Falar de Sylvester Stallone entre a intelligentsia cinéfila, é frequentemente garantia de uma boa gargalhada e de desafio ao espancamento desenfreado – que se costuma traduzir em excelente oportunidade para discorrer sobre a sua boçalidade e insignificância artística. O que vale é que Rocky – com a sua matriz cristã – nos demonstra que aguentar o espancamento é uma virtude, e que no fim não é quem bate mais que singra, mas quem aguenta mais porrada. Ao longo de toda a sua vida, Sylvester tem-na aguentado brilhantemente, por isso, se desde já quiserem disparar os vossos melhores uppercuts, sintam-se à vontade.

Produto de Nova Iorque, filho de um cabeleireiro e de uma antiga dançarina, que acumulava as valências de astróloga e que mais tarde viria a organizar eventos de wrestling feminino, Stallone enquadrar-se-ia bem como uma personagem residente algures entre o universo de Fellini e Scorsese.

Reza a lenda que após ter assistido, em Março de 1975 ao combate entre Muhammad Ali e Chuck Wepner, Stallone escreveu ininterruptamente o guião de Rocky – baptizado a partir do lendário Rocky Marciano.

Encetou então o processo de tentar vender a sua versão do sonho americano a diversos estúdios. Arguto e bem treinado no ringue da adversidade, Sylvester tinha uma condição: que fosse ele a interpretar o principal papel. Ciente de que nas suas mãos poderia bem estar o seu futuro, chegou ao ponto de recusar a quantia de trezentos e cinquenta mil dólares pelos direitos, oferta vinda de Irvin Wiknler e Robert Chartoff, que vislumbravam a possibilidade de um Rocky interpretado por estrelas de classe A – como Robert Redford ou Burt Reynolds.

Apesar de ter que lidar com uma redução na verba em perspectiva, Stallone foi inamovível na sua convicção de interpretar a personagem. A teimosia viria a demonstrar-se instrumental.

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A 21 de Novembro de 1976, pela mão de John G. Avidsen, estreava “Rocky”, escrito e protagonizado por um ainda obscuro actor nova-iorquino. Produzida com pouco mais de um milhão de dólares, a longa encaminhou-se imediatamente, rumo ao estatuto de clássico. Neste sonho americano, como não poderia deixar de ser, existe muito de Italiano. À semelhança do que o neo-realismo nos havia trazido, o nosso “herói” não era um deus do Olimpo, mas uma extração das margens da sociedade que consegue transformar o boxe em poderosa alegoria para a batalha da vida. Esta alegoria veio a reverberar no imaginário do grande público. Foi o filme mais rentável de 1976 nos EUA e viu Stallone nomeado para Óscar na categoria de melhor actor e argumento, alcançando porém “apenas” três vitórias – Melhor filme, realizador e montagem. O influente crítico Roger Ebert chegou a vaticinar que Sly se poderia vir a tornar no próximo Marlon Brando.

No plano técnico, é digna de referencia a introdução de uma das mais emblemáticas cenas em Steadicam – inovação de Garrett Brown. A sequência de treino de Rocky, não tendo sido a primeira, viria a indiciar uma revolução na linguagem audiovisual e a modificar a história da escadaria do Museu de Arte de Filadélfia, onde ainda hoje repousa um bronze que imortaliza a personagem.

Seis longas depois, entre as quais “Rocky IV”, incontornável artefacto sociocultural do século XX – Eisenstein empalideceria! – a saga é indubitavelmente uma das mais longas, rentáveis e influentes da história do cinema.

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Com a fama conquistada, tornou-se inevitável que o passado retornasse para ajustar contas com Stallone. Aconteceu com o aproveitamento despudorado do obscuro “The Party at Kitty and Studs” (1970), um filme de pornografia soft core em que Stallone havia participado a troco de míseros duzentos dólares por dois dias de rodagem. Segundo Sylvester a sua participação teria sido consequência de puro desespero de um aspirante a actor, que se viu por momentos votado à condição de sem-abrigo. Um duro golpe para Stallone perante a sociedade conservadora que o idolatrava – um jackpot para os produtores do filme em questão.

Enraizar uma personagem na cultura popular não é para qualquer um, quanto mais duas… em 1982 repetia o feito, mais uma vez com um herói que se movimentava na margem da sociedade: Rambo, em “First Blood” de Ted Kotcheff.

Vejo Rambo como um desses grandes enigmas, que conseguiu mobilizar um público e ideologia que embora possam ser no seu nível mais superficial emparelhados, se encontram de facto nos antípodas das questões político-sociais que a análise da personagem levanta. A sociedade indiferente e autoritária contra a qual John Rambo se rebelava, era precisamente aquela que o aclamava como um herói.

Mais do que um actor, Stallone era agora um ícone dos anos 80 e um poster boy da era Regan, com ela partilhando o seu transtorno pós-guerra.

Definir o cinema de acção, sem ter em conta esta película, é tarefa que nem com a maior má fé se torna exequível.

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A um sucesso desta proporção associa-se inevitavelmente o estigma do typecast. Prova amarga desta condição seria dada pelos desastres de crítica e bilheteira “Rhinestone” (1984), “Oscar” (1991) ou “Stop! Or My Mom Will Shoot” (1992) – nos quais Sly se tentara aventurar no reino da comédia. Os anos 90 foram cruéis, contudo valeram-lhe o reconhecimento pelo seu papel em “Cop Land” (1997), em que contracena com De Niro e Ray Liotta.

A partir de 2006, e após uma carreira cheia, volta a revisitar as personagens que lhe trouxeram a fama. Por esta altura Stallone tornara-se incontestado patriarca do cinema de acção, mas não se acomodaria… Em 2010 realiza “The Expendables”, com o maior elenco de estrelas de género alguma vez reunido. Na primeira semana, escalava até ao primeiro lugar do box office.

Menos conhecida é a sua obsessão por Edgar Allan Poe. Stallone trabalha há vários anos para cumprir a meta de realizar um filme sobre o escritor – antítese dos heróis de acção a que nos habituou.

Em 2016 volta a estar sobre os holofotes, vencendo o Globo de Ouro e encontrando-se nomeado para o Óscar pela sua prestação em “Creed” (2015), uma vez mais com a personagem que o imortalizou.

José Alberto Pinheiro

realizador e professor do ensino superior

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