Trilogia do Silêncio: Parte I – “Viagem a Citera”

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A trilogia do silêncio de Theodoros Angelopoulos
Parte I: “Viagem a Citera” (1984)

A trilogia do silêncio é o nome dado ao conjunto de filmes realizados por Theodoros Angelopoulos, cineasta grego nomeado e vencedor de inúmeros prémios internacionais (em Cannes, Berlim ou Veneza, por exemplo). Os três filmes que compõem esta trilogia são: “Viagem a Citera” (1984), “O Apicultor” (1986) e “Paisagem na Neblina” (1988). Estas obras estão relacionadas devido à sua temática, a procura de alegria e direção para o futuro num passado longínquo. As personagens principais de cada um destes filmes estão ligadas entre si, por uma melancolia existencial que as incapacita de viver com olhos postos no que está à sua frente, vivendo presas aquilo que experienciaram no passado.

Além disto, o uso do silêncio predomina em todos os filmes – Angelopoulos faz uso da ausência de diálogos para expressar aquilo que não pode ser dito por palavras (imediatamente me passa pela cabeça a seguinte frase: “Unspoken feelings are unforgettable”, do filme “Nostalghia” (1983), de Andrei Tarkovski). É interessante notar que o primeiro filme desta trilogia e o sexto filme de Tarkovski estão separados por tão pouco tempo (um ano), e que abordam temáticas convergentes. A comunicação não verbal das personagens: os olhares, as pausas, a própria postura – e as opções de realização: os enquadramentos, o blocking dos atores, o uso de takes longos para criar maior intensidade e pressão temporal, de modo a que o espectador sinta esta passagem do tempo mais vivamente (pode ser feita mais uma ligação a Tarkovski e ao seu modo de ver o cinema). Tudo isto contribui para que o silêncio seja o ponto fulcral desta trilogia, o que coloca as personagens no mesmo universo fílmico e cria uma ligação entre elas que não pode ser ignorada.

Um outro realizador com o qual comparações são inevitáveis é Michelangelo Antonioni, e em particular a sua trilogia da incomunicabilidade. À primeira vista, pode parecer que Angelopoulos explora o mesmo universo do italiano e, apesar de não se poder dizer que é totalmente falso, o realizador grego fá-lo de outra maneira. Enquanto que Antonioni usa o espaço de modo a comunicar o estado interior das suas personagens (muitas vezes sendo enquadradas em espelhos, por entre gradeamentos ou face a espaços amplos e vazios), Angelopoulos usa o silêncio para jogar com o que não é dito, para que o espectador preste atenção aos sentimentos da personagem, ao que fica por dizer, que se torna mais revelador do que qualquer linha de diálogo. Não poucas vezes, nós, no dia-a-dia, dizemos algo em que não acreditamos verdadeiramente, ou dizemos uma coisa querendo na verdade dizer outra. E é também verdade que, na maioria dos filmes, alguns diálogos são uma distração desnecessária – transporto para aqui uma ideia que mencionei aquando de uma crítica do filme “Sunrise” (1927): “Não são as palavras que eles (atores) dizem, mas o quão bem parecem ao dizê-las”. Na trilogia da incomunicabilidade as personagens não se conseguem expressar, na trilogia do silêncio as personagens não querem fazê-lo.

O primeiro filme desta trilogia é “Viagem a Citera” (1984), que conta a história de Spyros (Manos Katrakis) que regressa à sua terra natal 32 anos depois de a deixar, período em que viveu exilado na União Soviética. No entanto, as coisas não estão como ele espera. Apesar de não ser um perito na matéria, nem de perto nem de longe, é importante fornecer algum contexto histórico para se perceber um pouco melhor o filme. De 1946 e 1949 existiu uma guerra civil na Grécia, entre as fações mais à direita do espectro político (apoiadas pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido) e o partido comunista, também apoiado por outras forças políticas do país. Como consequência da vitória dos primeiros, o partido comunista foi considerado ilegal durante alguns anos, o que obrigou ao exílio de várias pessoas, e Spyros simboliza um desses indivíduos. Apesar disto, a obra não é, de todo, política. O contexto é importante para se perceber um pouco melhor o filme, mas mesmo sem esse contexto, não deixa de ser por isso que experienciamos o filme de igual modo.

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Alexandros é um realizador de cinema que está a fazer um filme sobre um homem exilado que retorna ao seu país de origem. Vemos numa cena vários homens de idade num casting onde dizem a frase “Sou eu”, mas nenhum deles parece ser “o tal”. Alexandros desloca-se ao café, e aí encontra o homem ideal para o papel que tem em mente, um vendedor de lavanda. Intrigado, segue-o até um porto, mas ele desaparece, e nesse momento aparece a sua irmã, Voula. Aí somos levados até Spyros, que regressa do seu exílio, e é idêntico ao indivíduo que Alexandros viu, ou acha que viu. 

A família, além dos três mencionados, é composta ainda pela matriarca, Katerina. Juntos viajam até ao local onde viveram muitos anos antes. Uma empresa quer construir um hotel de inverno naqueles terrenos, e todos os que ali possuem terra estão de acordo em vender, menos o recém retornado, que vai contra o que os restantes pretendem fazer, ganhando assim o ressentimento dos demais. Estes acontecimentos levam a que a polícia tenha de intervir e, por sua vez, estes informam que Spyros é um homem sem pátria, um homem que foi condenado à morte uma mão cheia de vezes e sempre lhe conseguiu escapar. As autoridades tentam negociar o transporte dele para a União Soviética, mas Spyros recusa-se, e um acordo pré-existente entre o comandante da polícia e o capitão de uma embarcação que se dirigia para aquela zona fica sem efeito. Face à falta de opções e a ordens superiores, os policias vêm-se obrigados a colocar Spyros numa pequena embarcação e deixá-lo a boiar em águas internacionais, à chuva.

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Após 32 anos a única coisa que não mudou foi o amor e dedicação da sua esposa. Katerina ama incondicionalmente Spyros, mesmo tendo ele formado família na União Soviética durante o período de exílio, e recusa-se a deixá-lo, sob qualquer circunstância – face às revelações do marido sobre o que sucedeu no estrangeiro, face ao facto deste se refugiar no silêncio, face ao facto de ser um homem completamente diferente daquele que partiu três décadas antes: Katerina nunca o deixa de amar, e acaba por pedir para a deixarem juntar-se a ele na pequena embarcação, enquanto o seu destino é decidido. O filme encerra com o casal em alto mar, isolados do resto do mundo, num plano sequência hipnótico e profundamente belo.

Theodoros Angelopoulos deixou de estudar na FEMIS (escola de cinema em França) por divergências artísticas com um professor, nomeadamente pelo seu uso de planos sequência longos. Ironicamente, esta tornar-se-ia a sua imagem de marca, e que muito bem utilizada foi neste filme, para criar cenas que permanecem no imaginário do espectador durante muito tempo. O uso de uma palete de cor maioritariamente em tons escuros, onde predomina o azul, acentua o sentimento de tristeza e melancolia inerente à obra e à sua temática. Citera é conhecida como a ilha de Afrodite na mitologia grega, a ilha que representa os sonhos e a alegria, local que Spyros pretende alcançar, pelo menos num plano espiritual. Apesar de ser o primeiro filme da trilogia, “Viagem a Citera” parece ser o último, quer pela idade das personagens, quando comparadas às dos filmes seguintes, quer por esta Viagem representar o final de uma busca, de uma peregrinação, o aceitar das consequências dos atos cometidos no passado e a desesperança patente de um homem que vê o mundo a mudar e nada pode fazer para o impedir.

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