“O Agente Secreto”: o social como o produto do delírio

“O Agente Secreto” é uma reflexão sobre corpos, poder e memória numa paisagem social onde a violência do Estado se mascara de ordem e o delírio se confunde com quotidiano
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"O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho

Sala cheia a obrigar à organização de sessão dupla. O mesmo problema da má conceção arquitetónica das filas. O tempo do cinema é outro que não o tempo seco e frio da passagem do contador do relógio. É um tempo simultaneamente de evasão e de imersão. Escapamos ao tempo cronometrado, ao tempo impaciente, evadindo-nos através da imersão na narrativa do filme. O tempo do cinema é o tempo da duração dos seus filmes, o tempo como espessura de sentido.

O social como o produto do delírio

Quando tratamos da realidade social e do quotidiano que ela retrata é muito fácil percebermos o delírio, a obscenidade, a loucura que nela se instala. E sobrar-nos-á sempre aqueles fugazes lampejos de lucidez que é o da intuição da insanidade em que estamos metidos, que nos envolve. Num regime ditatorial como o do Brasil do final da década de 70 esta perversidade incrustada ao social atinge limites onde a vigília e o sonho se fundem num único regime de terror e loucura, de bebedeira também, e da folia carnavalesca  participa também a mortandade que ascende à centena. A incredulidade torna-se não no reflexo do espanto, mas na medida de todas as relações. Tudo se torna obscenamente possível porque o poder e a imoralidade se tornam indiscerníveis. A lei é a fonte de toda a injustiça, ao invés do abrigo dos mais fracos, e a polícia, os zeladores da ordem, são o topo da cadeia alimentar dos criminosos. A lei é anarquia dos poderosos e a ordem é desordem dos mais fortes. A história deve pertencer inteiramente aos vencedores e as vítimas, como o alemão judeu que faz de costureiro no filme, não têm direito ao seu testemunho. Esta é a violência dos regimes de índole fascista.

Os corpos e o Estado

A relação da ditadura com os corpos, com os corpos mortos, define toda a sua podridão moral. O filme abre com um corpo mal coberto que jaz em putrefação numa bomba de gasolina como que abandonada numa paisagem árida e desoladora em terra de ninguém. Mas é um corpo que nada diz ao Estado. Um corpo de um “meliante” que nenhuma autoridade civil, a começar pela polícia, se interessa por identificar, recolher e sepultar. Um corpo reduzido à sua brutal animalidade à mercê dos cães. Um corpo que, enfim, não passa de um corpo, destituído assim de uma alma, isto é, de uma dignidade propriamente humana.

Já outros corpos devem ser a todo o custo apagados de qualquer registo, até de qualquer memória que se inscreva nos arquivos do Estado. Esses são os corpos éticos. Os corpos que marcam toda a luta e contestação ao despotismo, que testemunham uma história de resistência que marca a possibilidade da história poder ter sido e poder ser de uma outra maneira. Mas ocultar um corpo, fazê-lo desaparecer de todo o lugar, e até de toda a sua verdade histórica, fazendo com que o Estado se recuse inclusive a reconhecer a sua identidade e existência é uma tarefa imensamente difícil. Um corpo é também uma história em devir e a partir do momento em que se constitui enquanto tal, em que se faz pertença a uma comunidade, passa a fazer parte de uma história coletiva que o suplanta.

Os corpos traem o Estado, mesmo depois de assassinados. Porque funcionam como registos, ou indicadores, pistas, da violência cruel a que foram sujeitos e a que cabe a posterioridade reabrir os seus respetivos casos, como sucede pela mão da jovem e obstinada estudante Flávia.

Ser clandestino no seu próprio país

A ditadura é o regime político que remete toda a possibilidade de uma vida conduzida de acordo com os seus próprios preceitos, uma vida de maioridade cívica, a uma vida clandestina, de “refugiado” na sua própria terra. E é nestas margens de êxodo voluntário, de exílio civil, que tudo o que é rotulado como “imoral” ou “obsceno”, à luz dos valores de todo um regime, representa de facto a possibilidade prática de uma vida livre. Uma existência em que há sexo, mistura carnal entre os corpos, para além de homossexualidade, promiscuidade das etnias ou simples libertação do poder da imaginação. Onde igualmente o feio e o erótico são elementos de subversão dos poderes instituídos enquanto veículos e  forças de persuasão moral, a moral hipócrita das classes dominantes.

O estatuto do arquivo e o papel da gravação na denúncia do Estado

Quando o Estado se ocupa de tudo, tudo é suscetível de testemunhar contra o Estado. E é assim que a história do professor universitário perseguido pela oligarquia brasileira se torna narrável na contemporaneidade. É possível restituir a sua biografia não apenas pelos registos audiovisuais dos resistentes, mas até pela inadvertida delação do próprio aparelho do Estado que ao vigiar os seus cidadãos por meio, p. ex., da banalização das escutas, acaba por guardar material que o incrimina enquanto Estado com suas respetivas instituições.

Espírito crítico e ironia

As mentiras que o regime conta com a mão da censura e o condicionamento da imprensa tornam-se de tal modo inverosímeis que não podem ser lidas e ouvidas senão sob o signo do burlesco. Ninguém acredita que exista uma pata peluda à solta a espancar e a matar os marginais. Essa é a derradeira tentativa de o regime confessar a sua monstruosidade, o terror que reproduz, negando-se por todos os meios a confessá-lo. E a violência insana que a ditadura perpetua só se torna justificável com a evocação do paranormal. A sua violência é de tal modo grotesca que nenhuma racionalidade é capaz de a justificar e fazer compreender.

Superar a história da violência do Estado sentando-a no divã

Que o avô do filho do protagonista, Alexandre, julgue proteger o neto negando a este a visualização do filme do tubarão é a metáfora perfeita da nossa relação com a história enquanto história do Estado de que nos dizem, ou nos dizemos, cidadãos. E no final do filme o filho, agora feito médico, de Armando (que usa o nome fictício de Marcelo de modo a fugir à perseguição de que é vítima) relata como a partir do momento em que viu a película do tubarão se acabaram os pesadelos. Daqui se retirando a lição política fundamental de que a história só deixa de se repetir, não quando dela queremos fugir como se ela pudesse ser simplesmente arredada de toda a relação possível, mas quando a enfrentamos em toda a sua violência, nomeadamente enquanto expressão da violência histórica do Estado.