Agnès Varda nos deixou em 29 de Março deste ano e virou “névoa”, como ela mesma diz na cena final de seu último filme, “Varda por Agnès”. Além de ser um autorretrato mais completo que “As Praias de Agnès”, é uma despedida. Esta longa-metragem dividida em duas partes é uma belíssima aula de cinema. A escola Agnès Varda é o melhor legado com o qual a artista belga poderia nos presentear.

Não é um filme nada triste. Varda sempre foi muito bem-humorada e, em suas masterclasses, faz piada de vários momentos de sua vida. Era seu jeito de lutar contra a estupidez, como ela já contou em entrevistas, com alegria e curiosidade. Isso que a motivava a fazer documentários, ficções e fotografias. Assim como três palavras eram parte de seu processo criativo: inspiração, criação e partilha.

Não é obrigatório ter visto um, dois ou todos os filmes da realizadora para assistir ao “Varda por Agnès” pois ela faz um resumo bem didáctico de sua obra. De “La Pointe Courte”, da década de 1950, a “Olhares, Lugares” (2017), parceria com o fotógrafo francês JR, todas as suas imagens são esmiuçadas. O público sairá da sala de cinema com a maior vontade de colocar essa filmografia em dia.

Em um trecho, Varda conversa com a actriz Sandrine Bonnaire, que tinha 17 anos quando estrelou “Sem Eira nem Beira” (1985). Elas se lembram de curiosidades das filmagens, mas o mais interessante e lúdico é a forma como Varda explica a escolha e a engenharia dos travellings* para o filme enquanto realiza um!

Não é à toa que Varda foi essencial para a nouvelle vague, a única mulher a vencer a Palma de Ouro honorária e a primeira realizadora a ganhar o Óscar pelo conjunto da obra. Sobretudo ela era uma pessoa interessada por pessoas comuns, era activista feminista, mãe de Rosalie Varda e Mathieu Demy, e transformou em arte batatas que pareciam um coração. Para quem já é fã e sente falta das aventuras da realizadora, é uma óptima oportunidade de passar quase duas horas ao lado dela.

*movimento de câmara em que esta se desloca no espaço

«Varda por Agnès» - belíssima aula de cinema antes de virar névoa
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