A vontade de representar António Variações no grande ecrã já se arrastava há quase 20 anos para João Maia, realizador e argumentista. Com o filme Variações a luta do autor para prestar a sua homenagem cinematográfica ao cantor português conseguiu finalmente materializar-se. Também Sérgio Praia, o escolhido para interpretar a personagem, fez parte dessa luta, estando cerca de 10 anos com o papel na mão, mas à espera da oportunidade para o corporizar. Durante esse tempo teve inclusive oportunidade de exercitar a interpretação numa peça de teatro de Vicente Alves do Ó em 2016, denominada “Variações, de António”.

O período de espera pela oportunidade para fazer o filme poderá ter dado a João Maia tempo para ir percebendo realmente que história queria contar de António Ribeiro, nascido no ano de 1944 em Amares. O resultado final do filme ignorou a tendência geral para uma narração da história de vida completa contada por ordem cronológica, como se de um simples livro biográfico se tratasse, apenas com imagens de fundo servindo de muleta visual.

Ao invés, o filme condensa-se sobretudo entre os anos de 1977 e 1981, ainda antes de o músico ter conseguido lançar o primeiro dos seus únicos dois álbuns, seguidos pela sua morte em 1984. Auxiliada de analepses e prolepses desde o período temporal em que se fixa o filme, a ênfase é dada à luta de António por mostrar a sua música e ir além daquilo que a indústria procurava fazer dele (quase como se a batalha de João Maia por fazer o filme estivesse a ser representada na busca de António).

Falar em “Variações” (o filme) é obrigatoriamente falar em Sérgio Praia. O seu desempenho é um factor indissociável do filme, como em muitos biopics acontece. Mas, ao contrário de muitos, o Variações de Sérgio Praia não precisa de exagerar na exuberância, porque o verdadeiro António era uma pessoa solitária e reservada, por vezes inibida até. Praia conseguiu dar humanidade a Variações, soltar-se de uma excentricidade permanente e deixar que a grandiosidade do cantor transparecesse onde este mais queria: na sua música.

Porventura, mais do que relevante como filme per se, a obra revela-se importante no contexto do cinema nacional. Quando se fala em cinema português, fala-se sobretudo num espectro cujos pontos se situam normalmente numa de duas pontas. À primeira chamemos-lhe de cinema “artístico” ou “de autor”. É aquele que ganha prémios nos festivais internacionais e é frequentemente aclamado pela crítica, mas que por norma é incapaz de ter expressão no panorama nacional. A outra ponta, que poderá ser denominada de cinema “comercial”, inclui aquele cinema que consegue levar pessoas à sala (em doses moderadas, é certo), mas que por norma utiliza fórmulas mais repetitivas e que conta com produções não raramente desleixadas.

“Variações” pode ser pensado como um filme que representa uma quebra na necessidade de extremos no cinema português. É um filme que tem esgotado salas e atraído as pessoas a deslocarem-se para irem ao cinema, tendo já batido alguns recordes de bilheteira (reconhece-se, no entanto, que o facto de representar uma figura conhecida pelo público é uma ajuda). E, contudo, demonstra cuidado na produção, a vontade de fazer cinema com qualidade e carinho na forma como foi retratada esta figura mítica, desde a pequena aldeia de Fiscal até à sua morte que, após ter acontecido, o tornou imortal.

Realização: João Maia
Argumento: João Maia
Elenco: Sérgio Praia, Filipe Duarte, Victoria Guerra
Portugal/2019 – Drama/Biografia
Sinopse
: Com uma sonoridade moderna e ao mesmo tempo profundamente portuguesa, António Variações foi um dos músicos mais originais alguma vez surgidos em Portugal. António Joaquim Rodrigues Ribeiro, de seu nome de batismo, faria 75 anos no final de 2019. Morreu em 1984, em Lisboa, aos 39 anos. Esta é a sua história.

«Variações» – Uma luta dentro e fora da tela
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