Talvez mais nada nos mova tão intensamente senão a força agonística, de rivalidade e competição, que os antigos gregos louvavam. Essa força era tão intensa e importante que nos foi legada para que nunca nos esqueçamos que nenhuma história, real ou ficcionada, existe sem uma força capaz de imprimir um movimento em direcção a algo e uma outra que se intromete nesse movimento para dele se apropriar, destruir ou superar. A Fórmula 1 teve vários exemplos de rivalidades ao longo da sua história, e o filme de Ron Howard é o melhor retrato de ficção de uma delas que alguma vez foi levado a cabo.

O filme apresenta-nos a perspectiva de Niki Lauda, o emblemático ex-piloto austríaco, que recentemente nos deixou. Ele é o ponto de partida, e começa a narrar-nos a sua história desde dentro do cockpit do Ferrari 312T2, na grelha de partida da corrida onde viria a sofrer o acidente que quase lhe custou a vida, em Nürburgring. Após Lauda nos dizer que só loucos, lunáticos e sonhadores estariam dispostos a arriscar as suas vidas dentro de uma bomba com quatro rodas, é o recurso ao flashback que faz retroceder a história até seis anos antes do acidente. Entramos no ano de 1970, altura em que os dois pilotos corriam na Fórmula 3. Começamos então a ver a génese da rivalidade, por um lado o reconhecimento do valor mútuo, mas, também, como as suas personalidades eram tão antagónicas: de um lado, a extrema leveza e vida boémia de James Hunt; do outro, a frieza, a determinação e disciplina de Niki Lauda.

Hunt conduzia tal como vivia, com o mesmo ímpeto vital de quem coloca toda a sua energia em cada instante da sua existência. Antes das corridas a ansiedade era tão intensa que Hunt vomitava. Mas, nada como um bom copo de champanhe e uma passa num charro para lhe retirar o gosto amargo da boca e lhe dar um animo extra para enfrentar o volante. Lauda, para conseguir o seu lugar na Fórmula 1, teve de renegar os negócios da família e, com uma grande coragem e ousadia, pedir um empréstimo bancário para poder começar a correr numa equipa de Fórmula 1, que estava a precisar de alguém que lhes trouxesse capital. Assim que consegue o seu primeiro contracto F1 com a BRM, ao lado de Clay Regazzoni, todos notam que um génio está de chegada, na forma como começa a mostrar toda a sua sensibilidade e conhecimento ao afinar, em conjunto com os engenheiros da equipa, o seu carro. Enquanto Lauda fazia o seu caminho até à Fórmula 1, James Hunt ganhava, também, o seu lugar na categoria, quando Alexander Hesketh arriscou tudo e resolveu comprar um lugar para a sua equipa dentro do mundo da F1.

A partir do momento em que os dois pilotos se encontram na Fórmula 1 e se aproximam pela qualidade dos carros em que correm, a disputa ganha uma nova dimensão. Ambos tornam-se muito acarinhados pelo público, muito pelo destaque que vão conquistando a cada corrida, mas também pela forma como ambos rivalizam, dentro e fora das pistas. O acontecimento central do filme é o acidente de Niki Lauda, a 1 de Agosto de 1976, na pista alemã de Nürburgring, o “cemitério verde”. Apesar do apelo de Lauda para que a corrida não se realizasse, Hunt possuído por um prazer de contradizer Lauda, e usando da sua simpatia, consegue que a votação dos colegas pilotos recaia para o lado da realização da corrida. O que era temido aconteceu, Lauda bateu e o seu carro incendiou-se com o piloto no interior. Graças à rápida assistência, Niki Lauda foi retirado do carro, mas não conseguiram ser evitadas as graves queimaduras no corpo assim como os fumos que foram inalados para dentro dos seus pulmões. Lauda mostra o estofo de que é feito um campeão, possuído por um obstinado desejo de voltar para as pistas para não entregar o campeonato a James Hunt. Com o padre a dar-lhe a extrema unção, pensando que o piloto estava já destinado ao mundo dos mortos, este vai ao fundo de si, das suas forças vitais e, com o olhar posto na televisão do hospital que transmite a corrida, pede ao médico para repetir a drenagem dos seus pulmões, como se a dor daquela intervenção fosse toda ela justificada pela sua sede de voltar a sentar dentro de um carro de corrida e mostrar a Hunt que ainda poderia vencer o campeonato.

Em termos narrativos, é este o momento-chave do filme, onde é mostrada a vontade do piloto de voltar a correr e tudo o que ele passa para que esse regresso se concretize. E, surpreendentemente, Lauda volta. Mesmo com alguma dor, o piloto voltou para competir em Monza, no Grande Prémio de Itália, onde conseguiu o 4º lugar. Porém, o campeonato de 1976 acabaria por ser ganho por Hunt, tendo Lauda decidido desistir de correr, no Grande Prémio do Japão, devido ao excesso de chuva.

Ao nível da cinematografia, o grande destaque é, sem dúvida, a montagem. São poderosas as imagens que nos mostram a actividade interna de um motor, as ignições, as explosões, o movimento das válvulas, no fundo, não só vemos, como sentimos, o intenso movimento que é gerado por essas poderosas máquinas. Quando os carros se movimentam, o encadeamento de imagens escolhido, assim como a dinâmica dos sons que lhes correspondem, fazem com que a sensação de velocidade aumente e com isso, a nossa experiência do movimento ganhe um fulgor que só o cinema nos pode dar a experienciar. Talvez possamos fazer uma comparação entre a montagem cinematográfica e o gesto de pilotar um carro de Fórmula 1. Lembro uma declaração dada por Gilles Villeneuve, que, quando confrontado com a pergunta sobre o que leva um piloto a querer colocar a sua vida em risco, pilotando um carro que atinge tão elevada velocidade, o piloto afirma: ”não é  a necessidade da velocidade por si só, porque a velocidade não é nada em si mesma, podemos andar a uma velocidade de 800 km/h, em linha recta, e isso não significar nada, eu penso que é mais a sensação do controlo do carro, quando ele está no seu limite”. O cinema possui um pouco desta ideia que Gilles atribuiu à pilotagem de um carro de Fórmula 1, pois não se trata do movimento em si, cru, mas sim da forma como escolhemos como esse movimento apareça. O cinema existe para retirar as coisas do seu movimento dominado pela inércia e pela monotonia, e devolvê-las ao mundo como coisas vivas, que passaram por um processo que as duplicou, e que nesse duplo foi-lhes dada uma existência nova, preenchendo-as de uma luz capaz de criar dentro de nós uma paixão que até então estava adormecida. Posso ver 1000 corridas de Fórmula 1 na televisão, mas nenhuma delas conseguirá fascinar o meu olhar como as imagens cinematográficas, aquelas que foram criadas para mostrar a força do engenho que se esconde dentro daquelas carcaças forradas a autocolantes publicitários.

Isto para dizer que a montagem é a essência deste filme, é aquilo que dá brilho a uma história que possui todos os ingredientes para nos apaixonar. A rivalidade que fez acelerar a pulsação dos pilotos é a que faz, agora, acelerar a nossa: ao vermos aqueles seres em auto-superação constante; o acontecimento inesperado, a tragédia sempre iminente, que tanto nos rouba seres humanos admiráveis, como no faz ver como existem capacidades humanas de superação que nunca pensamos que fossem possíveis existir.

«Rush – Duelo de Rivais» - A vontade de vencer: quando a rivalidade é uma potência extra
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