The Batman – Uma espécie de recensão, sem esquecer o passado

“The Batman” é o filme escuro, negro, gótico sobre o vigilante noturno de Gotham que ainda não tinha sido feito. É um filme que mergulha a fundo na banda desenhada em que o protagonista é um puro detetive, que sucumbe às trevas e vasculha na noite à procura de ajudar os desprotegidos. “The Batman” não comete o erro de contar a história toda novamente, de como se tornou quem hoje é, mas introduz muito bem, não só o protagonista, como as restantes personagens, assim como o mundo onde passamos a pertencer durante quase três horas. E, sem que nos apercebamos, ficamos por lá, presos, voltando a presenciar a sensação de liberdade apenas quando desce a ficha técnica.

Depois de querer conceber, a par da sua concorrente direta, um mundo onde junta diversas histórias de vários super-heróis, fica uma vez mais claro que é quando a DC faz as coisas calmamente e não tenta, de forma apressada, copiar a forma de operar da Marvel, que acerta. E assim consegue, como sempre nos habituou, transcender-se e superar os feitos da gigante que agora pertence à Disney. Foi assim no “início”, em 1989, depois com uma trilogia entre 2005 e 2012 e, mais tarde, com um filme a solo daquele que é o vilão mais icónico de todos, em 2019.

Sem cair no erro de querer comparar o filme de Matt Reeves com qualquer um dos que foram realizados por Christopher Nolan, mas também sem fugir do inevitável, dizer que as semelhanças entre estas obras são muito reduzidas. A trilogia de Nolan tem, por ser, de certa forma, mais comercial, a capacidade de agradar mais facilmente a mais pessoas do que este “The Batman”. Mas o propósito também não era esse. Por ser mais negro, mais denso, destina-se a um público mais específico, perdendo na falange de admiradores.

O filme tem um início bastante prometedor com a primeira hora a ser realmente muito boa, porém, sofre um pequeno declínio, ainda que muito leve, breve na intensidade, mas que perdura até ao fim. A realização de Matt Reeves traz-nos momentos incríveis, de pura magia. Juntamente com a estupenda banda sonora composta por Michael Giacchino e a belíssima fotografia, com imagens de tirar o fôlego, de Greig Fraser, temos a definição do que é fazer cinema de qualidade. Já o argumento é algo fraco, sobretudo quando comparado com as restantes partes do filme. Apesar do esforço em criar um enigma, bom por sinal, que faça prender ao ecrã quem vê, descora outros tópicos igualmente importantes, nas quais são dadas apenas umas pinceladas.

Voltando ao que de melhor tem o filme, e acima de todas as outras partes, de forma imaculada, está a banda sonora. Desde o início até à última linha dos créditos, a composição de Fraser é irrepreensível. Sem estar à espera, ou talvez não para quem tenha visto trailers, a dada altura somos brindados com “Something in the Way”, dos Nirvana, no momento certo, durante o período certo, completando, de forma muito eficaz, a banda sonora original.

Nessa mesma onda mais positiva do filme, segue-se a estupenda realização por parte de Matt Reeves e a brilhante fotografia de Greig Fraser, de onde resultam as sequências de ação, através das brilhantes coreografias de pura pancadaria e as estonteantes perseguições sobre rodas.

Estamos perante o Batman menos musculado dos últimos tempos. E isso faz diferença. Não se notando quando vestido com o icónico traje negro, é na sua ausência que mais se faz notar. Depois de um Batman de Bale capaz de lutar contra um portentoso Bane e de um de Ben Affleck ultra forte que mede forças com seres de outras galáxias, o de Pattinson padece da falta de força física. Contudo, nos planos mais fechados, em que o que interessa é a expressão de Robert e a forma como ele diz o que diz, não há grandes diferenças. Havendo talvez uma melhoria quando comparado com o de Affleck.

