O realizador Luís Albuquerque vai estrear este ano um filme sobre a vida de Viriato, o líder lusitano, uma grande produção cinematográfica, sem apoio financeiro do ICA, que surge como uma homenagem a este chefe guerreiro, que é muitas vezes esquecido.

“Há milhares de anos houve um português que lutou e deu a sua vida pelo território que, mais tarde, se tornou a Lusitânia. Contra os avanços do império romano, possuidor de uma garra imensa, escolheu dedicar a vida à proteção das suas gentes e das suas terras, contra tudo e contra todos. O seu nome era… Viriato.”

“Não havendo trabalhos devidamente documentados relativos a Viriato, o projeto ganha pelo facto de querer fazer renascer um herói português, retratando um período histórico conturbado em que a perseverança de um único homem conseguiu aliar as diversas comunidades para um grande objetivo: a luta contra o gigante romano”, lê-se no comunicado de imprensa.

“De especial interesse para o público escolar secundário e superior, o filme reflete um esforço de relação com essa área, oferecendo inúmeras possibilidades de interpretação, conhecimento e reflexão da nossa história. A importância e pertinência desta obra no panorama cinematográfico nacional representa uma oportunidade única de dar a conhecer um dos grandes heróis portugueses a nível nacional e de singular interesse e potencial no mercado ibérico e europeu.”

Com cerca de 250 pessoas (entre figurantes e elenco) “Viriato” é um filme de época que não recebeu apoio financeiro do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual). Contou com o apoio da Viv´Arte (Laboratório Nacional de Recriação Histórica), da Federación de Tropas y Legiones de Cartagena, da Timelapse-Media, da Câmara Municipal de Seia e da Câmara de S. Pedro do Sul. Segundo o realizador, foi-lhe assegurado por parte da Câmara Municipal de Viseu um apoio financeiro que rondava os 37 mil euros. Mais tarde, esse valor baixou para os 20 mil euros, sendo que até hoje o realizador nunca chegou a receber nem um cêntimo por parte da Câmara de Viseu.

“As exigências e rigor deste projeto obrigou-nos a olhar para o espaço do território local e regional como embrião e grande potencial a explorar no seu todo, por forma a garantir as melhores condições técnicas, artísticas, logísticas e financeiras por um lado e garantindo, por outro, a sua promoção, divulgação e particular interesse nas regiões onde rodámos o filme, assegurando e capitalizando o investimento realizado a nível local e regional. Num outro âmbito, destaca-se, também, a incompreensível falta de apoio pelas entidades competentes, neste caso, o ICA, em não apoiar um filme, ou documento, que faltava no panorama cultural da nossa história. Viriato, somos todos nós, faz parte da nossa história, do nosso ADN.”

Com argumento de Ana Carolina Pascoal, fotografia de João Traveira e de Luís Pereira, banda sonora original de Luís Sousa, o elenco é composto por Alexandre Oliveira, Margarida Sousa, Mário Bertô, João Damasceno, Mário da Costa, Jaime Monsanto, Miguel Babo, Vânia Fernandes, Yuri Ribeiro, João Oliveira, Pedro Rodrigues, Paula Queirós, Ana Bárbara Queirós, Tiago Santos, António Albuquerque e João Paiva.

“Viriato”, com distribuição da NOS-Audiovisuais, estreia nas salas de cinema portuguesas no dia 10 de outubro nos cinemas NOS e Cinema City.

O Cinema Sétima Arte (C7A) falou com Luís Albuquerque (LA):

C7A: Porquê o interesse pela figura mítica deste herói lusitano, Viriato?

LA: Viriato sempre foi o meu herói de criança, numa altura em que este herói lusitano ainda pertencia ao ensino escolar. Depois de ter realizado um musical, duas comédias e dois dramas, um deles, “Por onde Escapam as Palavras”, foi exibido em cinema comercial em 2018, achei que teria de colocar a fasquia mais alta e realizar um filme à época. Agora, sinceramente, nunca pensei que esta longa-metragem nunca obtivesse apoio de entidades competentes para o efeito.  

C7A: Qual a sua opinião sobre a atual constituição do ICA?  

