“Terra Prometida” – A Economia do Desvalor

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Na planura de uma terra sem uma fronteira que não seja a linha do horizonte, onde esse terroso se liga com o gasoso e onde as variações do plano sobem e descem para significarem a ideia de um espaço interior e centralizado, feito das estórias geracionais e do trabalho perene, uma outra significância se sobrepõe: a da postura de finco sobre o chão que se pisa, o terreno de onde se come, o solo que se cuida, a propriedade que se clama.

E se assim os filmes de Gus Van Sant são os da terra interior, afastada dos grandes centros, atravessada pelas estradas que se prolongam até onde tocam o céu é porque param e ficam nesses espaços para lá das fronteiras, só visíveis quando se ultrapassa a colina que sobe um pouco mais do que a planície, mas que é ainda do espaço plano que é a grande interioridade continental, imensa e continuada, produtiva mas desescalada, geradora, mas deprimida.

As economias da terra, da pequena ou média propriedade, das quintas de produção própria e das vilas que alimentam, são espaços que a Van Sant interessam, são espacialidades da promessa descumprida, a que o título alude, em contraposição com o que o filme mostra: a riqueza terrosa, enquanto força produtiva e fazedora de valor pecuniário, já não é palco dessa promessa fluente, antes é a desenganada clareza da desvalorização que ela sofre, não para quem a tem e cuida, mas para quem vem de fora, pronto a defini-la por percentagens e valorações diminuídas. À economia da terra-valor opõe-se a economia do desvalor, representada e figurada em Steve Buttler (Matt Damon), contratante de aluguéis de terra para extração de gás natural em nome de uma grande corporação metropolitana (que até no seu nome genérico e geral – Global – afirma a postura de um capitalismo expansivo e de alcance amplo).

Se ele chega de autocarro – por estranho que assim pareça, visto que ocupa uma posição laboral naquela empresa prestes a ser melhorada para um nível executivo – numa das linhas de transporte coletivo que atravessam o interior dos Estados Unidos, vestido como um normal trabalhador dessa mesma interioridade – e ao contrário do fato e gravata com que se encontrava na cena inicial, fechada ela que foi num restaurante de grande cidade – é porque ele é, efetivamente, e num paradoxo fundamental, um deles, pelo menos na origem interior e rural. Ao desembarcar na pequena vila de McKinley, Steve é também o mesmo que nasceu na também pequena cidade de Eldridge, Iowa. À sua espera está já Sue Thompson (Frances McDormand), sua colega de trabalho.

Enquanto angariadores de outro tipo de promessa(s) – a(s) de um valor que já não é o da terra, mas do (outro) gasoso que está por baixo dela e que tem que a atravessar para gerar um valor que não tem nada a ver com a lógica de crescimento produtivo – ambos têm criar a forma-figura de uma aproximação que terá sempre que ser do domínio do engano, têm que se parecer com os habitantes a quem querem comprar (desvalorizar) algo. Na terra sem centros comerciais, têm que ir até à General Store, espaço significativo e demonstrador da própria economia que pretendem destroçar, a do pequeno empresariado individual, o proprietário único, o fazedor da sua independência e fortuna. Conhecem Rob (Titus Welliver), que logo os identifica como os que vêm de fora e se preparam para a máscara e figura da sua própria formulação de comerciantes da mentira. Por entre os bens de uso da loja e a sua compra para efeitos de ilusão – Steve e Sue pretendem usar o correto vestuário para se imiscuírem na comunidade e passarem como iguais e entendedores das suas vidas e problemáticas – mais se digladiam as duas formas antagónicas da função-riqueza: a do valor-uso para investimento construtivo e gradual do pequeno empreendedor/proprietário contra do valor virtual (cartão de crédito) do assalariado comissionável que representa a compra por atacado e a desvalorização da matéria-terra que os primeiros nutriram e fizeram florescer.

O desnível entre o individual e o corporativo é descomunal, mas é também um engano do enganador: por entre as suas sucessivas visitas aos pequenos produtores agrícolas e o fechamento de contratos, o suborno falhado – porque indexado ao valor desvalorizado da terra – ao Supervisor Gerry Richards (Ken Struck) e a oposição congregante – porque sabedora dos perigos da perfuração para a sua terra – do Professor de Ciências do liceu da vila, Doutor Frank Yates (Hal Holbrook), o processo de engodo chega ao impasse da sua própria falha, a qual é a de diminuir o valor económico da terra, ela que é, enquanto tal, o nódulo essencial de construção da riqueza comunitária. Para além da prescrição e avaliação dos custos e das mais- valias, a terra é agregação: a do tecido económico das quintas que constituem um círculo exterior que converge, através da rede de estradas, para a centralidade que é (e são) a(s) vila(s), elas que são de uma ruralidade de relação e de uma socialização do valor produtivo e criador.

O paradoxo maior é logo o de Steve: pretende sempre comprar a um preço mais baixo do que o real, ele é um enganador porque adopta essa crença e prática cínica como sendo a única e a certa para ajudar aqueles que considera não estarem cientes que esse mundo de produção real já não gera a riqueza sustentadora porque está em perda e a caminho da falência total. No entanto, quando entra no bar da vila, imediatamente ele se integra, sem esforço, na sociabilidade desse espaço de iludidos acerca do valor-produção. Ele sabe que é mais um deles do que possa querer realmente admitir: é um dos que perdeu o esteio dado pela correta e real valorização do ato produtivo, assistiu ao esvaziamento da sua vila natal quando a fábrica geradora de emprego fechou. A deslocalização das estruturas produtivas – função do desvanecimento pós-industrial – e a procura de mais-valias operativo- financeiras nos processos de fabricação, são criadoras dessa desvalorização da ação de produzir pela valorização do ato de comercialização no após produção. Essa é a razão para as ofertas baixas de Steve: ele já não acredita na valoração da terra. Por tal, os seus contratos são negociados de modo a que ele possa dar a ganhar à corporação, o valor que retira do proprietário individual, colocando-o no domínio dos serviços, quando ele é antes do domínio do produtivo.

Apesar ainda do engano sobre o engano, da ilusão sobre a ilusão, estratagema da mentira segunda para o aparentar de uma verdade ainda e sempre mentirosa, materializada e instruída pelo falso ambientalista (e funcionário da mesma corporação) Dustin Noble (John Krasinski), Steve já não mais consegue ser o cínico, nem se enganar mais a si mesmo de que não engana os outros. Mais não pode ele continuar a ajudar quem, por política e método de operação, arquiteta e prossegue com essas mentiras para poder só extrair e furar e não cuidar e nutrir. Ele é só – e de novo – um homem de relação: com a terra e com aqueles que dela vivem.

Na hora da votação final dos residentes, Steve explicita claramente os perigos que o perfurar da terra trará para a viabilidade e continuidade da comunidade civil e económica de McKinley e incentiva-os a votarem contra a exploração de gás natural nos seus solos. O despedimento inevitável é-lhe comunicado por Sue, ela que mais uma vez afirma: “…é só um emprego…”, antes de retornar à cidade. A ruralidade não é o seu entorno, antes o é a urbanidade. Steve ficará, ligado já a Alice (Rosemarie DeWitt) e religado a um sentido do comunitário produtivo, para ao menos tentar fazer dessa ruralidade em que voltou a acreditar, uma (talvez nova) terra prometida.

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