Três mulheres sentadas numa mesa, iluminadas pela luz de uma lareira, discutem o que terá levado Orfeu a, no momento decisivo em que regressava ao mundo dos vivos com Eurídice atrás de si, se voltasse para trás para a ver, fazendo com que a sua amada retornasse ao mundo dos mortos de onde o apaixonado Orfeu a tentara resgatar. Sophie, a mais nova e mais inexperiente, na inquietação provocada pela história de amor não concretizada, acha que Orfeu olhara para trás sem que houvesse qualquer motivo válido que o levasse a deitar tudo a perder. Héloïse, que lê a história, afirma que o ato não passou de uma loucura de amor. Sem que conseguisse resistir mais um segundo, Orfeu, louco enamorado, não conseguira esperar mais para voltar a ver a sua amada. Marianne coloca a hipótese de que virar-se no último momento tenha sido a decisão de Orfeu. Ele escolhera a lembrança de Eurídice: “Ele não fez a escolha dos apaixonados, mas sim a dos poetas”. Héloïse procura reformular a sua posição: talvez Eurídice naquele último momento tenha pedido a Orfeu para que se virasse.

“Retrato da Rapariga em Chamas” é um filme realizado por Céline Sciamma que nos conta a história de uma pintora, Marianne, que é contratada para pintar o retrato de casamento de Héloïse, uma jovem que acaba de sair do convento e que tem um casamento arranjado com um nobre de Milão. Héloïse recusa posar para o retrato, pois fazê-lo seria aceitar a sua condição, ato que recusa veementemente. O quadro terminado significa para Héloïse o fim da sua liberdade, a aceitação irrevogável da sua partida para Milão para casar com um homem que não conhece.

Marianne é a pintora contratada para o trabalho, o primeiro pintor tendo desistido, devido à falta de colaboração de Héloïse. Para evitar novos contratempos, Marianne é contratada para fingir ser apenas uma dama de companhia. Durante o dia passeia com Héloïse, observando-a e, à noite, pinta-a de memória ou com base nos rascunhos que faz às escondidas durante os passeios pela praia. Marianne é a observadora e nós, espectadores, somos quem observa o crescente amor pulsante que as invade nas intensas trocas de olhares. Assistimos à passagem do olhar analítico de Marianne para um olhar de desejo e cumplicidade. No momento decisivo em que, terminado o quadro, os destinos das duas mulheres deveriam seguir caminhos diferentes, Héloïse mordazmente critica a expressão do seu rosto colocando a questão: “É assim que tu me vês?” A pergunta fere Marianne não por colocar em causa as suas aptidões enquanto pintora, mas por perceber que a pintura não representa o traço de uma mulher apaixonada que dedica tempo e amor a cada linha do rosto da mulher que deseja. Do mesmo modo que Eurídice decide no momento final o seu destino, Marianne decide o seu, apagando o rosto do quadro que pintara, obrigando assim ao prolongamento da sua estadia para que um novo retrato seja feito. Este gesto confirma a necessidade de ambas em estar próximas. É a partir do momento em que Héloïse aceita posar para Marianne que a pintora passa do papel de observadora ao de observada. Na realidade, percebemos que ambas se observavam desde o princípio. Numa fase inicial, o desejo e a desconfiança unificavam-se num olhar severo e questionador. Depois, os olhares passaram a transmitir uma certeza e uma incapacidade de negar o que as unia.

“Retrato da Rapariga em Chamas” é um filme sobre o poder incontrolável do amor que torna em cinzas convenções, medos e incertezas. O fogo associado a Héloïse simboliza tanto a paixão proibida, como a sua fragilidade diante da realidade imposta pela sociedade da época. Acima de tudo é um filme que nos mostra como o amor subsiste na memória, apesar de efémero na sua consumação. A estética do filme de Sciamma é levada ao seu mais alto nível poético através de planos que parecem autênticas pinturas. A arte funciona como última possibilidade de relembrar a pessoa amada, através da sua imagem. Tal como o Orfeu descrito por Marianne que olha Eurídice sabendo que a vai perder, escolhendo o final poético, em que o amor prevalece exclusivamente na memória. 

O filme, vencedor do prémio de Melhor Argumento e do “Queer Palm” no Festival Internacional de Cinema de Cannes, estreia nos cinemas portugueses a 12 de março.

«Retrato da Rapariga em Chamas» – A Memória do Amor
5.0Valor Total
Votação do Leitor 3 Votos