«Safer at Home» – “nem tudo vai ficar bem”

Podemos estar sentados nos nossos sofás à vontade, os filmes de confinamento estão somente no seu sorrateiro início, porém, trazendo consigo, elementos não de todo novos.

“Safer at Home” é o mais recente thriller de Will Wernick, realizador dotado nos últimos tempos de um apetite voraz a enclausuramentos, nem que seja por meios recreativos que de alguma forma dão para “o torto”, as armadilhadas Escape Rooms, impostas no seu homónimo projeto de 2017 e na sua variação de 2020 – “#SemSaída”. Contudo, é com o dito locked down, que regressa, em recursos voluntariamente limitados e de narrativa de igual ambição. Aqui, em “Safer at Home”, no meio da pandemia de Covid-19 nos EUA, sete amigos reúnem-se numa videoconferência para emborcar e se envolverem em jogos lúdicos de forma a facilitar os dias monótonos e cinzentos. E é no calor desse convívio, acompanhados por álcool e drogas, que a situação descarrila, adquirindo contornos trágicos.

“Safer at Home” é, na sua composição, um desktop film – estilismo que tem vindo a ser preparado para os nossos dias graças a cultos de género como “Janela Aberta” (Nacho Vigalondo, 2014), “Unfriended: Desprotegido” (Leo Gabriadze, 2014) e “Searching: Pesquisa Obsessiva” (Aneesh Changaty, 2018), tendo sido anteriormente introduzidos, em contextos divergentes (pressuposto), em ensaios como “Transformers: The Premake (ADesktop Documentary)” (Kevin B.Lee, 2014) ou como dispositivo narrativo de “Hermosa Juventud”, do catalão Jaime Rosales – que nos leva a questionar sobre a nossa própria segurança, e mais, impotência sentida num isolamento destes tempos incertos (a verdade é que esta descrição já se tornou mais que cliché). Sem grandes apetites para ambições, tratando-se de um thriller que encaminha o nosso conforto para territórios comuns, com isto levando-os posteriormente a uma hipérbolica distopia (se bem verdade, há aqui vestígio de reciclagem às fórmulas de found footage).

Sendo aí [a dita distopia], perante algumas inverosimilhanças palpitam intermitentemente no enredo, que este estilo emergente (confessamos, já soam caducados) assume como novidade. É o medo partilhado e instalado em cada um de nós, a de um confinamento indeterminado. Porém, tal como aconteceu com outros exemplares desta vaga de produção pandémica, “Safer at Home” é novamente um retrato do recolhimento privilegiado, dando a entender que estamos “todos no mesmo barco”. Infelizmente, não é isso que temos vindo a experienciar – porque há quem esteja num cruzeiro, outros num iate, e vários de nós em botes salva-vidas.

«Safer at Home» – “nem tudo vai ficar bem”
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