmo, o mais puro, apesar de tudo. Porque Laureano parece um simples e um ingénuo, um inocente – se diga ou se pense – mas ele ama, ama desde há muito. Claro que é Judite quem ele tanto quer. Mas não tem. Quem a teve primeiro foi Vítor e quem a tem agora é Paulo (João Pedro Vaz). Ela, no entanto, está sempre a Laureano ligada. Amor não dito (sempre a alusão) ou culpa que mói, ela leva-lhe mantimentos, acarinha-o, sabe-o como sendo seu, para sempre e para tudo. Assim o usará. Culpa sobre culpa se há-de somar. Aos outros, com mais poder e mais desdém, com mais fortuna e mais engano, depressa o vento virá para cobrar o preço do que para trás não ficou pago e que, por deixar para o futuro novas dívidas a liquidar à terra que não esquece de quem a ela deve sangue, ele assim terá que ser, uma vez mais, derramado.

Entre o paganismo e a secularidade, as tradições antigas e as máscaras revestidas, a festa moderna e o vento que sopra e avisa, fica um corpo picado e varado, semi-comido pelos cães, o do filho de Samuel, Pedro (Ivo Arroja). Ele que tentou ter Salomé com o mesmo tipo de máscara com que o seu pai e outros tentaram tomar Judite. Novo sangrado, nova necessidade de duplamente mascarar o mal feito, o preço pago que gera um outro mal, mais hediondo porque é silêncio duplicado que só viverá sobre a memória da culpa de quem sabe e que nunca dirá.

O enredar de uma intriga mortal, enganadora ao limite, fará uma vítima também duplicada, o mesmo Laureano. Descoberta por Judite que é a culpa de Salomé – que não aceitou a invasão de Pedro e o matou – é ela quem arquiteta a construção de uma outra culpa, falsa, pedida e rogada até, a Laureano. Ela sabe que o seu amor por ela o fará aceitar tudo o que ela lhe pede. Assume ele a responsabilidade pelo assassinar de Pedro. Nem Paulo acredita que tal possa ter sucedido quando o interroga no posto da Guarda. A inocência – forma de bondade, é claro – é tal, que nenhum dos motivos e supostos modos de matar de que Laureano fez uso o incriminam de qualquer forma. No entanto, fica encarcerado.

O processo está lançado. O urdir intriguista é mais forte e profundo na pedra das montanhas. A noite é mais perigosa. Os caminhos estão vazios. Os cães vagueiam (eles que foram outros culpados improváveis e que, por ironia, são os usuais companheiros das deambulações de Laureano). A porta da cela abre-se. A máscara está ali. Como quando era jovem, como quando a sua vida poderia até ter sido outra. O corpo mascarado vai-se. O posto está deserto. Nada está ali para o prender mais. O que faz Laureano? Sai, na calma dos que estão em paz com o mundo e não percebem das mundanidades das leis, prisões, culpas e penas. A porta foi aberta pela razão de fazer cumprir a intriga maior: a de fechar a culpa de Salomé (e a de Judite, Vítor, Paulo e todos quantos participam nela, sabedores e não sabedores). A Samuel já tinha aludida (outra vez, como sempre) a ideia (!) de que teria sido Laureano o matador do seu filho. No descampado, entre as luzes dos faróis dos carros e por entre os corpos mascarados, Samuel mata à faca Laureano. Mais um exercício de poder, mais um exercício do mal. Esse mal que o vento cava e a terra cala.

Ficará novo segredo, do qual não se falará. O preço antigo foi pago. Um novo preço se fez. Esse também foi saldado. Para as gerações futuras, um outro se escreveu, como um haver a um dia (re)saldar. O mal, esse o vento trará. Uma outra vez. Porque ele, o vento, sempre vai e volta. Uivante e implacável. A terra, essa sempre fica, para prender, no silêncio das montanhas.

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