No Irão, os cineastas seguem a resistir

O cinema iraniano surge como frente de resistência diante da repressão estatal, da censura e do massacre de manifestantes
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Mehdi Mahmoudian, durante uma entrevista em Teerã, em 2021. Crédito: Associated Press

Mehdi Mahmoudian, activista pelos direitos humanos e coautor do argumento do filme iraniano “Foi Só um Acidente”, Palma de Ouro em Cannes, inspirado nos seus anos de prisão e indicado para o próximo Óscar, foi detido em Teerão por ter assinado um manifesto contra o ditador Khamenei, o chamado líder supremo da ditadura teocrática iraniana.

Isto não é novidade no Irão. O realizador do mesmo filme, Jafar Panahi, já passou um longo período na prisão e, se regressar ao país, está condenado a um ano de detenção, mesmo depois de ter vencido a Palma de Ouro em França.

O Irão acaba de viver uma revolta popular durante a qual foram detidas cerca de 40 mil pessoas e terão morrido entre 20 e 30 mil, segundo a imprensa europeia, executadas enquanto se manifestavam nas ruas. Foram dias de repressão em que as ruas se tingiram de sangue, sendo detido quem tentasse ajudar os feridos.

Revolta popular, censura de filmes e prisão de artistas fazem lembrar os anos negros da nossa ditadura militar, marcados pela violência e pela morte de opositores. Embora não tenha havido tantas mortes como as cometidas nas últimas semanas pelos chamados Guardiães, ou Guardas, da Revolução Iraniana, nome dado à polícia da ditadura islâmica criada em 1979 pelo aiatola Khomeini, que transformou o país numa teocracia sanguinária.

Há poucos dias, a União Europeia declarou, de forma unânime, esses Guardas da Revolução como um movimento terrorista, responsável pelo massacre da rebelião popular iraniana.

É interessante lembrar que o filme “Foi Só um Acidente” pode ser resumido como o rapto e a detenção de um importante torturador do regime iraniano pelas suas próprias vítimas. Como se os brasileiros torturados no DOI-CODI pelo coronel Brilhante Ustra tivessem raptado o seu torturador.

Mas qual a razão deste comentário, se a imprensa já deu a notícia? Porque existem, dentro de sectores da esquerda brasileira, alguns líderes ou “gurus” a contar outra história, ou a difundir deformações sobre a revolta popular do povo iraniano, aceitando a versão da ditadura e afirmando que se tratou de agitadores externos a provocar o governo ou, pior ainda, que muitos dos mortos seriam fiéis ao aiatola, “mártires” vítimas dos agitadores, invertendo a realidade, tal como faziam os militares na época da nossa ditadura.

Enquanto certos canais de esquerda passam pano sobre o massacre e justificam a reacção do aiatola Khamenei, nem sequer o líder da esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon, aprova o regime religioso iraniano, qualificando-o como uma ditadura islâmica e defendendo um governo laico para o Irão.

Até porque, embora muitos se tenham esquecido ou fossem demasiado jovens para o saber, logo após a implantação da teocracia iraniana, em 1979, comunistas, socialistas e homossexuais foram perseguidos e até mortos pelo aiatola Khomeini, assim que a ditadura teocrática islâmica se consolidou.

Outro absurdo que muitos aceitam como prova de progresso no Irão, citado até como avanço face aos países ocidentais, é o facto de homossexuais serem encorajados pelo governo a submeterem-se a cirurgias de mudança de sexo para não serem punidos ou perseguidos. Esta assimilação forçada de homossexuais, trans e bissexuais, submetidos à violência de operações para escaparem à prisão ou à morte, é pouco divulgada, tal como é frequentemente minimizada a situação de inferioridade das mulheres na sociedade.

É difícil compreender como certos influenciadores que se dizem progressistas ignoram o papel fundamental dos cineastas iranianos na denúncia da ditadura religiosa, recusando reconhecer a importância de Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof ou Keywan Karimi, comparáveis aos nossos Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Lúcia Murat, que denunciaram a ditadura militar brasileira.

É estranho, mas pode dever-se à falta de informação ou à desinformação, ver uma feminista ou um homossexual a defender a ditadura teocrática iraniana, ou alguém de esquerda a apoiar uma ditadura religiosa sanguinária contra uma revolta popular. A religião não continua a ser o ópio do povo? Os defensores da teologia do domínio e os financiadores do terrorismo não pertencem ao mesmo saco?

Finalizo este texto com um trecho do manifesto assinado por Mehdi Mahmoudian e por outros artistas, posteriormente detidos pela ditadura teocrática iraniana:

“O assassínio em massa e sistemático de cidadãos que bravamente saíram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade. O uso de munição real contra civis, a morte de dezenas de milhares de pessoas, a detenção e perseguição de dezenas de milhares, a agressão aos feridos, a obstrução do atendimento médico e o assassínio de manifestantes feridos representam nada menos do que um ataque à segurança nacional do Irão e uma traição ao país.”