O último filme de animação do realizador esloveno, Milorad Krstic, é uma viagem surrealista às regiões mais recônditas da psique humana, onde as imagens das mais célebres obras de arte da história da humanidade, assombram a mente de um psicoterapeuta, Ruben Brandt, muito bem reputado na área da terapia através da arte.

Ruben Brandt, com a intenção de parar as suas recorrentes alucinações onde é atacado pelas personagens presentes nos mais célebres quadros, conta com a ajuda dos seus três pacientes e Mimi, uma acrobata, ágil e astuta, para ter na sua posse as obras onde elas estão representadas. Entre estas investidas da quadrilha de Brandt, o detective Kowalskié chamado a perseguir o grupo para recuperar as obras roubadas, e, como as ofertas pela captura dos ladrões vão sendo cada vez mais avultadas, o mafioso Vincenzo entra também na perseguição para obter o prémio.

O argumento é complexo. Sendo Ruben Brandt a personagem central, à sua volta gravitam várias personagens que vão preenchendo a trama, imprimindo-lhe o fulgor de acção que a história necessita para progredir. Mimi é a personagem-movimento. A sua presença na história é tão essencial como a de Ruben, o protagonista. Se Ruben é a intensidade psicológica do filme, Mimi é o seu movimento. Mimi, sendo uma ex-acrobata circense, o seu corpo passa a ser a pedra de toque para as cenas mais aceleradas, onde a acção é mais intensa. Este é um traço bastante presente no filme, principalmente nas cenas de perseguição, e um belo exemplo é a cena que abre o filme. Por vezes, a trama parece-nos superlotada de personagens e movimento; porém, acabamos por perceber o esmero e detalhe que o realizador impõe em tudo o que é máquina e movimento. Tudo o que é maquinal está desenhado com um enorme realismo.

Os desenhos recuperam o estilo que o realizador já havia colocado na sua primeira obra cinematográfica a curta de animação “My Baby Left Me”, de 1995. Nesse seu trabalho– um pequeno filme de 9 minutos,  com um teor experimentalista – o realizador opta por desenhar os corpos fragmentados, dando às imagens uma plasticidade onírica, onde elas se vão movendo mantendo o mesmo ritmo – musical -, numa espécie de locomotiva que avança pelos movimentos sexuais que se vão insinuando dentro de todo o surrealismo que perfaz o seu filme.

Nesta sua obra, a imagem mantém o estilo surrealista e os corpos parecem saídos de um movimento cubista, ao serem desmembrados para constituir um novo corpo. Artistas como Velázquez, Renoir, Magritte, Hopper, Gauguin, Manet, Botticelli, têm as suas personagens a deambular pelo filme como personagens capazes de, pela mente de Ruben, ter uma presença activa na história. Em certo ponto da narrativa, descobrimos que o pai de Ruben pertenceu à polícia secreta da RDA (República Democrática da Alemã) como especialista em psicotécnicas, isto é, propaganda política. O cinema era uma das principais ferramentas de propaganda da União Soviética, que ainda manteve algum fulgor dentro da Alemanha Oriental. No filme, esse poder do cinema, é causa dos tormentos psicológicos de Brandt. O subconsciente é o local onde vivem as imagens mais intensas que guardamos. Isso quer dizer, também, que a arte tem um papel fundamental nas nossas vidas, uma vez que produz imagens capazes de nos afetarem de uma forma indelével.

É esse poder da imagem que o filme retrata e expõe, através de uma composição pictórica tão plástica que não é comum no género. Essa originalidade é a sua maior virtude, que apenas acresce ao verificarmos como a narrativa nos consegue facilmente atrair, tanto pela sua excepcional organização como pelas pitadas de humor que vão sendo nela, tão inteligentemente polvilhadas.

Realização: Milorad Krstic
Argumento: Milorad Krstic
Elenco: Iván Kamarás, Gabriella Hámori, Zalán Makranczi
Hungria/2018 – Animação
Sinopse
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«Ruben Brandt – O colecionador» - Uma animação do rés-do-chão do pensamento
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