Por vezes melancólico, mas sempre audaz, o drama “Wildlife” encontra nas entrelinhas da emoção, nas pausas de uma poesia rítmica que nunca desilude, o sentido da sétima arte.

Jake Gyllenhaal é a cabeça de cartaz da obra – se é que se pode dizer que haja um protagonista individual –, mas no pré-confronto com a experiência cinematográfica, é factual que salte à vista o realizador Paul Dano, mais conhecido até como ator(destaque para a sua participação emPrisoners e There Will Be Blood); 35 anos e a sua estreia na realização e como co-argumentista é de sensibilizar.

Jerry (Jake Gyllenhaal) vive numa família que, aos poucos, se vai desmoronando económica e colectivamente. Após a perda do seu emprego, e com a mulher Jeanette (interpretada por Carey Mulligan), uma professora, desempregada por opção, toda sua conjuntura começa a sofrer uma mudança drástica. É aqui que reside a problemática do filme, mas a chamada “tragédia” anunciada viria depois.

Numa altura em que um incêndio feroz estava a emergir e a ser combatido um pouco distante da cidade em que viviam, Jerry vê aí uma oportunidade de servir a sua cidade, ciente do quão incerto seria regressar a casa, tendo em conta o carácter perigoso e, porventura, incontornável das chamas.

No interlúdio da situação, o filho da família Brinson, Joe (interpretado por Ed Oxenbould), aos 14 anos, sente a necessidade de ajudar a família e enverga por um trabalho como ajudante de fotografia. Entretanto, Jeanette, um pouco perdida emocionalmente, começa a trair o marido com outro homem, cheio de luxo e de posses, em busca de estabilidade financeira. De realçar que, no meio desta situação um pouco desastrosa, foi sempre o filho Joe a manter-se como o mais lúcido e ponderado.

Um filme simples, mas não simplório, nas questões que põe a descoberto: a união familiar, os vaivéns emocionais, os sentimentos voláteis que se nos assistem enquanto seres humanos, instáveis, incertos, em toda a nossa complexidade (i)lógica. Um enredo com semelhanças a “Prisoners”, que curiosamente tem Jake Gyllenhaal e Paul Dano como dois dos protagonistas. Semelhante na vertente sentimental, humana, viva; por vezes “escura” na forma como nos mostra a realidade, mas cheia de sabedoria, de sentido, de credibilidade.

Uma obra com poucas falhas no plot. Do ponto de vista formal, não se entende bem o título da película, que remete para um diálogo pouco contextualizado. E claro que o nome da obra é importante… mas quando a obra fala por si, fica difícil atribuir-lhe definições.

É esse o real desígnio do cinema: que a obra fale por si, ganhe vida, tenha um princípio, meio e fim que te ultrapasse intelectualmente – e não só. “Wildlife” é um retrato de uma sociedade onde a simplicidade reina perante os nossos desígnios. A família estará sempre em primeiro lugar, a união das almas, que pelo sangue encontram o sentido da existência (o amor).

“Wildlife”, aos poucos, foi, calmamente, encontrando o sentido de uma obra-prima: não dar tudo ao espectador, mas enaltecer, e encontrar, nos detalhes dos protagonistas, a essência do artista – e quiçá da humanidade.

«Wildlife» – Amor e simplicidade de mãos dadas
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