A equipa do Cinema Sétima Arte volta a reunir-se para um balanço anual e para compor a lista dos melhores filmes do ano, tendo contado com a participação de nove membros do site: David Pinheiro, Lou Loução, Mariana Azevedo, Maria Moura Batista, Matilde Garrido, Pedro Ferreira, Tiago Resende, Vanderlei Tenório e Wellington Almeida.
O título de Melhor Filme do Ano para a equipa do Cinema Sétima Arte vai para “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Este thriller político, protagonizado por Wagner Moura, afirma-se como uma das obras mais marcantes do ano e promete continuar a recolher reconhecimento internacional no próximo ano, na corrida aos Óscares.
O filme de Kleber, um retrato tenso sobre a vigilância e a repressão em plena ditadura militar do Brasil, reuniu 59 pontos na votação final. A escassa diferença de apenas um ponto coloca em segundo lugar outra obra amplamente aclamada do cinema brasileiro, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, também ambientada no mesmo período histórico e vencedora de um Óscar. Com 50 pontos, ocupa o terceiro lugar “Sirat”, a viagem simultaneamente espiritual e física de Oliver Laxe.
A lista coletiva deste ano inclui onze filmes, dois dos quais em ex aequo na décima posição, com 16 pontos cada: “O Brutalista”, de Brady Corbet, e “Sonhos e Comboios”, de Clint Bentley. Ao todo, foram submetidos a votação 50 filmes, dos quais “A Verdadeira Dor”, de Jesse Eisenberg, “Justa”, de Teresa Villaverde, “Verdades Difíceis”, de Mike Leigh, “Manas”, de Marianna Brennand Fortes, “O Silêncio de Julie”, de Leonardo Van Dijl ou “Robot Dreams”, de Pablo Berger, foram algumas das preferências da equipa do Cinema Sétima Arte.
Os critérios para a eleição dos melhores filmes do ano de 2025 consideram filmes estreados em Portugal no ano de 2025, quer em salas de cinema, quer em festivais de cinema nacionais, quer em plataformas de streaming disponíveis no país, até ao dia 28 de dezembro. Importa esclarecer que o documentário palestino “No Other Land” foi considerado inelegível para a lista deste ano. Apesar de ter estreado em sala em fevereiro deste ano, o filme teve a sua estreia original em 2024, na plataforma Filmin. O filme militante e profundamente atual acabou por ficar em terceiro lugar na lista coletiva dos melhores filmes de 2024.
Em jeito de balanço do ano, 2025 foi um ano de muitas despedidas. Foram muitas as figuras internacionais do cinema que partiram este ano, como Rob Reiner, Robert Redford, Brigitte Bardot, Val Kilmer, Terence Stamp, Enzo Staiola, Claudia Cardinale, Diane Keaton, Udo Kier, Gene Hackman ou David Lynch.
O ano ficou também marcado por um claro retrocesso no mercado de exibição cinematográfica em Portugal, com o encerramento de mais de 40 salas de cinema em multiplex, em cidades como Gaia, Viseu, Maia ou Funchal. Esta perda de ecrãs de cinema evidencia uma crise profunda no setor de exibição em multiplex, também sob grande pressão pela diminuição de público, pela falta de oferta diversificada e pela concorrência das plataformas de streaming. Por outro lado, a Cinemateca Portuguesa teve um recorde de mais de 52 mil espectadores, e as salas independentes, como o Cinema Trindade, tiveram várias sessões esgotadas ao longo do ano.
Quanto aos resultados de bilheteira nas salas de cinema nacionais, os números são alarmantes, sobretudo no que diz respeito ao cinema português. Em 2025, os filmes produzidos ou coproduzidos em Portugal registaram, até ao momento, pouco mais de 200 mil espectadores, um valor que representa uma forte queda face a 2024, ano em que se tinham contabilizado cerca de 536 mil espectadores.
Na prática, o cinema português perdeu mais de metade do seu público. Esta quebra traduz-se numa quota de mercado de apenas 2,2 %, o valor percentual mais baixo desde 2018, ano em que a quota se situou nos 1,9 %, segundo dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA).
O filme português mais visto do ano é a comédia “O Pátio da Saudade”, de Leonel Vieira, com cerca de 69 mil espectadores. Segue-se “Lavagante”, de Mário Barroso, com apenas 21 mil, enquanto os três títulos seguintes do ranking dos filmes nacionais mais vistos não ultrapassam a fasquia dos dez mil espectadores. Todos os restantes filmes ficaram abaixo desse valor.
O cenário torna-se ainda mais preocupante quando se observa o conjunto das estreias nacionais: em 68 filmes portugueses estreados em 2025, 63 foram vistos por menos de mil espectadores, sendo que 26 desses filmes venderam menos de mil bilhetes. Embora o ano completo de 2025 ainda esteja por fechar no relatório final que será divulgado no primeiro trimestre de 2026, estes números evidenciam um problema de fundo não apenas com a distribuição e a exibição, mas com a relação com o público português.
No panorama geral, segundo o ICA, as salas de cinema em Portugal deverão encerrar o ano com cerca de 9 milhões de espectadores, o que representa uma quebra de aproximadamente 23 % em comparação com os 11,8 milhões de espectadores registados no ano anterior, assim como uma diminuição na receita bruta de bilheteira.
O ranking dos filmes mais vistos do ano é liderado pelo remake em live action da Walt Disney, “Lilo e Stitch”, com 667 mil bilhetes vendidos. Seguem-se “Um Filme Minecraft”, com 503 mil espectadores, e, em terceiro lugar, o filme mais badalado do ano, o fenómeno brasileiro “Ainda Estou Aqui”, que somou 385 mil espectadores nas salas portuguesas. O Top 10 integra ainda blockbusters como “Missão: Impossível – O Ajuste de Contas Final”, “F1” ou “Como Treinares o Teu Dragão”. Apesar do forte domínio de produções norte-americanas, o filme português realizado por Leonel Vieira consegue, ainda assim, ocupar o 39.º lugar do ranking geral.
Estas são as escolhas do ano mais votadas pela equipa do Cinema Sétima Arte:
1. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
2. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles
3. Sirat, de Oliver Laxe
4. Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi
5. On Falling, de Laura Carreira
6. Memórias de um Caracol, de Adam Elliot
7. Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson
8. Pecadores, de Ryan Coogler
9. O Riso e a Faca, de Pedro Pinho
10. O Brutalista, de Brady Corbet
10. Sonhos e Comboios, de Clint Bentley
LISTAS INDIVIDUAIS

