Após “Victoria” (2016), a segunda colaboração da realizadora francesa Justine Triet com a actriz belga Virginie Efira chama-se “Sibyl”, está na programação do 19º LEFFEST e chega aos cinemas na quinta-feira (28).

Além de terem como título nomes de mulheres, “Victoria” e “Sibyl” possuem outras semelhanças (será que daí virá uma trilogia?): alguns actores aparecem em ambos; Efira interpreta uma mãe de duas meninas; alguns detalhes do guarda-roupa e do cenário (um aquário num restaurante e livros dispostos no chão) são os mesmos. Os dois filmes abordam a confusão que pode ser causada por misturar vida pessoal com a profissional, verdades com mentiras. Basicamente filmes sobre (falta de) ética.

“Sibyl”, que é estruturado em flashbacks, demanda que Efira faça dois (ou mais) “eus” distintos em paralelo. Nos dias actuais, Sibyl é psicoterapeuta, mas decide abandonar progressivamente seus pacientes para focar num romance que pretende escrever. Nove anos antes, ela escrevia, era alcoólica e estava obcecada por Gabriel (Niels Schneider), que termina com ela. Essas duas tramas correm juntas provavelmente para a antiga Sibyl justificar as atitudes da Sibyl recente.

Não é tão fácil assim para ela voltar a escrever. Leva o computador para a banheira, lê as notícias no “Le Monde”, mas nada a inspira. Até que, relutantemente, Sibyl aceita tratar uma nova paciente. Margot (Adèle Exarchopoulos) é uma jovem actriz que conquista um papel num filme, mas envolve-se demais com seu colega de elenco, Igor (Gaspard Ulliel), que já é comprometido com a própria realizadora do filme. Eles estão a filmar na ilha italiana de Stromboli, uma homenagem de Justine Triet a Roberto Rossellini e Ingrid Bergman (afinal, histórias de amor nos sets de filmagens acontecem desde sempre).

Porém, Sibyl parece hipnotizada pela história de Margot. A psicoterapeuta quebra as regras de confidencialidade da profissão e grava tudo o que é dito nas sessões, às escondidas. Ela transcreve os áudios e começa a usar a vida caótica da paciente para seu novo livro. Uma crise de Margot leva Sibyl ao set em Stromboli numa viagem que funcionará como gatilho para a psicoterapeuta. “Às vezes, um colapso é um luxo”, diz a realizadora fictícia interpretada por Sandra Hüller (estrela de “Toni Erdmann”). Colapso nervoso é o que mais veremos junto com várias cenas de sexo que fazem jus ao termo male gaze*.

Apesar dos defeitos, “Sibyl” é um retrato bonito e assustador da pressão jogada em cima das mulheres (heterossexuais, no caso) e da cobrança que fazem de si, das decisões egoístas, e dos muitos traumas que carregam.

*ato de retratar mulheres (e o mundo de forma geral) de uma perspectiva masculina e heterossexual, na teoria feminista

«Sibyl» - Virginie Efira de volta ao divã de Justine Triet
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