Alguns filmes terminam com aplausos. Outros prolongam-se em discussões animadas à saída da sala. Existe ainda um terceiro tipo, mais silencioso e talvez mais perigoso para a carteira, aquele que nos leva, dias depois, a abrir o computador e a pesquisar voos. Não se trata de impulso irracional nem de delírio cinéfilo. Trata-se do cinema a cumprir uma função paralela e raramente assumida, a de despertar desejo geográfico.
Hoje chamamos a isso turismo cinematográfico, embora a expressão seja redutora. Não se trata apenas de visitar o local onde determinada cena foi filmada. Trata-se de querer habitar, ainda que temporariamente, o universo emocional que um filme ou uma série nos ofereceu. O espectador deixa de ser apenas público e transforma-se em viajante em potência.
Do serpenteante Passo de Gotthard, nos Alpes suíços, imortalizado em “007 – Contra Goldfinger” (1965), de Guy Hamilton, às paisagens sensuais e inquietantes de “The White Lotus”, o cinema construiu um verdadeiro atlas afectivo do planeta. Não viajamos apenas para ver montanhas, praias ou cidades históricas. Viajamos para reencontrar sensações que a narrativa nos prometeu. Por vezes, um pôr do sol visto numa série ou num filme vale mais do que dezenas de brochuras turísticas.
Os números ajudam a confirmar o que a intuição já suspeitava. A Expedia identificou o turismo cinematográfico como uma das grandes tendências recentes e, no seu relatório de 2025, revelou que dois terços dos viajantes admitem ter sido influenciados por filmes ou séries na escolha do destino.
Marta Soligo, investigadora em Turismo e Sociologia do Lazer, explica a eficácia deste fenómeno com uma comparação simples. Um filme não é um outdoor. Não está preso a um lugar nem a um período específico. Circula globalmente, permanece acessível ao longo do tempo, é revisto, comentado e partilhado. Um destino, quando entra numa narrativa popular, ganha uma espécie de longevidade simbólica.
Muito se tem dito que o fenómeno se acentuou no período pós-pandémico, numa altura em que, fechadas em casa, as pessoas passaram a percorrer o mundo pela via das séries e dos filmes. É verdade que o chamado efeito “White Lotus” ampliou o desejo de deslocação, sobretudo para destinos paradisíacos. O Havai, após a primeira temporada, e a Sicília, depois da segunda, tornaram-se objectos de cobiça quase imediata. Antes mesmo da nova temporada estrear, já se falava no aumento da procura pela Tailândia.
Ainda assim, seria injusto tratar o turismo cinematográfico como uma moda recente. Na realidade, acompanha o cinema desde que este se tornou um fenómeno de massas. Após a Segunda Guerra Mundial, com a popularização das salas de cinema e, mais tarde, da televisão, começaram as peregrinações aos locais de rodagem. Os filmes de faroeste foram decisivos para consolidar o turismo no Oeste americano. Ranchos, cowboys e paisagens áridas passaram a existir não apenas como realidade, mas como mito.
Em entrevista à Forbes, Russell True, proprietário de um rancho no Arizona, recorda um episódio ilustrativo dos anos 1990. Após o sucesso de “Jovens Pistoleiros” (1988), de Christopher Cain, as chamadas de turistas multiplicaram-se. Muitos queriam viver algo semelhante ao que tinham visto no ecrã. Segundo ele, o filme, por si só, devolveu visibilidade a um sector inteiro. Em certos casos, não é necessária uma estratégia sofisticada de marketing. Basta uma boa história e alguém disponível para atender o telefone.
Alguns destinos compreenderam cedo este potencial e passaram a disputar activamente produções audiovisuais. O estado da Geórgia, nos Estados Unidos, é um exemplo paradigmático. De “Forrest Gump” a “Os Jogos da Fome”, passando por “Stranger Things”, a região transformou-se num dos principais polos de filmagem do país.
O mais relevante, porém, aconteceu depois. Cidades pequenas passaram a criar experiências para visitantes, roteiros temáticos e comércio especializado. Em Senoia, principal cenário de “The Walking Dead”, o número de lojas cresceu de forma impressionante em pouco mais de uma década.
O impacto prolonga-se no tempo. Segundo responsáveis locais, os benefícios continuam muito depois de as câmaras se desligarem. O cinema funciona como um investimento de longo prazo, algo raro num sector habituado a campanhas efémeras e resultados imediatos.
