Time waits for no one: #12 (O Mumblecore)

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«Time can tear down a building or destroy a woman’s face Hours are like diamonds, don’t let them waste.»

O Mumblecore e o diálogo naturalista

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mum·ble

v.tr.

1. To utter indistinctly by lowering the voice or partially closing the mouth: mumbled an insincere apology.

v.intr.

1. To speak words indistinctly, as by lowering the voice or partially closing the mouth.

n.

A low indistinct sound or utterance.[/box]

A dimensão da indústria cinematográfica norte-americana é propícia ao surgimento dos mais diversos géneros ou movimentos cujos filmes partilham entre si um grupo de características muito especificas. Durante muito tempo a diferenciação foi feita exclusivamente entre uma produção virada para os grandes estúdios e o cinema independente. No entanto, recentemente, nestes filmes de menor dimensão – ao nível do capital investido – têm surgido diferentes ramificações e subgéneros. Um deles é precisamente o denominado estilo Mumblecore. Este é caracterizado especificamente pelo já referido baixo orçamento, pela utilização de actores (mais ou menos) amadores e, principalmente, pelos diálogos de cariz naturalista.

Embora busque o seu conteúdo na Nova Vaga do cinema francês – em particular na obra de Eric Rohmer (nos seus enredos românticos e nos seus diálogos tão singulares) – este género surgiu apenas em 2002, com «Funny Ha Ha» realizado por Andrew Bujalski, destacando-se pelo seu realismo. Em 2005 estreia «Puffy Chair», dos irmãos Jay e Mark Duplass, um road movie em que grande parte da acção e do diálogo é fruto de improvisação. «Nights and Weekends» de 2008, realizado pela dupla Greta Gerwig e Joe Swanberg, relata em duas partes – a segunda filmada um ano após a primeira – a relação à distância de um jovem casal, o seu enamoramento e possível ruptura. «Tiny Furniture» de Lena Dunham estreia em 2010 e «Cold Weather» de Aaron Katz em 2011. De facto, o nome de Greta Gerwig iria-se tornar num dos mais badalados deste género quando em 2013 estreia «Frances Ha», realizado por Noah Baumbach e com co-argumento da actriz. Neste filme denotam-se claramente determinadas influências, nomeadamente a de Woody Allen. É assumida a mimetização deste realizador, em particular de filmes como «Manhattan», não só pelo contexto nova-iorquino em que se insere, mas também pelos traços que o caracterizam, ou seja, um diálogo escorreito e personagens com as suas vidas na vertigem de um colapso, dotadas de uma temporização verbal distinta. A estes elementos podemos juntar a alusão a um humor físico que demonstra mais graciosidade do que atrapalhação (a protagonista é bailarina) e uma realização cerebral, quase literária, por par de Baumbach.

Nos filmes que são normalmente agrupados no género do Mumblecore, não se pode dizer que seja feito um retrato de uma geração ‘tout court’. Estes centram-se na individualidade dos seus protagonistas que são observados através de um distanciamento afectuoso enquanto que estão envolvidos na especificidade do seu meio-ambiente e condicionalismos sociais e existenciais. O desconforto que os actores demonstram diante da camera – seja com um argumento, com improvisação ou ambos – é intencional e está de acordo com a insegurança e timidez com que as suas personagens exprimem os seus ideais, os seus pontos de vista, os seus desejos e sentimentos. Não é, em exclusivo, decorrente de uma falta de domínio da técnica de representação, mas também uma forma de associação a um grupo (classe média nos seus vinte e poucos anos) ao qual os envolvidos na produção pertencem.

Estes filmes são a voz de quem os produz. Daí o diálogo, particularmente o diálogo naturalista ser fundamental. Ao longo da História é possível apontar diferentes momentos em que a voz no contexto do diálogo teve igual importância e de quem o Mumblecore é o mais que provável herdeiro. É o caso da trend denominada New Talkie surgida nos inícios dos anos noventa do século passado, constituída por filmes no-budget. Nele destacam-se «Slacker» de Richard Linklater, «Go Fish» de Rose Troche e «Clerks» de Kevin Smith. O diálogo (ou simples conversa) assume aqui um papel tão importante que poderia , sem reservas, ser utilizado no estudo antropológico das civilizações. Como Swanberg referiu ‘my work is not about seclusion, it’s just a reflection of the white, hipster neighborhood I live in. I don’t have anything to say right now about the Iraq war. The story of my life and my friends’ lives are the ones I can tell most completely’.

Na óptica de um espectro mais alargado, podemos assumir que os nomes de Bujalski («Mutual Appreciation») e de Katz («Dance Party» e «Quiet City») são os que sobreviverão futuramente ao género. O primeiro como subtil argumentista e director de actores que sabe como dirigir uma cena em que a linguagem física funciona tão bem como a palavra; o segundo trabalhando o vídeo DV, com um liricismo perfeito e uma beleza estética muito poucas vezes associada à fotografia deste digital mais rudimentar. De notar igualmente a sua sonoplastia e paisagens urbanas expressivas e os seus planos-pormenor das personagens divagando nos seus próprios pensamentos.

Restará saber se o Mumblecore sobreviverá ao tempo. Por não ser o reflexo estrito de uma geração mas um discurso de quem produz os filmes através de determinados meios e técnicas narrativas e de interpretação, poderá surgir uma ‘geração Mumblecore’ a cada década. Cada filme é uma peça de um puzzle que pertence a indivíduos distintos que, quando agrupados e contextualizados, reflectem um contexto social muito especifico.

01 - Mumblecore

Próxima publicação (4 de junho): «Quick Change» de Howard Franklin e Bill Murray (1990)