LA: A mesma que a anterior. Os resultados que apresentam são cada vez piores e continuamos a assistir às mesmas discussões sobre a parcialidade na atribuição dos apoios. Verdade é que os mesmos continuam a ser apoiados e as respostas que dão às candidaturas para apoios são, no mínimo, ridículas. Quando me candidatei ao apoio da longa-metragem de ficção Viriato, uma das respostas que obtive do ICA foi que o realizador não era conhecido. Na altura, não só constava na 16.ª posição do Box-Office do ICA dos filmes portugueses mais vistos, como ainda pergunto que raio de resposta é esta? Significa que o projeto, por si, já não é válido? Como é que irei ser reconhecido pelo ICA se eles fazem questão de não apoiar os realizadores desconhecidos. Como evoluir, se a primeira intenção é fazerem-nos cair? Recordo que esta é a minha sexta longa-metragem.

C7A: Como é que se consegue produzir um filme de época desta dimensão sem apoio financeiro do ICA?

LA: Fomos à procura de outros apoios, de mecenas. Contactámos várias câmaras municipais e juntas de freguesias da zona centro, pois a História revela-nos que tenha sido por aqui que Viriato viveu e combateu. Felizmente, contámos com um forte apoio da Câmara Municipal de Seia que, de imediato, se dispôs a apoiar e, acima de tudo, a acreditar no projeto. Para mais, e sabendo que os Montes Hermínios são logo ali ao lado, torna-se um extraordinário cartão de visita, visto que o filme, ou documento, faltava no panorama cultural da nossa história e que desempenhará um importante papel ao situar a obra nos contextos nacionais e ibéricos onde se ancorou.    

C7A: Que motivos encontra para a Câmara Municipal de Viseu ter recuado no acordo de financiar o filme, que rondava os 37 mil euros, sendo que mais tarde passou para os 20 mil?

LA: Não tem a ver com a CM de Viseu mas, sim, com o seu gabinete da Cultura, na pessoa do Dr. Jorge Sobrado, que não teve o mesmo visionamento que outros tiveram. E, lembre-se, estamos a falar da cidade Viriato. Por outro lado, contámos, também, com o apoio de S. Pedro do Sul, na pessoa da Dr.ª Teresa Sobrinho, vereadora da Cultura, que, inclusive, foi connosco ao terreno para mostrar o extraordinário Castro de Cárcoda. Como costumo salientar, existem os vereadores da Cultura e os das tasquinhas.

C7A: Porque não recorreu ao crowdfunding para obter mais financiamento para o filme, visto que alguns realizadores já praticam este método?

LA: Como realizador, o dinheiro que pretendo é para investir no filme que estou a realizar e, deste modo, invisto na sua autenticidade e na sua substância. Quanto mais dinheiro, mais autêntico. Sinto que o dinheiro é muito trifurcado, pelo que poderá ser uma boa opção, como uma perda de tempo. Simplesmente não me revejo nessa forma de arquitetar apoios.

C7A: Numa entrevista recente ao Jornal do Centro afirmou que “o cinema português está pior e é preciso encontrar responsáveis. É preciso responsabilizar quem oferece dinheiro sem qualquer tipo de retorno”. Em que medida é que o cinema português está pior, visto que é cada vez mais premiado em festivais internacionais e alvo de mostras e ciclos de cinema dedicados ao cinema nacional?

LA: Trabalhar por objetivos é a forma mais consensual e correta para se trabalhar, aplicando-se a empresas, governos, equipas, etc. Porque não no cinema? Para uma maior credibilidade, maior responsabilidade. No 1.º semestre de 2018 tivemos menos 1.600.000 espectadores a ver cinema português do que no período homólogo de 2017. Já neste ano, só nos dois primeiros meses, tivemos menos 21% de espectadores nas salas para ver cinema português, comparativamente ao ano anterior. Estes dados são dados fornecidos pelo ICA. Sendo assim, de que forma é que esses premiados trouxeram mais-valias ao cinema português? Repito, urge encontrar culpados e os verdadeiros responsáveis pelo estado do cinema português, pois não sou eu que o digo, os resultados falam por si.