Troy Kotsur faz história ao vencer um SAG

A 28ª edição do Screen Actors Guild Awards foi iniciada com uma estreia histórica, com Troy Kotsur se tornando o primeiro ator surdo a ganhar um prêmio individual de atuação na história do prêmio do sindicato de atores de Hollywood.

Na primeira categoria televisionada da noite, Troy Kotsur levou o concorrido prémio de melhor ator secundário por sua admirável atuação no drama familiar CODA, da estreante Siân Heder. O ator veterano que fez uma performance inovadora no filme de Siân Heder, entrou para história do prémio como o primeiro ator surdo indicado individualmente para um prêmio SAG e, posteriormente, o primeiro ator surdo a ganhar um dos principais prémios.

Quando seu nome foi lido, Kotsur mergulhou a cabeça nas mãos. No palco, ele elogiou CODA como o filme raro para retratar uma família surda autenticamente. Ele aceitou o prémio com um discurso emocional e cômico.

“Sou membro [do SAG] desde 2001, então agora sinto que finalmente faço parte da família”, disse ele. “Eu sei que todos vocês sabem como é ser um ator faminto. Naquela época eu dormia no meu carro, dormia no meu camarim nos bastidores e tudo mais. Você me sente, certo?”

Ele continuou agradecendo aos produtores e ao elenco de seu filme, acrescentando sua gratidão ao Apple TV+ por “todo seu apoio e acesso, como legendas ocultas gravadas, fornecendo serviços de interpretação de ASL e acreditando em nós, atores surdos e nos escalando autenticamente como atores que acontecem ser surdo”.

Ele concluiu com humor: “Obrigado por minha esposa me lembrar de verificar minha braguilha antes de andar no tapete vermelho”.

Reprodução / Vanity Fair

Este ano, é concesso entre os especialistas que a categoria de melhor ator secundário é uma das mais acirradas da temporada. Nesta edição do SAG, Troy Kotsur concorria com Kodi Smit-McPhee (“O Poder do Cão”), Ben Affleck (“The Tender Bar”), Bradley Cooper (“Licorice Pizza”) e Jared Leto (“Casa Gucci”) – Kotsur e Smit-McPhee eram os apontados como favoritos da categoria. A vitória de Kotsur agora o torna o favorito não oficial para um Óscar, no próximo mês.

O SAG Awards é considerado um dos preditores mais confiáveis ​​do Óscar – os atores representam a maior porcentagem da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. A vitória de Kotsur sugeriu que ele pode ter emergido como o favorito do Óscar na competição.

O SAG Awards estará disponível segunda-feira no HBO Max. Depois que o Globo de Ouro de janeiro não foi televisionado, o Screen Actors Guild Awards foi a primeira grande premiação televisiva e presencial de Hollywood – completa com tapete vermelho e discursos com lágrimas nos olhos.

 

Participação em “CODA” (Sian Heder):

No longa, ele interpreta Frank Rossi, um homem surdo que lidera um pesqueiro, em Massachusetts, e lida com a filha Ruby (Emilia Jones), intérprete da família que planeja mudar de vida e estudar em uma faculdade de música.

A atriz Marlee Martin, que interpreta sua esposa, foi a primeira pessoa surda a ser indicada e vencer um Óscar. Ela concorreu em 1987 e ganhou o prémio de Melhor Atriz pela atuação em “Filhos de um deus menor” (1986), de Randa Haines.

CODA, Emilia Jones, Troy Kotsur e Marlee Matlin 2021. © Apple TV+ / Courtesy Everett Collection

Por CODA, Kotsur foi nomeado ao Óscar de Melhor Ator Secundário. Na categoria, Kotsur concorre ao lado de Ciarán Hinds (“Belfast”, de Kenneth Branagh), J.K. Simmons (“Apresentando os Ricardos”, de Aaron Sorkin) e a dupla Jesse Plemons e Kodi Smit-McPhee (ambos de “O Poder do Cão”, de Jane Campion).