Lista de David Pinheiro
1. Sirat, de Oliver Laxe
2. Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson
3. Pecadores, de Ryan Coogler
4. A Rapariga da Agulha, de Magnus von Horn
5. 28 Anos Depois, de Danny Boyle
6. Bugonia, de Yorgos Lanthimos
7. Verdades Difíceis, de Mike Leigh
8. Eddington, de Ari Aster
9. Sorry, Baby, de Eva Victor
10. Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi
Menções honrosas:
– Ainda Estou Aqui, de Walter Salles
– Memórias de um Caracol, de Adam Elliot

Lista de Lou Loução
1. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles
2. On Falling, de Laura Carreira
3. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
4. Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi
5. O Riso e a Faca, de Pedro Pinho
6. Abril, de Dea Kulumbegashvili
7. Urchin – Pelas Ruas de Londres, de Harris Dickinson
8. Manas, de Mariana Brennand Fortes
9. O Brutalista, de Brady Corbet
10. Pecadores, de Ryan Coogler
Menções honrosas:
– Justa, de Teresa Villaverde

Lista de Mariana Azevedo
1. Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi
2. O Brutalista, de Brady Corbet
3. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
4. Sirat, de Oliver Laxe
5. Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson
6. Verdades Difíceis, de Mike Leigh
7. Tardes de Solidão, de Albert Serra
8. Pecadores, de Ryan Coogler
9. Volveréis – Voltareis, de Jonás Trueba
10. Urchin – Pelas Ruas de Londres, de Harris Dickinson
Menções honrosas:
– Sorry, Baby, de Eva Victor
Se há um ano de boa colheita cinéfila, 2025 foi um deles. Houve para vários gostos, mas nesta altura todos vós já leram as listas dos ilustres e é por isso mesmo que vos vou simplificar a vida. Vou falar do filme “Foi Só um acidente”, de Jafar Panahi, filme estreado em Portugal neste novembro já com a Palma de Ouro de Cannes no bolso. O filme representa tudo o que o cinema desperta: curiosidade, raiva, impaciência, alegria, esperança. Faz uma leitura incrível do espectador pois é para ele que é feito. O cinema não tem de ensinar nada, cabe ao espectador saber como quer ocupar o seu tempo e com o quê. Este filme que parece ter tão pouco, filmado no Irão nas circunstâncias sempre adversas, sem nomes sonantes a protagonizar traz aquilo que muitos poucos conseguem fazer que é prender literalmente a atenção do espectador. Um argumento de linhas cruzadas que cozinha o arrepio da memória das personagens. Um final como poucos filmes conseguem segurar até ao último minuto e que põe a fasquia tão lá em cima que 2026 só pode vir melhor. Um bom ano a todos cheio de películas em salas fechadas, sem barulhos de comida e de sorver de palhinha.

Lista de Maria Moura Batista
1. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
2. Memórias de um Caracol, de Adam Elliot
3. Sob a Chama da Candeia, de André Gil Mata
4. One Power for All the Land, de Declan Clarke
5. Cinema Kawakeb, de Mahmoud Massad
6. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles
7. Sombras, de Jorge Cramez
8. Banzo, de Margarida Cardoso
9. O Silêncio de Julie, de Leonardo Van Dijl
10. I Live Here Now, de Julie Pacino

Lista de Matilde Garrido
1. Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi
2. Cão Preto, de Guan Hu
3. Sirât, de Oliver Laxe
4. Volveréis – Voltareis, de Jonás Trueba
5. Los Domingos, Alauda Ruiz de Azúa
6. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles
7. Tardes de Solidão, de Albert Serra
8. A Semente do Figo Sagrado, de Mohammad Rasoulof
9. Blue Moon, Richard Linklater
10. Dreams, Dag Johan Haugerud
