Sinto que, quando escrevo um texto crítico sobre um filme, as minhas palavras tornam-se uma nova vibração que dele emana, um corpo abstracto e simbólico que procura registar e traduzir a carga de intensidade que ficou presa dentro desse duplo criado no e pelo meu corpo. Com “Roma”, esse corpo abstracto –  ou corpo sem órgãos, como Artaud o pensou – foi forjado por uma pluralidade de afectos: afectos-som, afectos-luz, afectos-emoção, afectos-intelecto. Todos eles se conjugam e misturam para criar uma experiência cinematográfica irrepetível.

“Roma” é uma autobiografia feita com o doce mel da nostalgia que não deixa de lado os tragos amargos que a infância pode conter. O realizador expressa as suas memórias, voltando à sua infância com um olhar tão terno quanto verdadeiro. Cuarón opta por não se imiscuir dentro do filme através de uma personagem onde pudesse projectar a sua subjectividade, preferindo permanecer o observador discreto da sua própria história, para assim fazer reluzir, com uma naturalidade desconcertante, tudo o que aparece no ecrã.

Esta perspectiva é paradoxal, pois ao mesmo tempo que nos parece distante e contemplativa, consegue ir mostrando, e desvelando, a corrente de afectos que perpassa todas as pequenas coisas e os pequenos gestos. Estamos perante um filme-poesia, onde o estilo contemplativo cria uma horizontalidade destruidora das noções mais abstractas sobre a vida.

A câmara desce de um qualquer céu metafísico para poder contar a história do filme na forma de um gesto. Quem narra a história é a própria câmara, focando-se no espaço da casa e na personagem de Cleo (Yalitza Aparicio). A tríade câmara-Cleo-casa está já no plano de abertura: nos movimentos da água que lentamente se vai agrupando sobre os mosaicos que constituem o espaço estreito e sujo da casa que Cleo, repetidamente, vai limpando.

O filme evolui ao sabor das próprias imagens. Tudo é discretamente anunciado. A câmara passeia pelo espaço para captar os signos de uma forma incrivelmente subtil, numa conjugação de signos coesa. Não precisamos de grandes planos, nem de diálogos – muito menos de legendas ilustrativas – para percebermos a evolução temporal do filme ou a sua narrativa orgânica. Para percebermos o seu lado político, não precisamos de cenas que apontem para o tema, pois progressivamente vão surgindo imagens em cartazes e t-shirts com o nome “Luis Echeverria” ou mesmo as paisagens locais esquecidas e pantanosas, assim como o estado de degradação das casas. Estes signos anunciam uma intensidade política presente, que irá acabar por revelar-se em toda a sua força.

O lado social do filme revela-se por um simples movimento de câmara. As classes sociais distinguem-se pela força motriz base do filme – e da vida -, Cleo. A vida da burguesia aparece, mas apenas como uma emanação dessa força activa. A câmara entra nesses espaços para poder tomar uma posição ao escolher sempre seguir o corpo de Cleo para, através dela, nos mostrar essa força activa em acção: quem cuida, quem apaga os fogos e arrisca a sua vida perto das chamas; quem se lança ao mar para salvar as crianças, apesar de não saber nadar.

No decorrer destas cenas, uma parte da sociedade apenas assiste, supervisiona, controla. Numa das cenas mais sublimes do filme, Cleo entra no mar para salvar duas crianças que se afastam da costa; o som das ondas vem intensificar a cena, para nos fazer sentir a omnipotência do mar enquanto algo capaz de nos engolir em instantes. Quando a tensão da cena está no seu término, vemos que a mãe das crianças, afinal, se encontrava por perto. Porém, em nenhum momento da cena, Cuarón, opta por apontar para negligência ou cobardia; apenas mostra a parte que sempre mostrou ao longo de todo o filme: a que age, a que trabalha, a que salva.

Existe uma constante presença de algo que ameaça tudo destruir. Ninguém está a salvo e a morte fica sempre à distância do próximo instante. O sismo que irrompe de forma brutal e que faz cair pedaços do edifício da maternidade sobre uma incubadora mostra esse lado abismal da existência, enquanto a respiração do bebé aparece como símbolo de fragilidade, de esperança, de recomeço.

Esta cena remete-nos para “Filhos do Homem” ao dar a ver esses dois lados da existência, um mundo em ruínas, que é habitado pela potência do novo, da criação. Porém, o nascimento do bebé de Cleo parece mostrar um lado mais negro de Cuarón. Não a desesperança, mas uma consciência forte da forma como a sociedade se reproduz, em que uma das partes nasce já desprovida das partes vitais para uma vida crescente, nas suas condições materiais. Há uma parte da sociedade que nasce condenada.

“Roma” é tradução da vida. As suas imagens parecem ser banhadas por uma luz que vem de fonte sobre-humana, que as veste de graça. Tudo o que aparece são “os signos escolhidos”, os que merecem uma elevação moral, uma dignificação pela arte. O próprio cinema recebe o seu maior elogio, pois o espaço do filme torna-se um lugar habitado.

Tudo o que resta é sentir a pulsação que existe nos interstícios de vida de um corpo, que oscila sempre entre o abismo do nada e a alegria de existir ou sentir a verdade dentro do poder afectivo de um rosto, o seu olhar no vazio, intensificado pelo silêncio. O nosso corpo é trocado por outro, esse que já absorveu todos os afectos: os que vieram nos sons das vagas do mar, na luz que nele se reflectia e que provinha do sol dissimulado no horizonte, na ternura e emoção que os gestos de Cleo fazem chegar até nós.

Realização: Alfonso Cuarón
Argumento: Alfonso Cuarón
Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey
EUA/2018 – Drama
Sinopse
: Um retrato doméstico e íntimo passado no México dos anos 70. Este filme profundamente pessoal regista um ano na vida de uma família de classe média residente no bairro de Roma, na Cidade do México, no início da década de 70, tendo como personagem central a empregada doméstica Cleo. Uma recriação da infância do cineasta mexicano Alfonso Cuarón, conhecido pelos filmes “Gravidade”, com Sandra Bullock e George Clooney, e “Os Filhos do Homem”, com Clive Owen e Julianne Moore, e galardoado pela Academia de Hollywood.

«Roma» - O cinema num gesto
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