“Verão 1993”, a primeira longa-metragem da realizadora catalã Carla Simón, premiada em Berlim com o galardão de Melhor Primeira Longa-Metragem, é um belíssimo poema sobre a infância e o turbilhão emocional vivido por uma criança depois de perder os pais.

Frida é uma criança de 6 anos que após a morte dos seus pais é levada para o campo para viver com os tios.

O argumento pode resumir-se em poucas palavras, e essa simplicidade está plasmada em todo o filme. Embora a história seja simples, toda a força invisível que a perpassa é bastante complexa. Carla Simón depura a sua obra para que estas se revelem ao espectador. Não se trata de narrativa, pois a realizadora não impõe nenhum jogo lógico onde a mente do público se regozije ao perceber relações entre causas e efeitos, nem mesmo o acontecimento principal nos é apresentado, só nos é revelado o efeito. Não há nenhuma racionalidade a não ser uma fenomenologia dos afetos, que se tornam visíveis pela singular expressividade de Frida.

O próprio discurso cinematográfico da realizadora foge de qualquer vestígio de artifício lógico, mas também formal. Não se trata de dar forma a um conteúdo, mas sim de deixar que a força do conteúdo se torne forma. A realizadora tem perfeita noção de que, no cinema, a beleza não é algo que se possa forçar, que ela aparece quando estamos dispostos a deixar falar uma voz interior que tem força própria, que se revela a si mesma. Para que esta se manifeste, o realizador deve esculpir mais do que vestir; deve deixar que um conteúdo resplandeça na sua forma própria, no afeto puro que se libertou das próprias formas que lhe foram impostas.

Sabemos que nas artes da imagem, existem várias maneiras de fazer com que a experiência seja sedutora: pela intensidade das cores, pela luz perfeita, pela racionalidade perfeita de uma história, por uma intensa forma dramática, etc. Isto, no entanto, joga com o que se quer contar, nem sempre estas fórmulas resultam para todos os filmes. Aliás, nem devem. Porém, quando despimos o espectador de todas as suas exigências racionais e formais, sobra algo que possui uma intensidade quase religiosa, uma espécie de toque. “Uma espécie” porque fica a questão se alguma vez será possível sair do domínio da representação para termos acesso à pura presença, de acesso sublime a algo universal que se esconde por detrás das formas: o afeto, o embate em nós de algo que vive para lá das nossas limitadas capacidades cognitivas.

Pois bem, de uma forma mais artesanal, o filme de Simón faz uma aproximação a esta verdade que não se explica, mas que se mostra. A inexpressividade de Frida revela mais do que aquilo que esconde; o seu silêncio torna-se o símbolo máximo de uma dor que ainda não se percebeu a si mesma como dor. Assim, a realizadora dá a ver a trajetória destes afetos que Frida prende dentro de si até que deixem a prisão da interioridade para se manifestarem por completo.

Neste filme, com um tom tão contemplativo, é este transito emocional que vive dentro de Frida que pressentimos até se materializar e se apresentar ao nosso olhar. A forma como as invisibilidades se tornam visíveis e os movimentos se tornam mais intensos do que extensos é algo que se conquista com uma mão extremamente sensível, com um olhar que quer tocar o tempo que vive para lá dos organismos e das subjetividades.

Carla Simón criou algo simples, cheio de ternura, que mostra como o cinema pode ser a última morada da esperança, onde uma humanidade perdida se poderá reconhecer e reencontrar naquilo que todos possuímos em comum: a força dos afetos.

RealizaçãoCarla Simón
ArgumentoCarla SimónValentina Viso
ElencoLaia ArtigasPaula RoblesBruna Cusí
Espanha/2017 – Drama
Sinopse
: Prémio para Melhor Primeiro Filme na Berlinale de 2017, esta é uma pequena pérola autobiográfica da realizadora Carla Simón onde o período da infância é retratado de forma evocativa e tocante. O filme venceu recentemente três prémios Goya da academia espanhola de cinema.

 

 

«Verão 1993» - Por um cinema-ternura
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