A mais recente edição do Festival Internacional de Cinema Fantástico do Porto contou, na sua sessão de abertura, com a primeira longa metragem do realizador Sérgio G. Sanchez, “O Segredo de Marrowbone”. No ano de 2002, Sanchez venceu o Prémio Curta Metragem Cinema Fantástico do Fantasporto. A curta vencedora foi produzida por J. A. Bayona, que realizou os filmes “O Impossível” e “O Orfanato”, ambos com argumento de Sanchez. Bayona foi apadrinhado por Guillermo del Toro, que lhe pediu que fizesse o mesmo com um novo realizador. Bayona elegeu Sanchez e assim nasceu esta primeira longa do realizador.

Quatro irmãos Marrowbone, após a morte da mãe e depois de, a seu pedido, enterrarem o corpo no jardim, cumprem a promessa de se fecharem na mansão onde vivem até ao vigésimo primeiro aniversário de Jack (George MacKay).  Enquanto lá vivem, uma presença estranha começa a manifestar-se nos espelhos da casa; porém, é no sótão que se esconde o segredo que os irmãos não querem que seja revelado.

O filme alterna entre os espaços exteriores, verdejantes e idílicos, e o interior, como espaço de protecção, mas ao mesmo tempo onde está localizado o epicentro do mal. Assim, o interior da casa ainda é local de exposição – ao fantasma que os assombra. Este fantasma que os irmãos confinam, tão completamente, no interior do sótão, ao vazar desse espaço, exige um novo esconderijo, este que é uma pequena tenda improvisada onde os irmãos se escondem. O realizador fala destes interiores como se fossem várias camadas, como bonecas russas que se inserem umas dentro das outras. Talvez estas várias muralhas sejam uma compensação da ausência da figura protectora da mãe. O espaço da casa torna-se, assim, um elemento fundamental para o filme e o próprio realizador quis que ela fosse real para que estas transições entre interior e exterior fossem feitas da forma mais natural possível, assim como para conseguir fazer um maior uso da luz natural. Esta opção revela-se positiva nas cenas que são filmadas nas proximidades das portas e janelas da casa, conseguindo que o sol embeleze a fotografia desses planos.

Achei curioso como, por vezes, são os pequenos gestos e expressões que persistem na nossa memória quando saímos da sala, e aquilo que trouxe para fora da sala foi um grito de terror de Mia Goth, quando uma bala trespassa o vidro de uma janela. Este género vive das intensidades afectivas que emanam da expressão corporal. O rosto gritante de Janet Leigh, na famosa cena da banheira, em Psycho, é disso um bom exemplo. A câmara foge do que é demasiado explícito e procura todos os signos que possam traduzir a intensidade daquilo que está a acontecer: a faca, o rosto, o sangue, mas nunca a facada. Nos dias de hoje, o cinema de terror mostra demasiado e volta a câmara mais para os objectos de susto do que para a reacção de susto que nasce da afecção que os corpos dos actores traduzem. A emoção perde o seu lugar dentro da tela na tentativa de a forçar no espectador. Mas, esta pequena cavilação foi apenas pela nostalgia que me suscitou o poder afectivo, emotivo e significativo do grito de Mia Goth.

O estilo narrativo é complexo e isso influencia bastante a experiência do filme. A certa altura existem narrativas paralelas, que mostram vários tempos distintos. Estas cenas são centrais e vêm dar o desenlace que o espectador procura desde a primeira cena do filme. Os segredos são finalmente revelados e ficamos a pensar sobre a concomitância de tempos da narração, na tentativa de decifrar o que está a acontecer, o que já aconteceu e o que, afinal, talvez não tenha acontecido. Esta opção narrativa pode ser uma forma eficaz de trazer o filme para fora da sala e fazer com que os espectadores conversem e tentem chegar a conclusões, talvez diferentes, sobre a história do filme. Contudo, penso que esta torção narrativa pode fazer com que a experiência do filme como um todo emperre.

O filme é, visualmente, bastante polido. Nota-se uma preocupação ao nível da imagem e da sua composição. Mas esta é uma marca geral do cinema contemporâneo, sempre a polir e limar as formas e os exteriores, esquecendo, por vezes, de voltar a câmara para os afectos que vivem nos interstícios das rugas faciais, nos lábios que se movimentam quase por si mesmos, nas intensidades infinitas e singulares que existem num olhar.  Este filme consegue contar-nos uma história e, embora passemos por um tornado que dificulta a sua interpretação, acabamos por sair da sala intelectualmente activos, e isso é bom.

Realização: Sergio G. Sánchez
Argumento: Sergio G. Sánchez
Elenco: George MacKay, Anya Taylor-Joy, Charlie Heaton 
Espanha – 2017
Drama/Thriller
Sinopse
: Devastados com a morte da mãe, quatro irmãos, num estado crescente de depressão e paranoia, decidem refugiar-se numa casa abandonada, tentando permanecer unidos. No entanto, o local esconde um obscuro e perigoso segredo que desafiará a união e a sobrevivência dos quatro.

«O Segredo de Marrowbone» - Infância e Protecção
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