Em sua destacada atuação em CODA, Kotsur tem apenas uma frase falada, mas, felizmente, é uma frase maravilhosa. Ao incentivar a filha, interpretada por Emilia Jones, a perseguir seus sonhos de cantar e ir para a faculdade diz emocionado em voz alta: “Vá!”.

Para ele, essa única palavra exigiu muito ensaio e coragem para pronunciar algo que ele mesmo não podia ouvir em um set de filmagem. Mas ele já havia feito isso antes. Anos atrás, como Stanley Kowalski em uma produção do Deaf West Theatre de “Um Bonde Chamado Desejo”, exclamava “Stella!”, noite após noite.

“Às vezes eu pergunto ao público como é a minha voz”, disse Kotsur em linguagem de sinais em entrevista à Jake Coyle.

Historicamente falando, Kotsur é apenas o segundo ator surdo a ser indicado para o Óscar. E, com o “Vá!”, ele espera que sua conquista ressoe como inspiração.

“Espero que os jovens surdos ou com deficiência auditiva possam se tornar mais confiantes e inspirados a perseguir seus sonhos”, comentou Kotsur. “Quero que essas crianças não se sintam limitadas.”

“Ser indicado e receber prêmios, torna-se histórico. Muitas gerações podem olhar para trás e ver isso como um momento de destaque”, disse Kotsur ao portal The Hollywood Reporter recentemente. Na ocasião, ele relembrou que sua colega de elenco, a atriz Marlee Matlin foi a única surda a ganhar o Óscar de Melhor Atriz – Kotsur é o primeiro ator surdo nomeado ao Óscar de Melhor Ator Secundário.

CODA, Troy Kotsur e Marlee Matlin 2021. © Apple TV+ / Courtesy Everett Collection

“Filhos de um deus menor” foi o primeiro e esperamos que “CODA” seja o segundo”, pontuou. “Depois que eu estiver morto e enterrado, gostaria de ter esse legado”, concluiu Kotsur ao portal The Hollywood Reporter.

CODA ascendeu Kotsur à grande cena hollywoodiana, enquanto faz história para a comunidade surda. Felizmente, a enxurrada de elogios tem sido desconcertante. Vale lembrar que quando foi nomeado para o BAFTA, comemorou tanto que caiu da cadeira. Aceitando o prémio Gotham de Melhor Ator Secundário, ele falou à multidão que não estava sem palavras, mas “absolutamente incapaz” de se expressar no momento.

“É simplesmente avassalador”, afirmou Kotsur sobre a aclamação. “É impressionante. Sinto que posso morrer feliz, com um sorriso no rosto”. Como citamos acima, a única pessoa que passou por algo semelhante foi sua colega de elenco Marlee Matlin.

 

Caminhada ao estrelato:

A longa caminhada de Troy Kotsur até ao Óscar começou, segundo ele, na escola primária. Com pouca programação de televisão acessível a ele, adorava desenhos animados altamente visuais como “Tom e Jerry” e os contava alegremente para seus colegas surdos no ônibus. Seu pai, um chefe de polícia, mais tarde o chamaria carinhosamente de “temerário” por começar a atuar. Kotsur estudou atuação na Universidade Gallaudet e depois excursionou com o Teatro Nacional de Surdos.

Frequentando a Universidade Gallaudet, a única escola de artes liberais para surdos dos Estados Unidos, Kotsur encontrou um departamento de teatro forte e acolhedor. A partir daí, ele começou a fazer turnês com grupos de teatro, acabando por desembarcar no Deaf West Theatre uma companhia de teatro sem fins lucrativos de Los Angeles, fundada em 1991. Ele esperava entrar no cinema e na televisão enquanto morava em “Hollywoodland”, como ele diz, mas isso não aconteceu, e depois de décadas de tentativas, ele e sua família se mudaram para Phoenix.

