​Baseado na peça de teatro com o mesmo nome, “Tristeza e Alegria na Vida das Girafas”, o novo filme de Tiago Guedes, é uma comédia com um tom melancólico que acompanha a aventura de uma menina peculiar de 10 anos, conhecida por Girafa, e do seu urso de peluche, Judy Garland. À primeira vista simples, a aventura é na verdade uma profunda reflexão sobre o processo de crescimento daquela criança em particular, mas com o qual todos nos identificamos.

​Girafa (Maria Abreu) fala de uma forma adulta mente estranha, e é bastante grande para a sua idade; nas suas próprias palavras, o seu espírito, apesar de invisível, é também demasiado grande para a sua idade. Girafa perdeu a mãe, mas enquanto criança que é não se apercebe do impacto que os seus sentimentos de tristeza reprimida estão a ter na sua vida. Em vez de lidar diretamente com eles, projeta as suas saudades e raiva interior nas mais diversas situações e desejos. Girafa parte numa aventura para angariar dinheiro que lhe permita ter na televisão o Discovery Channel, já que o pai (Miguel Borges) não o pode pagar, mas vai-se apercebendo de que o seu desejo de fugir e de obter “algo mais” vai muito além de um simples canal televisivo.

​Toda esta aventura é acompanhada pelo seu urso de peluche chamado Judy Garland (Tónan Quito), que tem uma constante atitude depressiva perante a vida. Judy Garland, naturalmente, apenas ganha vida na imaginação da sua dona, pelo que as suas atitudes de raiva e depressão me pareceram uma projeção das suas próprias emoções reprimidas. Uma das primeiras cenas que me marcou no filme foi uma situação em que pai e filha se tinham chateado, e enquanto Girafa se encontra calma por fora, Judy Garland despeja uma torrente de asneiras e se comporta de forma extremamente agressiva face ao pai, mostrando o turbilhão de emoções que vai no peito da rapariga. Uma outra cena que achei excelente, talvez a melhor do filme, foi quando a determinada altura o pai tem um monólogo em que se interpreta uma discussão entre si próprio e a falecida mulher, abordando a sua vida falhada, a relação com Girafa e o desespero por não ter nunca conseguido ser ninguém. Este foi para mim o momento mais forte do filme, demonstrando a qualidade do ator, do argumento e da realização. Muitos momentos tensos se seguiram, sempre intercalados (ou mesmo simultâneos) com momentos de humor, como referências a Tchekhov e ao Spartacus que são uma constante ao longo do filme.

​Também a excelente banda sonora, de Manel Cruz, ajudou bastante à conexão do filme com a audiência, transmitindo na perfeição as sensações que o realizador queria passar. Assistir a este filme foi, sem dúvida, uma excelente experiência. Por várias vezes me encontrei na borda do assento, completamente embrenhada na história, sem saber onde terminavam as minhas emoções e começavam as das personagens do grande ecrã. É um maravilhoso ensaio sobre o processo de crescer (neste caso um pouco precocemente) e sobre a melancolia de “matar a infância”, numa linha de raciocínio quase Pessoa na de saudades da infância perdida.

«Tristeza e Alegria na Vida das Girafas» – Um ensaio sobre o crescimento e a infância
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