O novo filme do realizador mexicano Alejandro González Iñárritu (“Amor Cão”, “21 Gramas”, “Babel”, “Birdman”) é um western moderno, único e grandioso. O mexicano abandona o lado fantasioso em “Birdman” e regressa a um formato mais realista, mostrando uma clara evolução como realizador e a impor-se mais uma vez como uma referência a ter em conta.

Baseado em factos verídicos, este filme, de mais de duas horas e meia, segue uma expedição pelo desconhecido e selvagem território americano, no século XIX, até que o explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é atacado por um urso e deixado para morrer pelos companheiros do seu grupo de caçadores. Enquanto procura sobreviver, Glass enfrenta um sofrimento inimaginável e a traição de John Fitzgerald (Tom Hardy), que matou o seu filho. Glass ganha um enorme desejo de vingança, mas terá que enfrentar um Inverno rigoroso numa busca incessante pela sobrevivência e redenção.

Esta jornada em busca de vingança demonstra bem o quão difícil deve ter sido filmar naquelas paisagens indomáveis do Canadá, Argentina e EUA. Percebe-se que foi muito duro filmar “The Revenant: O Renascido” e a realização de Iñárritu transmite todo esse realismo, dureza e frieza. Mais de noventa por cento do filme foi produzido em exteriores, ou seja, em cenários reais, recorrendo à luz natural, filmando com o mínimo possível de tecnologia e luz artificial. O que resultou num extraordinário trabalho de fotografia, por parte de Emmanuel Lubezki, que capta uma imaculada paisagem, ainda no seu estado bruto. O cenário é violento e sujo e o caminho a percorrer é duro e perigoso, retratando o lado mais selvagem e frio do ser humano para a sobrevivência. O filme é chocante em muitos momentos, como por exemplo, numa das cenas mais comentadas, a cena em que Glass é atacado brutalmente por um urso. Tal como esta, há mais cenas desagradáveis e que sensibilizam e cativam a atenção do espectador ao longo do filme.

O realizador inova mais uma vez na forma como filma. No entanto, as semelhanças a Terrence Malick (em particular em “O Novo Mundo” e “A Árvore da Vida”) e a Werner Herzog (lembrando “Aguirre, a cólera de Deus” e “Fitzcarraldo”) são muitas e evidentes, na forma como filma, como movimenta a câmara e nos simbolismos que cria nas imagens. Vemos muitas árvores filmadas em contra-picado, os movimentos de câmara longos (praticamente sem cortes) transmitem um maior realismo e criam um efeito poético nas cenas de batalha, no meio daquela natureza gélida e sangrenta. O árduo esforço do mexicano é de louvar, claro que este transportou apenas um homem em condições muito difíceis, enquanto que Herzog transportou um barco em plena selva. Claro que Iñárritu não é um nem outro (Malick e Herzog), longe disso, nem pretenderá ser. Iñárritu filma à sua maneira e fá-lo muito bem. Tudo isto flui muito bem na primeira hora de filme, mas depois o filme perde-se com tanta neve, não aplicando tanto este modo de filmar. Teria sido bem mais interessante se o realizador tivesse aplicado mais ao longo do filme os planos-sequência. O filme vive também, sobretudo na primeira hora, de muitos silêncios (os diálogos são raros), valorizando assim a imagem e o som daqueles cenários. Deve ainda ser destacada a banda sonora de Ryuichi Sakamoto, discreta, mas soberba.

O filme ganha imenso com tudo isto, com a fotografia, a realização, a ténica, mas também com as interpretações fabulosas do elenco. Tom Hardy surpreende muito e é merecida a sua nomeação ao Óscar de Melhor Ator Secundário. Quanto a Leonardo DiCaprio, deem-lhe o Óscar de Melhor Ator. O seu desempenho é extraordinário e demonstra bem a dedicação e a entrega que o ator teve para com este filme. São perceptíveis as dificuldades e desafios que o ator teve que ultrapassar ao longo das filmagens. Essa experiência foi cruel tanto para DiCaprio, como para o próprio espectador. Se já em 2014  DiCaprio merecia ter ganho o Óscar de Melhor Ator, pelo seu desempenho em “O Lobo de Wall Street”, numa personagem onde abundam os diálogos, este ano o Óscar tem que ser dele, pelas suas expressões faciais e corporais.

A história deste explorador traído, deixado à morte num inverno rigoroso, mas que sobrevive para regressar à civilização em busca de vingança, é uma experiência extraordinária e que deve ser vivida e revivida. O resultado final deste “The Revenant: O Renascido” é soberbo, demonstrando uma grande evolução e brilhantismo por parte de Iñárritu. É sem dúvida um dos melhores filmes do ano.

Realização: Alejandro González Iñárritu

Argumento: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu

Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter, Emmanuel Bilodeau, Domhnall Gleeson, Paul Anderson

EUA/2015 – Drama

Sinopse: Numa expedição pelo desconhecido território americano, o lendário explorador Hugh Glass é brutalmente atacado por um urso e deixado como morto pelos seus companheiros de caça. Na luta pela sobrevivência, Glass resiste a um sofrimento inimaginável, bem como à traição de John Fitzgerald, um dos seus companheiros de expedição. Guiado pela sede de vingança e o amor da sua família, Glass terá de enfrentar um inverno rigoroso numa busca incessante pela sobrevivência e redenção.

«The Revenant: O Renascido» - Cruel e soberbo!
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