Verde e AmarElo, as cores da luta e da resistência

Chamar-lhe documentário é pouco! É um tratado de história, sociologia, antropologia, história da música, música, colonialismo. É um tratado de Liberdade e de Amor! A mistura de arte e activismo – artivismo no seu pleno.

O paulista Emicida, Leandro como lhe chama a mãe, é um dos MCs mais conhecidos do Brasil. AmarElo – É Tudo Para Ontem, estreado em Portugal na Netflix combina imagens de concertos ao vivo, entrevistas, sessões de gravação para o álbum de 2019, AmarElo e sequências animadas envolventes que iluminam o legado da cultura negra no Brasil. Com direção de Fred Ouro Preto e duração de uma hora e vinte e nove minutos, é dividido em três partes: Plantar, Regar e Colher e mostra os bastidores da apresentação que o rapper fez em 2019, no Theatro Municipal de São Paulo.

Como rapper, Emicida é uma mistura cativante de erudição, espírito de batalha de rap combativo e espiritualismo reverente. Tudo isso está em exibição nas filmagens do espetáculo aqui, mas é nas sequências de estúdio onde ele realmente brilha, descrevendo os sons e ritmos que ele ouve em palavras e músicas, e mantendo a vibração solta mesmo enquanto ele colabora na mesa de mixagem com os seus heróis musicais. Com uma montagem dinâmica que envolve o espectador enquanto ressalta a importância cultural e social do hip-hop através de uma brilhante pesquisa de imagens e do uso de ilustrações e animações, o documentário resgata registos de grupos como “Os Oito Batutas” e “Os Originais do Samba“, além de intelectuais como o teatrólogo Abdias do Nascimento (criador do Teatro Experimental do Negro) e da filósofa Lélia Gonzalez, que inspirava a admiração de ícones como Angela Davis (que aparece brevemente ressaltando a relevância da brasileira). Estes, no entanto, são apenas algumas das dezenas de nomes listados.

Emicida conecta o rap como força geracional no Brasil ao legado daqueles criadores e gêneros que vieram antes, e que fizeram o trabalho de permear a cultura com a arte. “O hip-hop já existia muito antes de existirmos”, diz ele. “Esta fruta agridoce que chamamos de rap cresceu de uma grande árvore”, e a animação mostra nomes de notáveis ​​multiplicando-se à sombra de uma árvore frondosa, muitos deles datados de 1900. “Se você examinar de perto suas raízes, encontrará o samba lá.”

Mas também é um relato da criatividade e do processo criativo, e um exame de um artista sinceramente progressista. Mas o progressismo de Emicida está intimamente ligado à história e cultura do Brasil; mesmo uma breve nota sobre a actual pandemia de Covid19 é enquadrada, em termos de como ela impactou os desempenhos de Emicida, como impactou os seus compatriotas brasileiros, a maioria dos quais é a mais profundamente afectada devido à pobreza. Muito longe de muitas tentativas cínicas e difíceis de celebridades amadas se sustentarem fingindo defender uma causa, Emicida: AmarElo – É tudo por ontem é brutalmente e deliciosamente real.

Verde e AmarElo, as cores da luta e da resistência
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