Há tubarões em Cannes: “O Agente Secreto” e “Dangerous Animals”

Os tubarões estão por todo lado. Primeiro, no terror australiano que trouxe o espírito das sessões da meia-noite ao festival; depois, nos que assombram Recife, no thriller político de Kléber Mendonça Filho.
"O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho
"O Agente Secreto" (2025), de Kleber Mendonça Filho

Uma das coisas mais curiosas em Cannes é como certos temas acabam se repetindo entre filmes muito diferentes, quase como um eco que atravessa as sessões de forma inesperada. Este ano, há um diálogo discreto entre obras que giram em torno da morte. Eles são muitos e falaremos deles em breve. Mas para o caso dos dois filmes que interessam aqui, são os tubarões — de espécies e contextos completamente distintos — que, por coincidência ou destino, cruzaram caminhos na Croisette neste último domingo.

O primeiro surgiu onde menos se esperava: um filme de gênero, uma releitura de série B de um… filme de tubarões. Estamos falando do australiano Dangerous Animals, de Sean Byrne. A simples presença de um terror como esse, frequentemente relegado às bordas do prestígio cinematográfico, já foi uma surpresa e tanto. Num festival conhecido por sua rigidez curatorial, o filme chegou como um sopro de energia no mar de dramas sociais que cumprem agendas políticas de curadoria.

Foi programado na Quinzena por Julien Rejl, o diretor artístico que vem reformulando a seção com escolhas mais atípicas, e fez um estrondoso estardalhaço na sua sessão no domingo à noite: gritos, aplausos, gargalhadas entusiasmadas. Uma típica sessão cannoise transfigurada em experiência coletiva.
Talvez devamos agradecer a Julia Ducournau, que em 2021, ao ganhar a Palma de Ouro por Titane, fez um apelo no palco: “Deixem os monstros entrarem.” Desde então, a porteira parece aberta: o ano passado teve A Substância, e agora este divertidíssimo Dangerous Animals.

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Seguimos Zephyr (Hassie Harrison), uma surfista dura e de espírito livre sequestrada por um maníaco obcecado por tubarões (o rouba cenas Jai Courtney), que a mantém em cativeiro num barco em alto-mar. A tensão flutua entre a claustrofobia da prisão improvisada e a vastidão do oceano, onde os predadores naturais se tornam cúmplices involuntários de um ritual macabro.

O filme bebe da tradição australiana dos thrillers brutais e psicológicos e é impossível não lembrar de clássicos modernos como Wolf Creek (Greg McLean) ou da estreia feroz de Ben Young em Hounds of Love. Como esses filmes, Byrne mergulha no irracional e grotesco para confrontar o espectador com o que a consciência prefere excluir: a violência latente, o medo da morte, a fragilidade do corpo e os limites tênues da moralidade.

Dangerous Animals é um filme aterrador que revitaliza a ideia de cinema como experiência física e coletiva, e cuja presença em Cannes sinaliza um movimento sutil, mas notável, de flexibilização curatorial. Como se o festival começasse, ainda que com relutância, a reconhecer que também no desconforto do terror pode haver uma forma legítima de beleza.

Os tubarões de Recife

Curiosamente, neste mesmo domingo, apenas algumas horas antes, outros tubarões inauguravam o dia pela Croisette. Desta vez, de maneira mais simbólica e talvez ainda mais aterradora. No fim da tarde, O Agente Secreto, novo longa de Kléber Mendonça Filho, chegava ao festival em clima de festa, com direito a frevo em frente ao Palais, numa cena apoteótica que correu o mundo em manchetes coloridas. O Brasil, país de honra do Marché du Film este ano, subia a escadaria do Lumiére com o seu elenco estelar, que incluía Wagner Moura e Maria Fernanda Cândido, e com um séquito de dançarinos que abria caminho para a trupe de Kléber. A recepção lembrou muito a entrada de Karim Aïnouz no ano passado, com Motel Destino em competição e o seu elenco dançando forró no topo do tapete vermelho. Brasil para inglês ver? Talvez. Mas depois, assistindo ao filme que viria a seguir, a festa lá fora soou involuntariamente irônica.

