Hercúlea foi a tarefa de João Maia no seu esforço em conseguir o melhor retrato de António Variações. Porém, a intensa vitalidade do símbolo e todas as diferentes fases pelas quais passou podem não caber dentro de 109 minutos de filme. Na biopic tradicional, existe uma extensão natural do filme, para conseguir abarcar as fases mais importantes da história de alguém, principalmente a sua infância. “Variações” é um filme que foge a essa extensão, e, por isso, viu-se obrigado a sacrificar partes da história na tentativa de esculpir uma forma total na tentativa de captar a essência da personalidade do cantor.

Captar a essência de António Variações é captar-lhe a alma, aquela força vital que deu origem às suas letras – “há mais de mim nas minhas canções do que em mim”, são as palavras que António diz a um dos membros da banda. Porém, o enfoque de João Maia prendeu-se mais à narrativa, na tentativa de vencer as dificuldades, que ao longo do filme se tornaram visíveis, em ordená-la de uma forma coesa.  A narrativa vai navegando pelas diferentes fases da vida do cantor, onde nem sempre ficam claras as transições temporais. Um sintoma deste enfoque narrativo está na primeira cena do filme, onde o sonho de António está submetido à narrativa, ao mostrar mais as memórias da sua infância sem explorar as profundezas psicológicas da personagem – os seus fantasmas. Ao longo da história vamos conhecendo os seus grandes amores: a sua Mãe, Deolinda de Jesus, a quem dedica uma música; Amália Rodrigues, para quem abriu um concerto e, aquele que talvez tenha sido a amor da sua vida, Fernando Ataíde.

Uma vez que a espessura psicológica do cantor não é explorada, João Maia precisou de algo que captasse a atenção do espectador. Sérgio Praia é essa superfície pura, o corpo como o lugar onde vêm habitar os trejeitos, a voz, o olhar. O corpo de sentidos. O corpo excêntrico. O corpo sem órgãos – dir-nos-ia Antonin Artaud. Praia estava pronto a expressar tudo, e tal como Lisboa teria de se adaptar a Variações, o filme teria de se adaptar a Sérgio Praia. E neste caso, Praia é maior do que o filme; é o pilar milagroso que o sustenta, de ponta a ponta, durante toda a sua duração. É através dele que algo se nos apresenta, a candura excêntrica, o comprometimento com o sonho, a solidão, a intensidade dos seus amores e a fatal vulnerabilidade que no seu corpo se esconde.

A cena onde ouvimos “Sempre Ausente” é uma das mais belas do filme. Primeiro é preciso louvar a escolha de dar um brilho especial a uma música que, para mim, é uma das melhores composições portuguesas de sempre. A forma como a música parte da sua função diegética, quando António canta para o seu gravador, até à função não-diegética, quando vemos António, solitário, a deambular, em busca do seu maior sonho, vem dar uma profundidade nova à personagem, dar aquela espessura interior que nele procuramos. Destaco, ainda, a cena final, por ela nos dar a ver o jorrar desse fulgor que habita a personagem, onde a morte aparece sem se mostrar em si mesma. Visivelmente fragilizado, o cantor chega a casa de Fernando Ataíde e coloca um vinil de Amália Rodrigues a tocar enquanto Fernando se vai aproximando dele. Ambos deixam sair de si toda a emoção, como se tivessem a viver os últimos momentos das suas vidas. A cena é intensa e trágica; Amália é a banda sonora perfeita para trazer à superfície o tormento de quem pressente a morte como destino traçado, dentro de um abraço que simboliza a fatalidade de um amor desencontrado.

Este final é crucial para nos desviar de todas as fragilidades que o filme contém. Sérgio Praia é um objecto parcial, que conseguimos desligar de todas as dimensões que compõem um filme, e cuja função é condensar em si a nossa satisfação total. Se não tomássemos essa parte pelo todo, o filme aparecer-nos-ia bem mais pobre, seria uma simples caminhada hesitante pela superfície da história do cantor. Só assim conseguimos chegar ao fim do filme com a sensação que algo nos atingiu e que não saímos da sala sem recebermos os afectos que, magicamente, compõem as imagens do cinema.

Realização: João Maia
Argumento: João Maia
Elenco: Sérgio Praia, Filipe Duarte, Victoria Guerra
Portugal/2019 – Drama/Biografia
Sinopse
: Com uma sonoridade moderna e ao mesmo tempo profundamente portuguesa, António Variações foi um dos músicos mais originais alguma vez surgidos em Portugal. António Joaquim Rodrigues Ribeiro, de seu nome de batismo, faria 75 anos no final de 2019. Morreu em 1984, em Lisboa, aos 39 anos. Esta é a sua história.

«Variações» - Toma um Sérgio Praia que isso passa...
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