Poucas obras ilustram tão bem essa longevidade quanto “O Senhor dos Anéis”. Considerada por muitos cinéfilos a melhor trilogia de todos os tempos, a saga realizada por Peter Jackson, inspirada na obra de J. R. R. Tolkien e lançada entre 2001 e 2003, tornou-se um fenómeno de bilheteira e uma das criações mais influentes da história do cinema contemporâneo. Duas décadas depois, as suas paisagens continuam vivas na memória colectiva e, em muitos casos, podem ser visitadas fora da ficção.
A Nova Zelândia, país natal do realizador, serviu de cenário para grande parte das filmagens e transformou-se, desde então, numa espécie de Terra Média acessível. Wellington, a capital, foi o centro da produção. É ali que se encontra a Weta Workshop, responsável pela criação das chamadas bigatures, miniaturas de grande escala utilizadas para dar vida a cidades como Minas Tirith e Minas Morgul.
Actualmente, a empresa oferece visitas guiadas que revelam os bastidores da produção cinematográfica, não apenas de “O Senhor dos Anéis”, mas também de títulos como “As Crónicas de Nárnia” e “King Kong”. O cinema, neste caso, não apenas promoveu o destino. Integrou-se de forma permanente na sua identidade cultural e económica.
Singapura viveu fenómeno semelhante com “Asiáticos Doidos e Ricos” (2018), de Jon M. Chu. Durante o lançamento do filme, a procura pelo destino triplicou nos Estados Unidos. É verdade que o retrato apresentado não esgota a complexidade da cidade-estado, mas os cenários icónicos, como Marina Bay Sands, Gardens by the Bay ou os centros de comida de rua, despertaram curiosidade e abriram caminho para uma descoberta mais ampla da cultura local.
Nem tudo, porém, corre sempre bem. O turismo cinematográfico também tem efeitos colaterais. Dubrovnik, transformada em Porto Real por “Game of Thrones”, enfrentou problemas graves de sobrelotação. A resposta passou pela criação de experiências mais controladas, com guias locais e grupos reduzidos, numa tentativa de equilibrar economia e qualidade de vida. Na Tailândia, a Baía de Maya teve de ser encerrada durante três anos para permitir a recuperação do ecossistema, depois de o filme “A Praia” (2000), de Danny Boyle, a ter transformado num destino de massas.
O cinema cria desejo, mas o desejo, quando não é bem gerido, consome o próprio objecto. Talvez aqui resida o maior desafio do turismo cinematográfico, transformar exposição mediática em desenvolvimento sustentável sem reduzir lugares vivos a simples cenários descartáveis.
No Brasil, esta relação entre cinema e turismo ganha contornos particularmente ricos. O Pelourinho, em Salvador, consolidou-se no imaginário colectivo após filmes como “Ó Paí, Ó” (2007), de Monique Gardenberg. O Rio de Janeiro, presença constante no cinema nacional e internacional, tornou-se um território narrativo por excelência, de “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund a “Minha Mãe é uma Peça” (2013), de André Pellenz, passando por produções recentes como “Ainda Estou Aqui” (2024), de Walter Salles. Cada obra acrescenta uma nova camada à cidade real.
No interior do país, Cabaceiras, na Paraíba, assumiu orgulhosamente o título de Roliúde Nordestina, muito por força de “O Auto da Compadecida” (2000), de Guel Arraes. Os Lençóis Maranhenses passaram do cinema autoral à Marvel, transformando-se simultaneamente em planeta fictício e em desejo turístico global. Tiradentes, em Minas Gerais, alia o charme histórico ao Festival de Cinema, fazendo da cultura audiovisual um motor económico e simbólico.
Talvez o aspecto mais fascinante do turismo cinematográfico não seja o aumento percentual de visitantes nem os números da economia, mas a forma como o cinema molda o nosso olhar. Um lugar deixa de ser apenas espaço físico e passa a ser memória emprestada, emoção antecipada. Viaja-se para confirmar sensações, para perceber se aquele pôr do sol é mesmo como no ecrã, para caminhar onde uma personagem caminhou.
No fim, o cinema não nos diz apenas para onde ir. Diz-nos como sentir quando lá chegamos. E isso, por mais eficaz que seja, nenhuma campanha turística consegue garantir.