Mas voltemos aos tubarões. Kléber trouxe à Cannes os reais e os do imaginário. Por exemplo, os que assombram Recife há décadas, consequência de uma catástrofe ambiental ligada à construção do Porto de Suape nos anos 1980, que destruiu estuários fundamentais para a reprodução de espécies marinhas. Desde então, os tubarões passaram a procurar as suas presas à beira da praia. O vilão de Dangerous Animals a certo ponto diz que não devemos temer quem está “lá em cima”, mas sim aqueles que estão “lá embaixo”; são eles os verdadeiros deuses, silenciosos e implacáveis.

E Kléber parece partilhar dessa visão: as forças que mais o inquietam estão enterradas sob a superfície. Em sua Recife natal, que ele sempre filmou como ninguém, o horror deixou de ser um evento e passou a integrar a paisagem, nessa que já foi considerada um dia como a cidade mais violenta do país. Uma cidade onde a beleza tropical convive com uma sensação difusa de ameaça, marcada tanto pela violência histórica quanto por uma atmosfera de vigilância permanente que escorre para o cotidiano.

Esse clima de paranoia é o coração de O Agente Secreto, um thriller político elegante e complexo, ambientado na Recife de 1977 — ano que Kléber diz que lembra muito bem, aos nove anos, em pleno sufoco da ditadura militar. Nós seguimos a trajetória de Marcelo (Wagner Moura), professor universitário que se torna um “refugiado” em exílio no seu próprio país. Ele se muda de Brasília para sua Recife natal, e inicia uma vida em clandestinidade, com nome falso, enquanto aguarda a chance de deixar o país com seu filho pequeno.

Escondido em uma casa que abriga outras pessoas na mesma condição, ele tenta se manter seguro, enquanto a sua volta testemunhamos todo tipo de corrupção e a iminente ameaça de morte. O retrato de Ernesto Geisel, quarto presidente militar do regime, observa silenciosamente esses refugiados como “O Grande Irmão”. A câmera o atravessa como quem o ignora, mas logo retorna com um zoom insistente, como se fosse impossível escapar de seu olhar vigilante.

O filme também tem muito humor. Um dos momentos mais inesperados e memoráveis é inspirado em uma notícia sensacionalista: a descoberta de uma perna humana “cabeluda” dentro do estômago de um tubarão. A sequência, ao mesmo tempo macabra e cômica, ativa o imaginário popular do Recife dos anos 70 e 80, quando Tubarão, de Spielberg, chegou aos cinemas locais causando verdadeiro pânico. Há, aliás, constantes referências ao filme em O Agente Secreto, quase como se Kléber quisesse ativar a memória coletiva através do cinema. Kléber era ainda jovem demais para ver o filme na época, mas o medo se instalou fundo. O impacto de Tubarão foi tanto que, pouco depois, os primeiros ataques reais começaram a ocorrer, sugerindo que o terror, quando filtrado pela memória, vira fábula urbana, cruzando fronteiras entre o real e o imaginado com a mesma naturalidade com que um tubarão engole uma perna.

Como em Retratos Fantasmas, Kleber parece fascinado com as imagens que persistem, os cinemas abandonados (ou transformados em hospitais), memórias políticas, pequenos horrores diários. Mas se no documentário a melancolia era o tom dominante, aqui há uma tensão mais afiada, com uma dramaturgia controlada que se alimenta do que não é dito. Kleber fez um filme de espionagem que não segue a moldura dos thrillers políticos habituais. Em vez de perseguições ou revelações grandiosas, o que vemos é um thriller que avança contra o ritmo. Os perigos são difusos, os medos vêm pela sugestão.

Críticos internacionais apontaram a densidade formal do filme. Alguns compararam a elegância visual a Antonioni e a contenção narrativa ao cinema de espionagem europeu dos anos 1970. Mas também houve quem visse o filme como excessivamente hermético, com uma frieza que por vezes distancia o espectador. De fato, O Agente Secreto exige uma atenção que vai além do hábito: é menos sobre a trama do que sobre o clima, menos sobre a denúncia direta do que sobre as formas discretas de poder que moldam o cotidiano.

No fim, O Agente Secreto é um filme político sem slogans. Um gesto maduro de um cineasta que, depois de olhar para os fantasmas do passado no seu último documentário, agora volta seu foco para os sistemas que criam e alimentam esses espectros. Se não é um filme que nos engole como um tubarão em fúria, é um que nos morde devagar – e nunca mais solta.