O cineasta sul coreano Hoon-Jung Park, autor do argumento do filme “I Saw The Devil”, filme premiado no Fantasporto 2011, venceu o prémio “Orient Express” desta edição do festival, com o seu filme “The Witch: Part 1 – The subversion”, que junta aquilo que são os dois traços que melhor distinguem o cinema sul-coreano: o melodrama e a vingança.

Um grupo de cientistas usam várias crianças como cobaias para uma experimentação científica, que atribui aos seus corpos poderes sobre-humanos. Com o medo de não conseguirem conter a força potencial dos novos seres que criaram, os cientistas levam a cabo um massacre no laboratório. Uma criança consegue escapar e é acolhida por um casal de camponeses, que vive nas redondezas. Ja-yoon (Da-mi Kim) leva a vida de uma adolescente normal, até que começa a ser vigiada e perseguida.

Em “I Saw the Devil” existe uma característica que se destaca, o extremo impulso de vingança que nasce dentro do agente secreto, que pretende vingar a morte da sua noiva. Este sentimento de vingança torna-se de tal forma intenso que, a personagem na qual o espectador deposita a legitimidade de fazer justiça pelas suas próprias mãos, transforma-se numa espécie de monstro sedento por violência. Há uma clara exacerbação do sentimento de vingança, que é levado a cabo por alguém com uma destreza física acima da média. Neste filme, a lógica repete-se: Ja-yoon, depois da experimentação científica, transformou-se numa verdadeira máquina de matar, capaz de pensar ao pormenor o plano da sua vingança.

É na personagem de Ja-yoon que reside toda a força deste filme, não apenas em termos de lógica narrativa, mas, sobretudo, no excelente desempenho da actriz. Existe um claro contraste entre a adolescente que leva a sua vida normal, acolhida e educada por duas pessoas que lhe deram amor e a adolescente com super-poderes que espera a melhor altura para poder revelar esta força e levar a cabo a sua vingança. Ja-yoon tem duas origens: de um lado o grupo de cientistas perversos que deram ao seu corpo super-poderes; do outro, o casal que lhe ensinou o amor, fazendo nascer um espírito capaz de perceber o poder, também ele sobrenatural, deste afecto. Se os primeiros, através de um acto bárbaro, lhe deram uma arma letal; os segundos, deram uma consciência capaz de interpretar a barbárie perpetrada pelos primeiros. A coincidência destes dois aspectos no mesmo ser, são uma combinação que tem tudo para criar uma tensão capaz de prender o espectador; dentro desta moralidade, que busca por justiça, o corpo super-poderoso da personagem tem licença para matar. Dos valores e cuidado que recebeu dos seus pais adoptivos, mais do que um deus ex machina, a personagem de Ja-yoon representa a possibilidade de um amor surgido da máquina.

Quando um dos capatazes da responsável pelo experimento decide entrar em casa de Ja-yoon para se vingar dos ferimentos que ela provocou na noite da fuga, surge o deus ex machina que vai eliminar toda a personagem que possua uma força agonística contra si. Percebemos que afinal tudo foi planeado ao pormenor, tanto a família de acolhimento como o timing de espera pela chegada daqueles que a perseguem. Esse deus ex machina que vive no corpo de Ja-yoon vai resolver a trama num final onde a violência escala até a vingança completa.

As cenas de luta sobressaem. Os golpes que vão destruindo o cenário que rodeia as personagens dão-nos uma sensação de uma emanação de força superior, fazendo corresponder os gestos ao poder das personagens. Esta sensação ganha força quando existe qualidade nos trabalhos de edição, efeito especiais, duplos, entre outros aspectos técnicos que devem existir e ser usados com mestria para produzir os afectos que o filme precisa passar. A técnica é colocada ao serviço do poder expressivo do filme e não como mero elemento de maximização da sensação pela sensação. O desempenho de Da-mi Kim merece especial destaque, pois toda a sua postura corporal consegue revelar a ambiguidade da sua personagem, a aparência inocente é omnipresente, mesmo quando toda a brutalidade revela o monstro que habita dentro de si.

Este filme foi uma boa surpresa nesta edição do festival. Sendo nitidamente um filme que obedece as características do género onde se insere, não deixa de conter dentro de si matéria para reflexão que ultrapassa alguns clichés sensacionistas do género. Não levantando questões profundas, oferece-nos um bom argumento, com interpretações à sua altura.

«The Witch: Part 1 – The Subversion» - Amor Ex Machina
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