Ao rever os filmes que mais me marcaram em 2025, encontro um ano particularmente sólido para um cinema atento às tensões do presente, muitas vezes construído a partir de gestos contidos e de um trabalho formal rigoroso. Vários destes títulos afirmaram-se no circuito dos festivais, confirmando a vitalidade de um cinema autoral que continua a pensar o político, o íntimo e o social sem recorrer a simplificações.
No topo da minha lista está “Foi Só um Acidente”, de Jafar Panahi, um filme que confirma algo que a crítica internacional tem vindo a sublinhar: o realizador transformou a limitação – política, física, criativa – numa poética própria. O filme expõe um mundo onde nada é verdadeiramente fortuito e em que a violência se infiltra nas estruturas mais banais do quotidiano. É um cinema de grande lucidez.
“Cão Preto”, de Guan Hu, e “Sirat”, de Oliver Laxe, ocupam lugares centrais por motivos que cruzam ética e estética. O filme chinês, amplamente reconhecido pela crítica internacional, observa a marginalidade como produto direto de um modelo económico e humano em desgaste, articulando realismo social e uma forte consciência visual. Já Laxe regressa ao deserto (físico e espiritual) para filmar a travessia como experiência limite. Sirat é uma obra marcada pela contemplação rigorosa e uma relação quase litúrgica com a imagem, deixando que cada plano carregue o peso de uma pergunta antiga: como continuar quando já não há mapa.
Num registo aparentemente mais leve, mas não menos exigente, “Volveréis”, de Jonás Trueba, confirma o cineasta espanhol como um dos observadores mais atentos das relações contemporâneas. O seu cinema, tantas vezes associado a Rohmer, encontra aqui uma maturidade serena: falar de amor, separação e amizade sem dramatização excessiva tornou-se um gesto quase contra-corrente.
“Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa, e “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, trabalham a memória como matéria instável e disputada. O primeiro observa a família como um campo de forças contraditórias, no qual o afeto convive com o silêncio e a frustração. O segundo inscreve-se na tradição de cinema político latino-americano que entende a memória não como arquivo fechado, mas como ferida aberta. Salles regressa aqui a um classicismo rigoroso, consciente de que, no cinema, a contenção pode ser mais devastadora do que o excesso.
Na segunda parte da lista surgem dois filmes que dividem (e ainda bem). “Afternoons of Solitude”, de Albert Serra, foi recebido com entusiasmo e rejeição em igual medida. Ao filmar a tourada como ritual arcaico e espetáculo codificado, Serra confronta-nos com uma violência profundamente encenada, na qual o corpo, a repetição e a duração se tornam centrais, colocando o público perante o seu próprio desconforto e questionando a relação entre imagem, tradição e poder. “The Seed of The Sacred Fig”, de Mohammad Rasoulof, por sua vez, confirma o cineasta como uma das vozes mais urgentes do cinema contemporâneo, articulando uma leitura incisiva da violência patriarcal e do autoritarismo, sem nunca perder densidade formal.
De seguida, “Blue Moon”, de Richard Linklater, funciona como um gesto de aparente simplicidade que esconde uma reflexão profunda sobre a passagem do tempo e a criação artística. E a fechar o top, “Dreams”, de Dag Johan Haugerud, confirma a vitalidade do cinema escandinavo contemporâneo na exploração do desejo, da identidade e da palavra.
O cinema de 2025, pelo menos aquele que mais me interessou, foi um cinema que recusou atalhos, que apostou na complexidade e que confiou na inteligência do público.

