“System Crasher”, da jovem realizadora alemã Nora Fingscheidt, um drama sobre uma criança de nove anos presa num sistema de proteção de menores saturado, foi alvo de destaque na 69.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, que ocorreu em fevereiro deste ano, e é um dos fortes candidatos ao Prémio de Melhor Filme Europeu de 2019, entregue pela Academia Europeia de Cinema. Impressionou também o júri da Berlinale, liderado por Juliette Binoche, que entregou o Prémio Alfred Bauer” à estreia de Fingscheidt na ficção, por ser um filme que “abre novas perspetivas”.

Benni é uma criança turbulenta, incontrolável, um corpo de fúria, um testemunho da realidade complexa, inadaptada e autodestrutiva do sistema de proteção infantojuvenil e daqueles que nele trabalham. O título “System Crasher” refere essa incapacidade do sistema para ajudar eficientemente Benni, porque este generaliza o seu caso, que necessita de soluções personalizadas – Benni é um ser singular, nunca um número ou então uma ficha de identificação de paciente.

Existe um grupo de adultos que se dispõe para cuidar desta criança. Já foram testados todos os tipos de tratamento, inclusive medicação para doentes esquizofrénicos. Até a solução pouco ortodoxa de Micha, um assistente social que tem a função de acompanhar Benni nos dias de escola, que é passar três semanas com a jovem, num retiro espiritual na floresta, não resolve a situação de Benni: no início da longa-metragem, ela grita, pragueja e quebra coisas, e no final ela grita, pragueja e quebra coisas. A grande questão é: como cuidar de uma criança que ninguém deseja – ou consegue – cuidar?

A inspiração para System Crasher advém de muitas obras antecessoras sobre infâncias precárias, que remontam desde o cinema europeu dos anos 30 – cineastas como Jean Vigo, François Truffaut, Andrei Tarkovsky, Satyajit Ray, Roberto Rossellini ou Yasujirô Ozu que exploram a infância impiedosa de crianças e do seu período de sobrevivência. Antoine Doinel foi figura-chave na criação de Benni: a história de um pré-adolescente rebelde, que lida com um conjunto de problemas resultantes da sua personalidade e do mundo que o rodeia, é um espelho bastante polido de Benni.

Todas estas obras acabam por romantizar a ideia de uma infância frágil: “System Crasher” é violento, furioso e arrítmico – arritmia essa que se torna cíclica, onde Benni tem surtos psicóticos ocasionais, desencadeados por um certo evento, que a levam a ser constantemente internada ou então levada para um novo estabelecimento. Todos os prenúncios de crise da jovem irrequieta tornam-se latentes e antecipáveis.

O pequeno corpo de Benni move toda a narrativa: todos os eventos são influenciados por ela, e todas as personagens que a rodeiam crescem com um excecional desenvolvimento psicológico e emocional, ao passo que Benni anda em ziguezague ao longo de todo o enredo, em rota autodestrutiva.

Quem dá vida a Benni é a soberba Helena Zengel, que é primitiva nos seus surtos de raiva e nos seus silêncios chorosos. Helena é um meteoro, neste elenco bastante competente: vale a primitiva nos seus surtos de raiva pena ressaltar a atuação de Albrecht Abraham Schuch que, acostumado a papeis de galã em filmes de época alemães, fornece um caráter bruto a Micha, o educador que se envolve demasiado com Benni.

A violência de “System Crasher” é traduzida também em estilo e estética. A câmara mostra pesadelos em cor de rosa e pausas visuais, e o design de som é doentio, desesperado e barulhento. Com ajuda da fotografia de Yunus Roy Imer e da montagem de Julia Kovalenko e Stephan Bechinger, o filme é todo este espetáculo do caos bem orquestrado.

System Crasher” abre esta nova perspetiva, onde evita a todo custo julgar a sua impossível protagonista, e o sistema fraturando em que se encontra inserida. Este é o fim da humanidade como nós conhecemos, que testemunha toda a fraturação num período de formação tão especial para uma criança, como a sua infância, causada pela negligência emocional e social, por parte de uma família e de um país.

Realização: Nora Fingscheidt
Argumento: Nora Fingscheidt
Elenco: Helena Zengel, Albrecht Abraham Schuch, Gabriela Maria Schmei
Alemanha | 2019 | Drama
Sinopse: “System Crasher“, a primeira longa-metragem de ficção da realizadora alemã Nora Fingscheidt, segue Benni, uma criança violenta de 9 anos, afastada da mãe, ficando sob a alçada do sistema de proteção de menores. Por não se adaptar e constituir um perigo para outras crianças e adultos, ela salta entre dezenas de lares de acolhimento. No entanto, Benni mostra-se apenas focada em voltar para a mãe, sem se importar com a intervenção, que se encontra já numa fase em que as entidades da sua salvaguarda não encontram outra solução a não ser o uso de forte medicação.

«System Crasher» – No meio do caos está a ordem
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