O documentário recentemente lançado na plataforma “Filmin”, “Uma Vida Alemã”, retrata as memórias de Brunhilde Pomsel, antiga secretária de Joseph Goebbels. Existem documentos que se tornam, com o passar do tempo, cada vez mais necessários para a nossa interpretação do presente e é esse o caso de “Uma Vida Alemã”. Os relatos de Brunhilde são o retrato de um povo que foi fechado sobre si mesmo, sob um antigo, obscuro e opaco manto ideológico que impede alguém de pensar além do seu sentido de conformidade para com a normalidade instituída. Através dos testemunhos de Brunhilde, vemos hoje que só através de uma consciência retrospetiva conseguimos obter alguma clareza sobre as teias que, naquela época e nas cabeças daquele povo, foram tecidas. Mas, aquilo que percebemos, não sem um pequeno arrepio, é a parte que ainda hoje perdura, no meio de nós, dessa mesma natureza social.

Brunhilde vai-nos relatando sobre o caminho que percorreu até se alistar no PNSTA. Ouvimos alguém que, como a maioria dos indivíduos de uma sociedade, procurou buscar, para si, a melhor vida possível: um bom emprego, um bom salário e uma vida confortável. Dentro dessa normalidade, as vidas acontecem no seu ritmo natural, os convívios, as amizades e as influências que no meio vão aparecendo e fazendo algumas “propostas irrecusáveis”. A estenógrafa de Goebbels tinha amizades que pertenciam às classes perseguidas e como em qualquer amizade verdadeira espera-se que o olhar sobre essas pessoas consiga alcançar-lhes o rosto – com tudo o que o conceito do filósofo Emmanuel Levinas lhe colocou de alteridade radical, livre e inviolável. Porém, nesta luta ética entre o conservadorismo dos que vivem presos na espuma dos dias e o desejo de infinito que lança o ser para além de si mesmo, amiúde ganham os primeiros.  E se é a primeira vida que sai sempre vitoriosa, então percebemos bem as seguintes palavras de Brunhilde: “O mal existe. O Diabo existe. Deus não existe, mas o Diabo sim. Mas não existe justiça, justiça não existe”.

Brunhilde afirma que as coisas não são pretas e brancas, mas que existem sempre os cambiantes de cinzento que vivem no seu intermédio. Esta frase traduz, não apenas uma fuga à visão reducionista da época histórica, como descreve bem as opções formais do conjunto de realizadores do documentário – Christian Krönes, Olaf S. Müller, Roland Schrotthofer e Florian Weigensamer. E esta estética talvez seja a que melhor se adeqúe à postura da personagem, que embora nos possa parecer fria, transmite verdade. A entrevista vai sendo interrompida por várias imagens de arquivo, assim como frases que marcaram a política propagandista de Goebbles. Este efeito de interrupção mostra-nos aquilo que é, talvez, a grande potencialidade do cinema: criar intervalos. É dentro da potencialidade destes que as histórias podem sofrer todas as transformações possíveis, todas as que uma perceção mais naturalizada assume como impossíveis. Porém, neste caso, não é a imaginação que se vem introduzir nesse intervalo, são os próprios documentos históricos: tanto os que mostram toda a barbárie perpetrada pelo regime como aqueles que tinham o papel de fazer resistência. Estes intervalos são pedaços de uma pedagogia que tem como função repetir, como o soar de um alarme, todos os alertas para que a história não se volte a repetir.

Penso que com o tempo vamos começando a ver as coisas mais simples com um olhar renovado que começa a perceber o valor que aí se esconde. E o conceito de necessidade é, talvez, aquele que mais acompanha esse período de maturação. Ao sentirmos a necessidade da presença de algo que existe, sentimos a beleza na sua forma mais pura. Não é um pequeno regozijo estético, uma complacência num objeto, é atingir a profundidade de um vínculo raro com o mundo e as coisas. É assim que penso este documentário, como uma obra necessária, algo sem retrocesso; um testemunho que deve juntar-se a outros sobre o tema, igualmente importantes e necessários, na esperança que permaneçam preservados e vivos no arquivo da história.

«Uma Vida Alemã» - O Perigo Eterno da Vida Naturalizada
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