Lista de Pedro Ferreira
1. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles
2. On Falling, de Laura Carreira
3. Frankenstein, de Guillermo del Toro
4. Memórias de um Caracol, de Adam Elliot
5. A Rapariga da Agulha, de Magnus von Horn
6. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
7. Pecadores, de Ryan Coogler
8. Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson
9. O Brutalista, de Brady Corbet
10. Robot Dreams, de Pablo Berger
Menções honrosas:
– Separados Pelas Estrelas, de Han Ji-won
– A Semente do Figo Sagrado, de Mohammad Rasoulof

Lista de Tiago Resende
1. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles
2. Riddle of Fire, de Weston Razooli
3. On Falling, de Laura Carreira
4. Sirat, de Oliver Laxe
5. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
6. Memórias de um Caracol, de Adam Elliot
7. Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi
8. Cão Preto, de Guan Hu
9. O Último Azul, de Gabriel Mascaro
10. A História de Suleyman, de Boris Lojkine
Menções honrosas:
– Robot Dreams, de Pablo Berger
– O Silêncio de Julie, de Leonardo Van Dijl
Confesso-me culpado! Esta é a lista possível tendo em conta que vi poucas estreias em sala ou em streaming ao longo de 2025 e que, ainda assim, fui bastante seletivo nas escolhas do que fui vendo. Naturalmente, a lista final poderia ter sido diferente se o contexto fosse outro, mas agrada-me o resultado final. O conjunto reflete uma diversidade de geografias e um interesse por narrativas com uma forte dimensão social e política, que abordam temas como a ditadura, migração, precariedade laboral, identidade e resistência. Não houve qualquer hesitação na atribuição do primeiro lugar, que este ano vai para o Brasil, esse país singular que, em 2025, nos ofereceu um cinema profundamente atento ao seu passado e ao seu presente: “Ainda Estou Aqui”, um filme de resistência na figura de Eunice Paiva, magistralmente interpretada por Fernanda Torres; “O Agente Secreto”, também ambientado na ditadura militar no Brasil que revisita o clima de vigilância e de opressão; e “O Último Azul”, uma fábula distópica sensível sobre o envelhecimento e o controlo dos Governos sobre as sociedades. Destaco ainda uma das estreias mais bizarras e pouco faladas este ano: “Riddle of Fire”, um conto de fadas moderno que celebra o poder infinito e belo da infância, a liberdade criativa e como essa imaginação pode transformar a nossa realidade numa aventura tão caótica quanto memorável. Nota final para “On Falling”, de Laura Carreira, o único filme português na minha lista, um retrato duro mas necessário expor sobre a precariedade laboral dos nossos tempos.