Troy Kotsur e o nomeado Óscar Paul Raci em “Cyrano” no Fountain Theatre

Pois é, apesar de ser formado em atuação, Kotsur teve poucas oportunidades na TV e no cinema – havia poucas vagas disponíveis para atores como ele, nisso, ele acabou encontrando liberdade e estabilidade no teatro. Sua carreira nos palcos iniciou com Of Mice and Men em 1994, ao longo dos anos, ele atuou em cerca de 20 produções da Deaf West – em uma dessas peças, conheceu sua esposa, a atriz Deanne Bray.

Entre os destaques no Teatro, ele interpretou Cyrano de Bergerac, na peça – “Cyrano de Bergerac – escrita em 1897 por Edmond Rostand, baseada na vida de Hector Savinien de Cyrano de Bergerac, escritor francês, encenada pela primeira vez em 27 de dezembro de 1897, e estrelou “American Buffalo –  peça em dois atos de David Mamet.

A realizadora Siân Heder viu Kotsur pela primeira vez em duas peças do Deaf West, em “At Home in the Zoo, peça escrita por Edward Albee (1928-2016) e “Nossa Cidade, peça escrita por Thornton Wilder (1897-1975) – encenada pela primeira vez em janeiro de 1938 e adaptada por Wilder para o cinema em 1940.

 

Luta por visibilidade:

A nomeação de Kotsur ao Óscar de melhor ator secundário chega num momento em que pessoas com deficiências e limitações estão sendo cada vez mais incluídas em produções hollywoodianas, como exemplo, em filmes: “O Som do Metal (2019), de Darius Marder, “Eternals” (2021), de Chloé Zhao e “Um Lugar Silencioso”, de John Krasinski (2018) e nas séries  “Estação Onze”, da HBO e “Gavião Arqueiro”, da Disney +.

No mundo, estima-se que 360 milhões apresentam algum grau de surdez. Essas informações são muito relevantes e refletem a necessidade quanto ao desenvolvimento de ações inclusivas, capazes de atender milhões de pessoas. Nessa perspectiva, o caminho para a inclusão mais efetiva em expressões artísticas como o teatro, o cinema e a TV ainda é longo. Os motivos são vários, entre eles estão o preconceito, a falta de oportunidades, de acessibilidade e, por consequência, a sensação, por uma parcela dos deficientes visuais e auditivos, de que não haveria espaço para eles.

Elenco surdo de Coda

O próprio Kotsur estava acostumado a ver personagens surdos vitimizados e unidimensionais, mas CODA apresentava algo que ele raramente tinha visto. Os Rossis de CODA podem ter de trabalhar um pouco mais, mas são uma família como qualquer outra, com conversas divertidas à mesa e brigas casuais. O Frank de Kotsur também é um pouco libidinoso e profano. Em uma cena em que fala à filha sobre sexo seguro, ele imita um soldado colocando um capacete.

Kotsur que sempre viu outros atores xingarem, se divertiu com a vulgaridade de seu personagem. Ele orgulhosamente se lembra do cabo de guerra do filme com a Motion Picture Association of America (MPAA) depois que CODA quase recebeu uma classificação R (exigindo que menores de 17 anos assistam acompanhados de um dos pais ou responsável).

Mas para Kotsur, Frank é como um surdo de verdade: “Um surdo trabalhador que simplesmente sobrevive”, disse em entrevista concedida à Jake Coyle.

“Quero que o público tenha uma perspectiva diferente. Quero que eles se livrem de suas noções preconcebidas de como são os surdos”, aconselhou Kotsur. “Existem médicos surdos. Há advogados surdos. Há bombeiros surdos. Muitas pessoas ouvintes não percebem isso”, concluiu Kotsur à Jake Coyle.

 

Pós- participação em “CODA”:

Podemos ver Kotsur na série The Mandalorian, da Disney +, como um Tusken Raider, para o qual desenvolveu sua própria linguagem de sinais. Outros papéis aguardam, assim como uma esperada turnê de palestras para crianças e aspirantes a atores surdos. Mas, por enquanto, ele absorve tudo o máximo que pode.

Por fim, Kotsur é um pioneiro. Graças a ele e a Matlin poderá haver mais oportunidade de trabalho para atores e atrizes, que acontece serem surdo(a)s.

 

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