O filme é muito negro. Ainda que não tenha o peso de “Joker”, tem uma carga suficientemente pesada para pertencer ao mundo de Batman. Sempre muito escuro, um Bruce Wayne com um semblante bastante carregado, quase sempre atrás da máscara, o que favorece a prestação de Robert Pattinson. E que bem que ele fica dentro do fato e por trás daquela máscara sombria. Sem estar mal quando aparece apenas como o homem rico de Gotham, há uma clara melhoria quando se apresenta como o vigilante noturno. Já com Zoë Kravitz, essa diferença não se nota. Tanto como Selina Kyle, como Catwoman, a atriz está irrepreensível. Muito carismática, Zoë consegue preencher o seu tempo de tela da melhor forma. Depois de algumas tentativas, chegou finalmente ao grande ecrã uma Gata que conseguiu cumprir aquilo que lhe era pedido. Depois de falhanços clamorosos como os de Michelle Pfeiffer e Halle Berry, e de uma prestação segura de Anne Hathaway, mas que ficou um pouco aquém das expectativas, Zoë é tudo o que uma Catwoman deveria de ser, destemida, aguerrida, sensual, feroz, distanciando-se claramente das suas antecessoras.

Colin Farrell desfruta de uma maquilhagem estupenda, comprovando que o ator irlandês consegue melhores prestações quando atua sem expressão. Foi assim em “O Sacrifício de um Servo Sagrado” e, mais recentemente, em “The Gentleman” que, apesar de a sua cara não estar “mascarada”, o facto de as personagens não terem expressão, favorecem de forma evidente o seu desempenho. E este filme não é exceção. Farrell tem uma prestação imaculada. Fazendo a comparação, com as devidas salvaguardas, e respeitando a atuação de Danny DeVito no filme de Tim Burton, Colin confere mais credibilidade e maturidade à personagem.

Sem terem um grande impacto no filme, Jeffrey Wright, Andy Serkis e John Turturro, mostram-se sempre muito competentes como James Gordon, Alfred e Carmine Falcone, respetivamente. Sempre muito fiéis às personagens, conseguem todos eles desempenhos muito seguros. Por fim, Paul Dano, que dá vida ao principal vilão de “The Batman”, apresenta-se não muito diferente do que o que tinha feito até então. Não sendo propriamente mau, fica a sensação de que soube a pouco, muito provavelmente pelos raros momentos em que aparece diretamente no ecrã e não através de um outro, quer sob o disfarce, quer na ausência dele. Talvez a intenção fosse essa, a de aparecer pouco, dando mais ênfase ao labirinto de questões criado pela personagem. Porém, e pelo enigma não ter sido tão aprofundado como era esperado, fez com que a personagem, assim como a prestação do ator, perdesse algum impacto no filme. Não fugindo às comparações realizadas como com as restantes personagens em outros filmes, com Riddler essa comparação não faz qualquer sentido. No filme de Joel Schumacher, Jim Carrey, apesar do enorme talento unanimemente reconhecido, não conseguiu, sobretudo pela paupérrima qualidade que o filme apresenta, conceber uma prestação minimamente aceitável. Dano mostra-nos uma vez mais um homem que não padece das suas capacidades plenas, tal como em outras obras, fazendo lembrar claramente Paul Sunday, em “Haverá Sangue”, e, mais ainda, Alex Jones, em “Raptadas”. Uma nota ainda para a breve e fugaz aparição de Barry Keoghan, que deixa no ar qual será o vilão do segundo, de três filmes acordados com a Warner Bros..

A comédia em doses certas. O filme conta apenas com dois ou três momentos muito subtis de comédia. Um filme sombrio como este não pedia mais do que isso. E todos são adequados e nos momentos certos, com uma brilhante cena a ser também uma referência à própria personagem, protagonizado por Colin Farrell.

Depois da trilogia de “The Dark Knight” e de “Joker”, esperava-se um filme que os conseguisse superar. Atrevo-me a questionar e a responder. Com que direito tínhamos nós de esperar isso? O direito de quem ama a sétima arte e de quem é fã de Batman. Mas apenas isso. Com o tempo e pensando de forma mais lógica, fica a dúvida de até que ponto teremos nós esse direito.

Quem foi à procura disso, sai da sala de cinema desiludido. Não é melhor que “The Dark Knight” nem que “Joker”. Já quem foi “apenas” à procura de ver um bom filme de um das personagens mais carismáticas do cinema, sai plenamente satisfeito. É claro e expectável que os fãs mais irracionais, tanto de “The Dark Knight” como de “Joker”, não irão conseguir entrar na sala escura sem esquecer que estas duas belas obras existem, contudo, se conseguirem, apesar de ter em conta que será uma tarefa árdua, distanciarem-se o suficiente dessa lembrança, fica a crença de que irão apreciar e desfrutar mais do filme.

The Batman – Uma espécie de recensão, sem esquecer o passado
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