Mais de mil cineastas, actores e profissionais do sector audiovisual subscreveram uma carta aberta contra a proposta de fusão entre a Warner Bros. Discovery e a Paramount Skydance, avaliada em cerca de 110 mil milhões de dólares.
Divulgado no dia 13, o documento expressa uma “oposição inequívoca” à operação, alertando que esta poderá aprofundar a concentração num mercado já altamente consolidado e reduzir a concorrência num momento considerado crítico para a indústria e para o público.
Entre os signatários encontram-se nomes como Jane Fonda, Joaquin Phoenix e Mark Ruffalo. Na carta, os profissionais defendem que o negócio resultará em menos oportunidades para criadores, menos empregos em toda a cadeia de produção, custos mais elevados e menos opções para o público, tanto nos Estados Unidos como a nível global.
O texto sublinha ainda que a fusão reduziria o número de grandes estúdios norte-americanos a apenas quatro, acentuando a concentração de poder num grupo restrito de empresas.
Os subscritores recordam que a indústria já enfrenta uma forte pressão decorrente de anteriores vagas de consolidação. Segundo a carta, tem-se verificado uma diminuição acentuada do número de filmes produzidos e lançados, bem como uma redução da diversidade de histórias que conseguem financiamento e distribuição.
Cada vez mais, argumentam, as decisões sobre o que é produzido e em que condições ficam concentradas em poucas entidades dominantes, limitando os caminhos disponíveis para criadores e empresas independentes.
O documento aponta também para efeitos estruturais já em curso, como o desaparecimento progressivo dos filmes de orçamento intermédio, a erosão da distribuição independente e o colapso do mercado internacional de vendas. A estes factores juntam-se a eliminação de participações significativas nos lucros e alterações nos créditos de ecrã, entendidas como sinais de degradação das condições de trabalho. No seu conjunto, estas transformações são vistas como uma ameaça directa à sustentabilidade da comunidade criativa.
A carta destaca ainda o impacto na base da indústria, composta por pequenas empresas e trabalhadores independentes distribuídos por várias regiões dos Estados Unidos. Os signatários alertam que dezenas de milhares de profissionais poderão ver a sua actividade comprometida, num contexto em que a concentração de poder económico favorece interesses restritos em detrimento do interesse público, colocando em causa a independência e a diversidade do sector.
Em paralelo, surgem preocupações quanto à própria viabilidade económica da nova estrutura. A megacorporação resultante da fusão projecta gerar cerca de 69 mil milhões de dólares em receitas já em 2026, mas deverá nascer com uma dívida estimada em 79 mil milhões.
Para viabilizar a operação, o director executivo da Paramount, David Ellison, confirmou a procura de sinergias na ordem dos 6 mil milhões de dólares, o que deverá implicar cortes significativos de custos.
Sindicatos de Hollywood, como o Writers Guild of America e o SAG-AFTRA, já manifestaram cepticismo quanto à promessa de manter cerca de 30 lançamentos anuais. As organizações temem que a consolidação conduza à redução de postos de trabalho, ao achatamento salarial e a uma maior pressão sobre produtoras independentes.
Apesar das críticas, Ellison tem defendido que a fusão permitirá reforçar o investimento e aumentar o volume de estreias. A operação permanece, contudo, dependente de aprovação regulatória. O procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, é apontado como uma das autoridades que já estarão a analisar o negócio e a considerar eventuais medidas legais para o travar, num cenário de crescente pressão sobre os reguladores para conter a concentração no sector.
Leia a carta na íntegra:
“Como cineastas, documentaristas e profissionais de toda a indústria de cinema e televisão, escrevemos para expressar a nossa oposição inequívoca à proposta de fusão entre a Paramount e a Warner Bros. Discovery.
Esta transacção aprofundaria ainda mais a concentração de um panorama mediático que já é altamente concentrado, reduzindo a concorrência num momento em que as nossas indústrias — e o público que servimos — menos podem suportar isso. O resultado será menos oportunidades para criadores, menos empregos em todo o ecossistema de produção, custos mais elevados e menos opções para o público nos Estados Unidos e no mundo. De forma alarmante, esta fusão reduziria o número de grandes estúdios de cinema dos EUA para apenas quatro.
A nossa indústria já enfrenta uma forte pressão, em grande parte devido a anteriores vagas de consolidação. Temos observado uma diminuição acentuada do número de filmes produzidos e lançados, juntamente com uma redução na diversidade de histórias que recebem financiamento e distribuição. Cada vez mais, um pequeno grupo de entidades poderosas decide o que é produzido — e em que termos —, deixando criadores e empresas independentes com menos caminhos viáveis para sustentar o seu trabalho.
A consolidação dos media acelerou o desaparecimento dos filmes de orçamento intermédio, a erosão da distribuição independente, o colapso do mercado internacional de vendas, a eliminação de participações significativas nos lucros e o enfraquecimento da integridade dos créditos de ecrã. No seu conjunto, estes factores ameaçam a sustentabilidade de toda a comunidade criativa. Isto inclui colocar em risco a vida profissional de dezenas de milhares de trabalhadores que compõem essa comunidade, maioritariamente em pequenas empresas e companhias independentes inseridas em economias e comunidades locais em todo o país.
Estamos profundamente preocupados com indícios de apoio a esta fusão que priorizam os interesses de um pequeno grupo de stakeholders poderosos em detrimento do interesse público mais amplo. A integridade, a independência e a diversidade da nossa indústria seriam gravemente comprometidas. A concorrência é essencial para uma economia saudável e para uma democracia saudável, tal como uma regulação e fiscalização cuidadas.
A consolidação dos media já enfraqueceu uma das indústrias globais mais vitais dos Estados Unidos — uma que há muito molda a cultura e liga pessoas em todo o mundo.
Felizmente, há quem esteja a agir perante isto. O procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, e os seus colegas noutros estados estarão a analisar a fusão e a considerar acções legais para a bloquear. Somos gratos pela sua liderança e estamos prontos para apoiar todos os esforços para preservar a concorrência, proteger empregos e garantir um futuro vibrante para a nossa indústria, para a cultura americana e para o nosso mais significativo produto de exportação.”

