Sesc Jundiaí encerra o ciclo de abril do “Vaiados em Cannes” com “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola

Terceiro filme de Sofia Coppola, o longa troca o peso histórico por uma leveza pop e revisita a juventude da rainha em Versalhes ao som de indie
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“Maria Antonieta” (2006) de Sofia Coppola

O ciclo “Vaiados em Cannes” despede-se no próximo dia 28 de Abril, no Sesc Jundiaí, com a exibição de “Maria Antonieta” (2006), de Sofia Coppola. O filme revisita a juventude da rainha francesa em Versalhes através de uma abordagem estética de matriz pop, privilegiando uma dimensão sensorial.

A mostra decorre sempre às 20h, no Teatro do Sesc Jundiaí, com entrada gratuita. Os bilhetes devem ser levantados uma hora antes de cada sessão, na Loja Sesc. O espaço situa-se na Avenida Antônio Frederico Ozanan, 6600, junto ao Jardim Botânico.

Iniciado a 7 de Abril, o ciclo reuniu três obras que, apesar de uma recepção controversa nas suas estreias no Festival de Cannes, acabaram por se afirmar como referências da cultura visual contemporânea. Além de Coppola, a programação incluiu filmes de Martin Scorsese e Spike Lee.

Reconhecido tanto pelo prestígio da Palma de Ouro como pela exigência do seu público, o festival francês tem sido, ao longo das décadas, palco de reacções severas a obras que mais tarde viriam a ser amplamente valorizadas pela crítica e pelo público. Esse contraste constitui o eixo da mostra apresentada em Jundiaí.

A sessão de abertura teve lugar a 7 de Abril, com “Taxi Driver” (1976), de Martin Scorsese. O filme acompanha Travis Bickle, veterano da Guerra do Vietname, imerso na solidão e na decadência de uma Nova Iorque sombria. À época do lançamento, a obra causou estranheza, afirmando-se posteriormente como um dos marcos do cinema norte-americano.

A 14 de Abril, foi exibido “Faça a Coisa Certa” (1989), de Spike Lee. Ambientado no dia mais quente do ano no Brooklyn, o filme aborda tensões raciais e sociais através de uma narrativa intensa.

Maria Antonieta

Alheio a qualquer pretensão de rigor historiográfico, “Maria Antonieta” (2006), de Sofia Coppola, configura-se como um exercício de estilização que privilegia a dimensão sensorial e a interioridade da sua protagonista. A realizadora ensaia aqui uma reinterpretação da figura histórica, afastando-se da gravidade convencional do drama de época para edificar uma narrativa onde o anacronismo deliberado convive com a encenação da vida cortesã.

Seguindo o percurso de Maria Antonieta desde a partida da Áustria até à sua instalação em Versalhes, o filme fixa-se no processo de adaptação a um universo regido por protocolos inflexíveis e expectativas sociais asfixiantes. Na interpretação de Kirsten Dunst, a jovem soberana emerge, numa fase inicial, como um corpo deslocado, confrontado com códigos que lhe são estranhos, circunstância que favorece uma imediata empatia por parte do espectador.

Essa adesão, contudo, é gradualmente submetida a uma inflexão crítica. À medida que a protagonista se inscreve na lógica da corte, converte-se igualmente num emblema do excesso e do privilégio, em dissonância com a realidade social que se adensa para lá dos limites de Versalhes.

Ainda assim, o filme recusa uma leitura redutora ou moralizante, preferindo inscrever as suas figuras num quadro de inadequação face às funções que lhes são atribuídas.

No plano formal, Coppola aposta numa depuração visual minuciosa, em que o figurino, os penteados e o desenho de produção adquirem centralidade expressiva. Rodado em grande medida no próprio Palácio de Versalhes, o filme articula uma estética que oscila entre a contenção e a exuberância, acompanhando a trajectória da protagonista e sublinhando o contraste entre clausura e ostentação.

Ao articular uma linguagem contemporânea com um cenário histórico, “Maria Antonieta” afirma-se como uma proposta singular no interior do género, mais interessada em perscrutar os processos de construção e erosão de uma imagem do que em fixar uma leitura definitiva da sua história.

Entre o barroco e o pós-punk

Cultivo um apreço particular pelas bandas sonoras e, nesse sentido, permito-me um convite: se for ver ou revisitar “Maria Antonieta” (2006), de Sofia Coppola, detenha-se na escuta da música. Verá como a experiência se densifica. Não se trata de um elemento periférico, mas de um dos dispositivos que mais decisivamente conformam o tom do filme.

A escolha musical, assinada por Brian Reitzell, afasta-se do expectável num drama de época. Em vez de se circunscrever ao repertório histórico, o filme integra nomes da new wave e do pós-punk, como New Order, Gang of Four, The Cure, Siouxsie and the Banshees, Bow Wow Wow e Adam and the Ants, a par de presenças como The Strokes, The Radio Dept. e Dustin O’Halloran. A estas juntam-se ainda incursões electrónicas de Aphex Twin e Squarepusher.

Em paralelo, sob consultoria histórica de Roger Neill e Karen Hiles, surgem composições barrocas de Jean-Philippe Rameau, Antonio Vivaldi e François Couperin, criando um contraste directo entre épocas. Essa justaposição não visa coerência histórica, mas antes um efeito expressivo.

A própria Coppola referiu, em material de divulgação à época, que procurou combinar música contemporânea com a do século XVIII para gerar uma tensão emocional contínua. Em sequências como o baile de máscaras, a música funciona como tradução do estado da personagem, contribuindo para uma leitura mais imediata e sensorial.

Próximas sessões

Em Maio, o ciclo “Vaiados em Cannes” prossegue com duas sessões que retomam a lógica de obras inicialmente controversas e posteriormente consagradas.

No dia 5, será exibido Festa de Família” (1998), de Thomas Vinterberg, considerado um marco do movimento Dogma 95.

O filme acompanha a celebração do 60.º aniversário de um patriarca, interrompida quando o filho mais velho expõe, num discurso público, segredos familiares perturbadores. À época da sua estreia, o impacto não se deveu apenas ao conteúdo, mas também à opção estética, assente em câmara manual, luz natural e ausência de banda sonora, o que provocou estranheza entre sectores mais conservadores.

Com o tempo, a obra viria a ser distinguida com o Prémio do Júri em Cannes e reconhecida como um dos retratos mais incisivos da disfunção familiar no cinema contemporâneo.

A 12 de Maio, a programação apresenta Bastardos Inglórios” (2009), de Quentin Tarantino, uma releitura assumidamente ficcional da Segunda Guerra Mundial.

O filme cruza a acção de um grupo de soldados judeus-americanos com o plano de vingança de uma jovem proprietária de um cinema em Paris, culminando numa sequência que reimagina o destino da liderança nazi. Na sua estreia em Cannes, a recepção dividiu a crítica, com reservas quanto à liberdade histórica e ao tom satírico aplicado a um tema sensível como o Holocausto.

Contudo, a obra consolidou-se como um sucesso internacional, tanto junto do público como da crítica, e valeu a Christoph Waltz o prémio de Melhor Actor no festival e, posteriormente, nos Óscares, afirmando-se como um dos títulos mais marcantes da filmografia recente de Tarantino.