Uma casa com uma fissura de alto a baixo em processo de autodestruição será sempre uma bela metáfora para um filme de múltiplas camadas. É assim com a singela homenagem não assumida a Ingmar Bergman do filme de Joachim Trier: “Valor Sentimental”.
Uma casa será sempre também uma boa metáfora para o Comum, um Comum reduzido à sua dimensão familiar, mas que nem por isso deixa de ser um Comum. E uma fissura ao correr de toda a estrutura que podemos também compreender como uma ferida (outra metáfora).
E uma construção Comum, como uma casa que passa entre gerações, nunca é universalizável. As experiências familiares, tal como todas as experiências de comunidade, nunca são inteiramente replicáveis e desenvolvem-se por dentro do intrincado tecido de relações que elas tecem no seu devir.
Não se trata, como na célebre abertura do romance de Liev Tolstoi, de que “todas as famílias felizes se parecem umas com as outras; cada família é infeliz à sua maneira”, mas da ideia de que toda vida em comum, desde a familiar até à comunitária, é intrinsecamente singular, historicamente singular, e, por essa singularidade, alheia a qualquer modelo ideal de felicidade e de bem-estar que se sustenta e se justifica para lá de toda a contingência.
Também por isso, o Comum, a casa comum que sustenta toda a ideia de política e ética que possamos defender, cria as suas fissuras, os seus desentendimentos, as suas incompatibilidades e idiossincrasias.
Porque o Comum é sempre uma possibilidade em emergência, uma relação que se cria, ou, pelo contrário, uma relação se destroi. O Comum é um tecido (outra metáfora) que nunca se completa, ou, completando-se, paradoxalmente começa a perder o seu sentido e acaba por ruir; um mundo feito à nossa imagem é um mundo inanimado, estéril, no limiar da sua capacidade de devir, de produzir vida.
Como um tecido que subsiste pela sua capacidade de continuar a urdir novas relações, a produzir novos sentidos de ser, mesmo se o entrelaçamento destas confronte todo o tipo de contradições, de aporias e de máculas dificilmente superáveis.
É assim com a estória que “Valor Sentimental” narra onde a relação entre a filha atriz e o pai realizador é marcada por uma pretensa incomunicabilidade.
E o que é esta incapacidade de comunicar senão não o limite do Comum, da vida em comum, mas o risco que a mesma comporta, que faz parte da sua condição? Da condição das singularidades que definem e determinam o Comum até ele se tornar, ao menos aparentemente, insustentável. Onde as partes deixam de conseguir comunicar, não pelo facto de não partilharem uma gramática ou uma línguas comuns, mas pelas relações que elas foram construindo ao longo do tempo.
Neste caso, ao longo das relações familiares entre pais e filhas, e acabarem por não conseguir potenciar a felicidade mútua. Por ficarem bloqueadas pela ausência, ou pela incompreensão, ou pelo silêncio, ou, ao contrário, pelo ruído. Ou pela sobreposição da trama de outras tantas relações que, entretanto, corrompem a estabilidade dos laços familiares.
E a promiscuidade entre a “vida real” e a ficção, entre a casa e o estúdio, entre os papeis de atriz e o papel social a que os outros nos pressionam a (in)vestir, não reflete mais do que a permeabilidade constituinte do Comum onde ninguém se pode arvorar sequer como absoluto sujeito soberano de si mesmo. Que os cenários se sucedem, sem que isso signifique que não consigamos distinguir a verdade da mentira, a ficção da realidade, mas que estas dimensões têm mais portas comuns e giratórias do que a necessidade de uma visão do mundo “a preto e branco” nos pode (ilusoriamente) confortar.
De resto, pertencemos uns aos outros, somos mais próximos uns dos outros, quase indistinguíveis, do que aquilo que tantas vezes desejaríamos.

