O American Film Institute divulgou nesta quinta-feira (4) a sua sempre ansiada lista dos Melhores Filmes do Ano, essa enumeração solene que, ano após ano, tenta adivinhar para onde soprarão os ventos dos Óscares.
Desde 2000, o AFI tem ocupado esse curioso púlpito de oráculo cinematográfico e, por mais surpreendente que pareça, não costuma falhar o alvo. Em 2023 e 2024, por exemplo, acertou oito dos dez nomeados a Melhor Filme, façanha que muitos astrólogos culturais invejariam.
Os escolhidos de 2025 foram “Avatar: Fogo e Cinzas”, “Bugonia”, “Frankenstein”, “Hamnet”, “Jay Kelly”, “Marty Supreme”, “Batalha Atrás de Batalha”, “Pecadores”, “Train Dreams” e “Wicked: Pelo Bem”. A lista parece uma pequena república de géneros: do épico às lágrimas contidas, do delírio fantástico à crónica intimista, tudo convive como convidados de um mesmo salão onde ninguém estranha a mistura.
O AFI decidiu ainda conceder um Prémio Especial ao vencedor da Palma de Ouro em Cannes, “Foi só um Acidente”, de Jafar Panahi. Este gesto, que o instituto reserva para obras internacionais fora da órbita americana, lembra que o cinema continua a ser esse território em que fronteiras geométricas se anulam em nome da arte. Nem todos, porém, tiveram igual fortuna. “Valor Sentimental” e “O Agente Secreto” ficaram pelo caminho.
Entre os americanos não seleccionados constam “F1”, “A House of Dynamite”, “Nuremberg”, “Rental Family” e “Springsteen: Deliver Me from Nowhere”. Do outro lado da sala, a Netflix celebra discretamente, já que surge com três filmes na lista: “Frankenstein”, “Jay Kelly” e “Train Dreams”. A Universal iguala o número com “Wicked: Para o Bem”, “Bugonia” e “Hamnet”, este último pela Focus Features.
O prémio especial de Panahi
Jafar Panahi continua a viver entre aclamação internacional e perseguição doméstica. Em maio recebeu a Palma de Ouro; esta semana arrebatou distinções no Gotham e no Círculo de Críticos de Nova Iorque e, quase em simultâneo, voltou a ser alvo de uma nova sentença de prisão imposta pelo governo iraniano. A sua trajectória parece escrita por alguém que insiste em fazer conviver glória e desgraça no mesmo parágrafo.
O seu novo filme, homenageado pelo AFI, “Foi só um Acidente”, acompanha Vahid (Vahid Mobasseri), um ex-detido do regime que acredita ter reconhecido o oficial responsável pelas torturas que sofreu, denunciado pelo ruído metálico da sua prótese. À procura de confirmação, Vahid contacta outras vítimas: a fotógrafa Shiva (Mariam Afshari), Goli (Hadis Pakbaten) e Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr).
Todos, porém, eram vendados durante as sessões de tortura. A dúvida instala-se e o grupo hesita entre justiça e erro irreversível. Movidos pelo receio de acusar um inocente, decidem investigar o suspeito, sondando fragmentos do passado enquanto ponderam que destino lhe dar.
Desde o início da sua carreira, Panahi tornou-se presença constante em festivais internacionais, com filmes como “Táxi de Jafar Panahi”, “3 Faces”, “Pardé”, “Badkonake Sefid” e “Talâ-ye Sorx”. O olhar político, marca da sua obra, valeu-lhe sucessivas detenções pelo regime iraniano, conhecido pela repressão à criação artística.
Esta semana, o cineasta voltou a ser condenado a um ano de prisão por alegadas “actividades de propaganda” contra o Estado. Em 2022, Panahi lamentara publicamente a forma como o governo trata os cineastas, reduzindo-os à categoria de criminosos.
Após um período em que lhe foi proibido filmar, proibição que não o impediu de realizar “Isto Não É um Filme”, Panahi recuperou a autorização para trabalhar. Ainda assim, rodou “Foi só um Acidente” em segredo, recorrendo a cópias de segurança diárias para proteger o material caso fosse novamente detido.
Oráculo certeiro?
Desde que a Academia decidiu abrir o leque de candidatos a Melhor Filme para dez títulos, em 2009, cerca de 80% dos filmes escolhidos pelo AFI acabaram nomeados aos Óscares.
O alinhamento, contudo, nunca foi perfeito. Em 2010, nove dos dez filmes coincidiram e o décimo, “O Discurso do Rei”, recebeu apenas um Prémio Especial.
Nos últimos anos a tendência repetiu-se. Em 2024, “A Real Pain” e “Sing Sing” ficaram de fora da cerimónia, substituídos por “Ainda Estou Aqui” e “A Substância”. Em 2023 a história foi semelhante, com “May December” e “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso” a cederem lugar a “Anatomia de uma Queda” e “A Zona de Interesse”.
A lista anual do AFI é escolhida por um júri composto por académicos, cineastas, actores, historiadores, jornalistas e críticos. Entre os nomes deste ano encontram-se Lily Gladstone, Patton Oswalt, Thomas Schlamme, Mark Harris, Leonard Maltin, Janet Maslin e Peter Travers, um grupo que faria inveja a qualquer mesa redonda sobre cinema.
Bob Gazzale, presidente e CEO do AFI, afirmou que há mais de um quarto de século o AFI Awards celebra a comunidade e não a competição, frase que recita com a convicção de quem acredita que o cinema é um ofício de partilha antes de ser um campo de batalha.
Os homenageados serão celebrados no tradicional almoço de 9 de Janeiro, no Four Seasons Hotel Los Angeles, evento reservado, muito disputado e sempre fértil em murmúrios de bastidores.
Os 10 Melhores Filmes de 2025, segundo o AFI:
“Avatar: Fogo e Cinzas”, de James Cameron
“Bugonia”, de Yorgos Lanthimos
“Frankenstein”, de Guilhermo del Toro
“Hamnet”, de Chloé Zhao
“Jay Kelly”, de Noah Baumbach
“Marty Supreme”, de Josh Safdie
“Batalha Atrás de Batalha”, de Paul Thomas Anderson
“Pecadores”, de Ryan Coogler
“Train Dreams”, de Clint Bentley
“Wicked: Pelo Bem”, de Jon M. Chu