Lista de Vanderlei Tenório
1. A Verdadeira Dor, de Jesse Eisenberg
2. Sonhos e Comboios, de Clint Bentley
3. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles
4. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
5. O Atentado de 5 de Setembro, de Tim Fehlbaum
6. Vermiglio, de Maura Delpero
7. Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson
8. Foi Só um Acidente, de Jafar Panahi
9. Memórias de um Caracol, de Adam Elliot
10. Pecadores, de Ryan Coogler
Menções honrosas:
– Eddington, de Ari Aster
– Sirat, de Oliver Laxe
Está para existir tarefa mais ingrata do que montar uma lista de fim de ano com os filmes favoritos do ano. Passei duas semanas a quebrar a cabeça para a fechar e, no fim, cheguei a vinte títulos. O problema é que vinte filmes são muitos filmes, sobretudo quando a tradição dita dez escolhas oficiais, mais algumas menções honrosas para aliviar a consciência.
Posto isto, apresento a minha lista dos melhores filmes de 2025. Optei por comentar apenas os três primeiros, aqueles que me marcaram de forma mais avassaladora e persistente, daquelas que não se resolvem com o apagar das luzes da sala. Os restantes ficam como constelação de um ano particularmente rico, à espera de futuras revisitas.
Abro a lista com “A Verdadeira Dor”, primeiro filme de Jesse Eisenberg como realizador, uma obra sensível que acompanha os primos David e Benji, afastados há muito tempo, no reencontro durante uma viagem pela Polónia em homenagem à avó amada, e que olha para a família sem idealizações. O filme reconhece que amar também significa falhar, afastar-se, repetir erros antigos e, ainda assim, sentir falta. Entre desencontros e silêncios, revela-se que o amor familiar é profundo precisamente por ser imperfeito e atravessado por diferenças irreconciliáveis.
O segundo lugar pertence a “Sonhos e Comboios”, de Clint Bentley, um filme que avança noutra cadência, mas habita um território vizinho. Entre árvores que cedem e caminhos que hesitam, Robert percebe que o mundo continua belo mesmo quando o fere com as próprias mãos. Vive reduzido ao gesto repetitivo da serra, apertado pela ausência de Gladys e da filha, por um amor feito em fragmentos e pelo sonho tímido de uma serraria que talvez o pudesse fixar antes que o tempo o desfaça. Quando a narrativa se desloca para a cidade, o filme amplia o mistério breve da existência. Joel Edgerton conduz tudo com uma delicadeza quase invisível, erguendo uma fábula de árvores, ferrovias e pequenos fantasmas domésticos, lembrando que há quedas que iluminam mais do que ferem.
O terceiro lugar é mais do que especial. “Ainda Estou Aqui” evoca uma sensação difícil de nomear, a de termos perdido não apenas um pai de família, mas um amigo de causa, alguém cuja ausência deixa um vazio definitivo. Há no filme uma dor particular, a de quem percebe que a perda não admite retorno. Vi muitos dos meus próprios amigos refletidos na figura criada por Selton Mello do deputado Rubens Paiva, e talvez por isso o impacto seja tão persistente. Fernanda Torres, no papel da advogada Eunice Paiva, entrega uma interpretação contida e profundamente sensível, equilibrando o peso da narrativa e acrescentando camadas de humanidade ao filme. Walter Salles trabalha com uma inteligência rara a potência do silêncio. É no que não se diz, nos intervalos e nos olhares suspensos, que o filme mais nos atinge. A narrativa infiltra-se lentamente e permanece, deixando-nos imersos nela muito depois de a sessão terminar. “Ainda Estou Aqui” não se encerra no seu tempo histórico. Não é um filme de época, mas um filme sobre o presente. As ditaduras não pertencem ao passado, continuam a existir, basta olhar para o mundo à nossa volta. Por isso, mais do que actual, é um filme que se impõe como necessário e, acima de tudo, eterno.

Lista de Wellington Almeida
1. Sirat, de Oliver Laxe
2. O Riso e a Faca, de Pedro Pinho
3. Surda, de Eva Libertad
4. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
5. O Último Azul, de Gabriel Mascaro
6. A História de Suleyman, de Boris Lojkine
7. Manas, de Mariana Brennand Fortes
8. Noite Sem Fim, de Delphine Girard
9. A Vida Luminosa, de João Rosas
10. Na Linha da Frente, de Petra Biondina Volpe
Menções honrosas:
– Um Encontro Mortal, de JT Mollner
– Animais Perigosos, de Sean Byrne

