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O que dizer depois desta obra-prima? Pouca coisa fica por expressar, quando o filme te dá tudo. Tudo. Nas entrelinhas da emoção, encontra o clímax da humanidade, o apanágio da ficção, torna tudo possível. Vive de amor, transpira e inspira tudo aquilo pelo qual vale a pena sonhar. A história de um casal afro-americano de uma Harlem repleta de preconceito e julgamento é o tema que suporta a narrativa que serve de adaptação ao romance homónimo de James Baldwin.

Barry Jenkins transforma um argumento adaptado em pura magia: uma poesia do princípio ao fim, um mar de possibilidades, onde o amor reina, do princípio ao fim. O célebre realizador de Moonlight (2016), o real vencedor dos Óscares de há dois anos, transforma a simplicidade num paraíso de paixão, ternura, encontro de almas e amor. A palavra de ordem desta obra de arte cinematográfica, que conta a história eterna de Tish Rivers (interpretada por Kiki Layne) e Alonzo “Fonny” Hunt (Stephan James, conhecido pelo seu papel na série “Homecoming“). De realçar a performance de Regina King, dando pele a Sharon Rivers, a mãe de Tish, que, ao que tudo indica, lhe vai valer o Óscar de melhor atriz secundária.

Fonny é preso injustamente por violação e deixa Tish por si só, grávida do seu filho. Durante todo o processo de julgamento, é extraordinário como a ligação, mesmo ao longe, fisicamente esteve sempre presente e intacta nos detalhes e, sobretudo, no essencial. Eu só sei que te amo, dizia Tish a Fonny nos momentos de maior aperto. O filme explora muito o contexto das famílias negras numa sociedade de opressão, onde não lhes era dado nada de bandeja, muito pelo contrário; onde o teu nascimento carrega contigo a certeza de que, ou lutas contra tudo e contra todos, ou estás condenado a uma vida medíocre. Um filme com uma crítica social muito forte, onde os diálogos longos – já típicos sob a batuta de Barry Jenkins – são o suporte de uma obra sem rodeios nem truques. Explora a dor de uma família que se vê vítima de um erro judicial propiciado pelo preconceito racial, e que tem de ir à luta para conseguir sobreviver numa Nova Iorque (anos 70) onde o amor se reinventa no meio do tanto desastre.

“Se Esta Rua Falasse” mostra uma relação eterna no conteúdo, imortal na forma, sentimentalmente brilhante na sua essência, prende o coração do espectador do início ao fim com a sua genialidade afetiva. Um hino a um cinema sem fireworks, que vive do sentimento, que mostra como se faz da beleza a palavra de ordem de uma ficção progressivamente real e apaixonada ao olhos da plateia. Interrogo-me como é possível estar fora da corrida a Melhor Filme nos Óscares deste fim de semana.

A banda sonora cria toda uma melodia estonteante, com um enquadramento perfeito com a índole deslumbrante desta película. Uma cinematografia invejável, encantadora, que dá o mote para o início de uma jornada de amor inesquecível. Um romance magnífico, que começa por dar ao espectador o início de uma sinfonia inigualável e simplesmente sublime: This novel deals with the impossibility and the possibility, the absolute necessity, to give expression to this legacy. It is left to the reader to discern a meaning in the beating of the drums“.

Vale a pena sonhar com a (im)possibilidade das coisas só ao alcance dos mestres na arte de sentir. Se esta rua falasse, teria à asfixia racista e ao horror da injustiça a prevalência do amor como mote universal.

Realização: Barry Jenkins
Argumento: Barry Jenkins
Elenco: KiKi Layne, Stephan James, Regina King
EUA/2018 – Drama/Crime/Romance
Sinopse
: Uma mulher negra da zona pobre do Harlem, em Nova Iorque, luta desesperadamente para provar que o seu noivo, e pai da criança que está prestes a dar à luz, é inocente de um crime. Baseado no célebre romance de James Baldwin.

 

 

«Se Esta Rua Falasse» - Se o meu coração não amasse, pararia
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