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Três Realizadoras Portuguesas – O Poder de Crescer Depressa Demais

Este artigo contém spoilers.

Três Realizadoras Portuguesas”, a união de três curtas-metragens criadas por visões femininas distintas, terá a sua estreia nos cinemas nacionais a 9 de julho. Os filmes, tão bem premiados, tanto em festivais mundiais, como nacionais, retratam o futuro da juventude portuguesa de maneiras variadas, demonstrando e celebrando o grande impacto das mulheres cineastas no cinema contemporâneo.

Nas palavras de Filipa Reis, produtora de Uma Pedra no Sapato, “esta estreia é um ato de resistência (…) é importante voltar a ter prazer, regressar ao coletivo e afastar o medo“. Assim, a junção destas curtas, “Dia de Festa”, de Sofia Bost, “Ruby”, de Mariana Gaivão, e “Cães que Ladram aos Pássaros”, de Leonor Teles, traz-nos essa mesma irreverência de que precisamos neste momento.

“Dia de Festa”, o primeiro filme da realizadora Sofia Bost fora do contexto escolar e o primeiro nesta mostra, teve a sua estreia internacional na Semana da Crítica do Festival de Cannes e estreia nacional no Curtas Vila do Conde 2019. Com o argumento de Tiago Bastos Capitão, seguimos um dia na vida de Mena (Rita Martins) e da sua filha Clara, que faz sete anos.

Bost explica que o filme parte da premissa de uma mãe solteira que não se consegue sentir feliz no dia de aniversário da filha, mas o enredo torna-se algo mais complexo do que isso. Mena tem um passado que nos é desconhecido, especialmente com os seus pais, cuja relação nunca chegamos a perceber e isso afeta profundamente mãe e filha, visto que Clara não mantém uma relação com os avós. Apesar das dificuldades financeiras que atravessam e da falta de entusiasmo e preocupação de Mena, contrastadas com a presença da amiga rica de Clara na festa e da sua mãe receosa, mantém-se a esperança dentro de nós que Mena esteja a dar o seu melhor para fazer a filha feliz naquele dia, mesmo que isso implique umas escolhas e saídas duvidosas durante o filme.

Embora estejamos constantemente numa relação de amor e ódio com Mena, claramente algo desequilibrada emocionalmente, temos a sensação de que Clara irá ficar bem e não seguirá o caminho da mãe, a sua felicidade inocente choca com a experiência de vida de Mena, que vê o lado mau de tudo. O filme tem um final algo ambíguo, sem sabermos muito bem se Clara irá receber a prenda dos avós ou não e se isso significará uma reconexão da família agora que o avô está moribundo. Esta curta rapidamente se podia tornar numa longa-metragem, deixando-nos um pouco mais elucidados no que diz respeito ao presente, passado e futuro das personagens e das várias e complexas relações de mãe e filha presentes.

“Ruby”, a segunda curta-metragem de Mariana Gaivão, cuja estreia ocorreu no Curtas Vila do Conde 2019, onde recebeu o prémio de “Melhor Realização”, acompanha a jovem Ruby (Ruby Taylor) nos dias antes da sua melhor amiga, Millie (Millie Romer), regressar a Inglaterra.

O constante contraste entre Ruby, sempre vestida de preto e com um ar severo, e a paisagem suave e calma à sua volta dá-nos uma certa sensação de que ela é incompreendida por parte do mundo. Todo este filme é uma experiência a não perder (se bem que deveria vir com um aviso para as pessoas que sofrem de epilepsia), tanto pelo verde e a pela pureza de Góis, como pela cena mais marcante e mais interessante desta curta, a festa de despedida de Millie. A ideia tão bem conseguida do luto e da dor de Ruby é-nos apresentada num jogo de perspetivas, como se o mundo estivesse a arder fora da rave na gruta onde elas se encontram, e num jogo de olhares entre as duas amigas, mostrando-nos o dilema da personagem, que é obrigada a escolher, pois ficar em Góis significa que não vai poder fazer o ensino secundário.

O desaparecimento do seu fiel amigo, o seu cão Frankie, é como começa o filme e o seu regresso é como este acaba, transmitindo uma mensagem de paz e aceitação da perda, quando Ruby, olhando para ele como olhou para Millie na festa, lhe diz: “Vai.” Gaivão encontrou o meio -caminho perfeito entre ficção e documentário, escolhendo mesmo duas amigas na vida real para produzir esta brilhante curta.

Cães Que Ladram aos Pássaros”, realizado por Leonor Teles e produzido pela Uma Pedra no Sapato, é o mais recente filme da realizadora e teve a sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Esta curta-metragem, comissariada pela Câmara Municipal do Porto no âmbito do projeto Cultura em Expansão, traz-nos a história da família Gil, a mãe Maria e os seus quatro filhos, Vicente, Salvador, Mariana e António, que são obrigados a sair da sua casa no centro do Porto por não terem dinheiro para pagar a renda.

A procura de casas pela parte dos turistas nesta cidade faz com que os edifícios antigos sejam destruídos e os moradores despejados, para poderem proceder à construção de hotéis ou apartamentos com preços elevadíssimos. Assim, chamando à atenção para o problema sério da gentrificação, o filme acompanha os primeiros dias de verão de Vicente e da restante família, mostrando-nos as suas dificuldades e as suas peripécias em conseguir encontrar um sítio para viver com cenas realistas que nos deixam desconfortáveis.

As cenas de travelling no final desta curta, em que Vicente corre com o irmão e os cães num parque de estacionamento e onde anda de bicicleta à noite no Porto, são tão bonitas e tão bem criadas que nos dão arrepios e mostram-nos um lado de Vicente que não vemos durante o filme, um rapaz num momento de viragem para a vida adulta, mas que ainda não está preparado para o fazer. Na última cena, parece que chora, transformando-se num menino pequeno que precisa da mãe porque esfolou o joelho.

Três curtas que nos mostram o quanto nos afeta ter de crescer depressa demais e com um escalar de idades gradual. Clara, cuja mãe precisará da sua ajuda para mudar, Ruby, que precisa de tomar decisões tão importantes quando apenas devia estar a aproveitar a sua vida e Vicente, que se devia estar apenas a preocupar com a escola e a namorada, e não se amanhã ainda terá um teto para dormir. Quando se voltam a ligar as luzes da sala de cinema, não conseguimos que eles nos saiam da cabeça e esperamos que fiquem bem neste mundo estranho.