“Viver à margem” (2014) transmite ao espectador um sentimento de um alienação peculiar, onde, não só vemos a história de um ser que vive à margem da sociedade, mas também assistimos à nossa própria marginalização relativamente aos que vivem nessas condições. Oren Moverman, neste filme, diz-nos claramente que a marginalidade implica duas posições, em que nenhuma delas pode assumir claramente qualquer elevação moral perante a outra: quando vemos a margem, é sempre desde uma outra margem, e a coisa mais objectiva é o abismo que as separa.

O filme mostra-nos como tenta sobreviver um sem-abrigo, George Hammond (Richard Gere), nas ruas de Manhattan. Não sabemos muito sobre o seu passado, o que é que o atirou para a sua condição, como se esse passado já nem existisse e fosse uma coisa longínqua. Sabemos que George tem uma filha com a qual ele tenta restabelecer um laço que ficou perdido por entre as desventuras de uma conturbada caminhada existencial. São baixas as suas ambições, assim como a sua auto-estima, porém, o filme consegue mostrar que o mais pequeno objectivo é enaltecido à força da relatividade das significações e das necessidades daquele que vai à luta, e este ser humano luta por uns centímetros de esponja para repousar as costas e por um tecto, como outros, com mais fulgor vital, lutam por um emprego, por uma casa melhor, por um aumento salarial, até à omnipotência daqueles que esperam pelos gordos dividendos do seu último negócio. Esta relatividade é bem retratada no filme, pois vamos ouvindo as conversas que vão acontecendo ao lado de George, toda a vida da qual ele está separado, o telefonema de alguém que fala em enviar um CV, as pessoas que caminham para o seu trabalho, enfim, todas as dinâmicas e os movimentos de vida que lhe passam ao lado. George passa todo o filme a tentar aparecer. Sentimos o paradoxo de uma existência evidente, corporal, carnal que ainda não nasceu ou então já morreu.

O ritmo do filme é de grande lentidão, porém, essa extrema monotonia incorpora bem a vida mínima a que foi reduzido George. O filme é pausado porque pretende mostrar mais as formas de sentir da personagem do que o movimento racional de uma história. A parte mais relevante deste filme é a forma como o realizador entrepõe os vidros entre o espectador e a personagem, transmitindo um pudor, um olhar discreto e de soslaio, como se, desde a margem em que habitamos, não conseguíssemos encarar de frente a evidência de tal fracasso político e social. É com esta linguagem cinematográfica que o realizador dá a ver a evidência de um abismo e das duas margens que o separam.

Este filme foi uma boa surpresa. É-nos apresentado um corpo dotado de sensibilidade, que esconde talentos esmagados por uma condição psicológica e emocional devastada: como é que uma pessoa que não existe poderá ver dentro de si alguma capacidade? Sentimos o esvaziamento total de um ser cuja carcaça é uma invisibilidade demasiado evidente que não pára de lutar pela sua aparição, que não para de lutar por um espaço privado mínimo, que não pára de lutar por um pequeno laço que o leve de volta ao mundo desde o qual ele foi arrancado pela raiz.

Realização: Oren Moverman
Argumento: Oren Moverman, Jeffrey Caine
Elenco: Richard Gere, Ben Vereen, Jena Malone
EUA/2014 – Drama
Sinopse: George procura um abrigo no Bellevue Hospital, um centro de acolhimento para sem-abrigo em Manhattan, onde a sua amizade com um novo companheiro, ajuda-o a tentar recuperar a sua relação com a sua filha.

«Viver à margem» - Invisibilidades demasiado evidentes
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