“Thelma” (2017), do dinamarquês Joachim Trier (“Oslo, 31 de Agosto” e “Ensurdecedor”), chega agora às salas de cinema portuguesas pela distribuidora Cinema BOLD. A abrir a sessão a curta-metragem “A Estranha Casa na Bruma”, escrita, realizada e produzida por Guilherme Daniel, vencedora da competição nacional da edição deste ano do MOTELX.

Joachim Trier é um realizador conhecido por abordar em seu cinema temas como depressão, melancolia, segredos, culpas, mágoas, traumas, luto. Isto é, assuntos nada tranquilos. Portanto, em “Thelma”, ele voltará ao thriller psicológico para contar uma história que já está a ser chamada de “spin-off” norueguês de “Carrie” (1976), clássico de Brian De Palma, por causa da repressão social enfrentada pelas mulheres especialmente dentro da base familiar.

Thelma é uma jovem tímida e aparentemente comum (interpretada pela incrível Eili Harboe), criada pelos pais cristãos fervorosos numa pequena localidade rural da Noruega. O filme começa por apresentar a personagem de forma perturbadora. Na cena inicial, uma Thelma criança acompanha o pai num campo de neve para caçar um veado, a que o pai aponta a arma para ela em vez de para o animal. Há um corte rápido para Thelma a viver longe dos pais, nos primeiros dias de aulas do curso de Biologia na Universidade de Oslo.

Surge logo a desconfiança de que o passado de Thelma será posto em cena em breve. O próximo impacto envolverá seu encontro com Anja (Kaya Wilkins) na biblioteca da instituição. Vários pássaros começam a se estatelar contra a vidraça enquanto Thelma sofre uma convulsão. A partir daí, aborda-se o despertar natural de sua sexualidade, pelo interesse lésbico na nova amiga, que é recíproco, e pelo sobrenatural, quando Thelma deseja compreender suas convulsões e diz ao pai: “às vezes penso que sou melhor que os outros”.

Quanto mais Thelma quebra protocolos de sua religião cristã e passa a beber, ir a festas e a desenvolver uma relação amorosa com Anja, mais ela descobre em si esses poderes paranormais que afetam não só a sua saúde, mas todos os outros ao redor. Por conta própria, em buscas pela internet, ela descobre sofrer de crise psicogénica não-epilética, que se manifesta por conta de danos psicológicos reprimidos em resposta a um trauma na infância. Em analepse, é possível perceber então porque a mãe de Thelma está agora em uma cadeira de rodas além de outros momentos-chave de uma trama sobrenatural que passa a ficar um bocado previsível.

Apesar de parecer obsoleta, a questão da descoberta da homossexualidade relacionada a crenças religiosas ainda é uma pauta a ser debatida cinematograficamente. “Thelma” faz isso de modo que passa a ficar monótono para duas horas de duração, mas não é um problema se posto ao lado do trabalho magnífico de fotografia de Jakob Ihre. Cada paisagem tem tanto de cruel quanto de belo. É esteticamente lindo e desconfortável estar ao lado de Thelma.

O que podemos esperar a seguir de Joachim Trier é um documentário intitulado “The Other Munch”. Sem data de estreia definida por cá, o filme mostra o renomado escritor norueguês Karl Ove Knausgård a fazer a curadoria de uma exposição do compatriota Edvard Munch. Knausgård estará a falar sobre a Noruega, arte, envelhecimento e tudo o que é sombrio.

Realização: Joachim Trier
Argumento: Eskil Vogt, Joachim Trier
Elenco: Eili Harboe, Kaya Wilkins, Henrik Rafaelsen
Noruega, França, Dinamarca, Suécia/2017 – Thriller
Sinopse
: Do aclamado realizador Joachim Trier, “Thelma” é um poderoso thriller sobrenatural sobre uma jovem que, quando se apaixona pela primeira vez, descobre ter poderes terríveis e inexplicáveis.
Thelma, uma jovem e tímida estudante, deixa o seio da sua família religiosa para estudar na Universidade em Oslo. Um dia começa a sofrer violentos e inesperados ataques que coincidem com a sua atracção por outra estudante, Anja, que retribui esses sentimentos. À medida que se torna claro que os ataques são um sintoma de habilidades incompreensíveis, perigosas e sobrenaturais, Thelma é confrontada com segredos trágicos do seu passado e com as assustadoras implicações dos seus poderes.

«Thelma» – O Despertar Sobrenatural e Lésbico da Sexualidade
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