Fantasporto: “Post Truth” entre o mundo algorítmico e a amnésia da verdade

E depois veio “Post Truth”… a devolver-nos a potência do cinema e confrontar-nos com a manipulação da verdade. Poderoso documento este sobre o não muito admirável mundo em que vivemos.
"Post Truth", de Alkan Avcioglu 46.ª edição Fantasporto "Post Truth", de Alkan Avcioglu 46.ª edição Fantasporto
"Post Truth", de Alkan Avcioglu

Quando a inteligência artificial é uma ameaça invisível, usa-se a própria IA para dissecar a sua essência. É então este espelho distorcido, embora revelador, exposto em “Post Truth”, o impressionante documentário do cineasta turco Alkan Avcioglu, a provar que no seu país existe uma força cinematográfica pujante. Aliás, no recentíssimo festival de Berlim, foram precisamente duas produções turcas a arrebatar os dois principais prémios – o Urso de Ouro, para “Yellow Flowers”, e ainda o Urso de Prata para o Grande Prémio do Júri, com “Salvation”, de Emin Alper.

Na sua essência, “Post Truth” avisa-nos para o que aí vem (ou já chegou mesmo!): um mundo totalitário e autocrático, facilitado pelo controlo dos media e, em grande parte, pela manipulação que se pode fazer hoje com a inteligência artificial. O filme vive sobretudo do peso da linguagem falada, num tom de permanente alerta, desconstruindo (ou descrevendo) os castelos do mundo manipulado em que vivemos. Seguramente, um filme que nos convoca à memória o recente (e tremendo!) documentário de Raoul Peck, 2 + 2 = 5. Bem-vindos ao mundo do algoritmo.

O que Avcioglu constrói é um ensaio-filme onde a imagem da IA não espelha o evento, mas sim a lógica subjacente, a encenação. Como bem nota Werner Herzog, no filme existem camadas mais profundas de verdade no cinema. E “Post Truth” procura-as não através da documentação factual, mas revelando o que o mundo se tornou. Um universo onde a artificialidade das imagens geradas acaba por ser o tal reflexo permanente em que passamos a viver.

A mensagem reproduzida do filme é de importância capital: Os algoritmos são ecos infinitos das nossas próprias crenças, reforçando as nossas visões do mundo. Mas quando tudo o que ouves é um eco, começa a parecer-te a única realidade. As opiniões opostas desaparecem, deixando-nos presos em bolhas onde tudo o que não encaixa é rejeitado como falso. Nesta câmara de eco, derivas ainda mais para os extremos sem sequer notares. Tão extremo que, eventualmente, a única coisa que faz sentido és tu.

Este é um apelo a um quotidiano dominado pelas redes sociais, com os humanos feitos bots a percorrer posts e vídeos com o polegar. Provavelmente, poucos se questionarão se o que vêem ou leem é verdade ou não. Por isso, “Post Truth” faz tanto sentido. A ‘voz’ no filme de Avcioglu vai explicando como as mensagens são despoletadas por grupos radicais emitindo declarações ultrajantes para desacreditar um estado de coisas ou torná-lo absurdo. Mesmo quando existe uma repetida crença no indivíduo final, ou seja, “tu”.

É então neste mundo de pós-verdade, onde a ficção se mistura com a realidade, que se ergue um novo estado de coisas. E onde o filósofo Jean Baudrillard é invocado para tentar distinguir onde se situa essa diferença, pois o por-do-sol nas férias, matéria-prima para o próximo post, pode não ser real…

Entretanto, a realidade mais crua bate à porta: Quénia, início da década, onde se prepara o treino de uma empresa de moderação de conteúdo para IA. E onde a palavra de ordem é: ‘em caso de dúvida, bloqueia-se o conteúdo’. E é aqui onde a invocação do famoso tema da banda Ultravox, de 1977, ‘I Want to be a Machine!’ faz todo o sentido.

Apesar de ao longo do tempo, a mensagem de “Post Truth” tende a tornar-se algo redundante, como qualquer texto gerado pelos chat bots de IA, não deixa de ser um tremendo ‘wake up call’ que nos desperta da amnésia digital em que vivemos. Um alerta para o perigo iminente de uma sociedade à mercê dos algoritmos e da manipulação, onde a verdade se tornou um conceito maleável. Depois não digam que não foram avisados.