Cursos de Cinema avançam em universidades federais do Brasil

Movimento de expansão ocorre em diferentes regiões e depende de aprovação institucional e reforço de recursos humanos
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Foto: Getty Images

Nos últimos anos, as universidades federais brasileiras passaram a organizar de forma mais consistente a formação em Cinema e Audiovisual. O movimento reflete mudanças no próprio mercado, como o crescimento do setor, a maior presença das plataformas digitais, a profissionalização crescente da produção independente e a demanda por ensino público na área.

Entre as iniciativas mais recentes, no Nordeste, a Universidade Federal do Cariri (UFCA) foi uma das primeiras a avançar de forma decisiva, com a aprovação do projeto pedagógico da graduação em Cinema e Audiovisual. A expectativa é que o ingresso da primeira turma ocorra em 2027.

O curso será vinculado ao Instituto Interdisciplinar de Sociedade, Cultura e Artes e funcionará no campus de Juazeiro do Norte. A oferta inicial prevê 30 vagas anuais, com ingresso pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), baseado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

A estrutura curricular inclui disciplinas obrigatórias e optativas, com possibilidade de diferentes percursos formativos ao longo do curso. Um dos pontos centrais da proposta é a articulação com o território, buscando integrar o curso às iniciativas culturais e ao setor audiovisual da região.

UFOP avança com bacharelado no Sudeste

No Sudeste, a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) apresentou o projeto pedagógico do futuro bacharelado em Cinema e Audiovisual.

O documento, com 184 páginas, foi entregue à Reitoria e à Pró-Reitoria de Graduação, marcando uma etapa importante no processo de criação.

Em comunicado publicado no site oficial da instituição, o reitor Luciano Campos ressaltou o peso simbólico e político do avanço do projeto, afirmando que “o curso de Cinema é um grande sonho para a UFOP” e que a entrega do documento inaugura uma nova fase.

Segundo ele, a proposta seguirá agora para apreciação do Instituto de Filosofia, Arte e Cultura (IFAC), responsável pelo curso, e dependerá de articulação junto ao Ministério da Educação, já que sua implementação exige vagas docentes, técnicos e infraestrutura adequada.

O reitor também afirmou que a gestão pretende articular diferentes setores em torno da proposta, aproximando a comunidade do audiovisual, o cinema brasileiro e agentes culturais, com o objetivo de viabilizar o curso nos próximos anos.

Ele ainda enfatizou o alcance acadêmico e cultural do projeto, apontando que a nova graduação amplia o leque formativo da universidade, em sintonia com os cursos das áreas cênica e musical, e reforça a vocação de Ouro Preto para o cinema, a arte e a cultura.

O projeto também prevê uma análise histórica da relação da cidade com o cinema, além do levantamento da infraestrutura necessária e do perfil desejado dos estudantes. A proposta parte da ideia de uma formação com identidade própria, entendendo o cinema como prática artística, objeto cultural e ferramenta de reflexão social, com foco nas periferias e no interior do país.

UFSM estrutura proposta no Sul

No Sul do país, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) encaminhou o projeto de criação da graduação em Cinema e Audiovisual à Reitoria, iniciando a fase de avaliação interna.

Desde 2013, a discussão para a criação da nova graduação envolve docentes da graduação, da pós-graduação e professores aposentados do Centro de Artes e Letras (CAL) e do Centro de Ciências Sociais e Humanas (CCSH). Ao longo dos anos, fóruns, atividades extensionistas e grupos de trabalho contribuíram para a consolidação do projeto.

Segundo a comissão responsável, existem 271 empresas do segmento audiovisual em Santa Maria, o que indica demanda por qualificação profissional no setor. Além disso, o curso de extensão Cinema e Audiovisual da UFSM registrou 242 inscritos para 60 vagas nas três primeiras edições, realizadas desde 2023, reforçando o interesse pela formação na área.

A graduação será vinculada ao Centro de Artes e Letras, especificamente ao setor de Artes Visuais, mas contará com participação de outras unidades da universidade, como o Centro de Ciências Sociais e Humanas (CCSH), a Casa da Comunicação e o Colégio Técnico Industrial de Santa Maria (CTISM).

O projeto também prevê articulação com instituições externas e profissionais do setor audiovisual, por meio de parcerias com iniciativas locais como a TV Ovo e a Toca Audiovisual, além de outras produtoras da cidade.

A formação busca integrar aspectos técnicos e teóricos do audiovisual, combinando desenvolvimento criativo, experimental e crítico, com preparação para atuação nas etapas de criação, produção e circulação de obras. Também contempla capacitação para trabalho colaborativo e inserção no cenário contemporâneo, incluindo mídias digitais e novas tecnologias.

A proposta prevê início em 2027, caso seja aprovada em todas as instâncias acadêmicas e administrativas e receba autorização do Ministério da Educação.

UFRGS depende de expansão de vagas docentes

A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) também prevê iniciar a graduação em Cinema e Audiovisual em 2027.

A reitora Márcia Barbosa afirma, em matéria do Jornal do Comércio, que o curso foi estruturado com base em forte demanda no Estado, mas depende da criação de vagas adicionais para docentes, atualmente inexistentes. Segundo ela, a viabilização da proposta exige autorização do Ministério da Educação (MEC) para a abertura desses cargos em número suficiente, embora demonstre confiança na interlocução com o órgão.

O projeto pedagógico já foi aprovado nas instâncias internas da universidade, pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe). A diretora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), professora Ana Taís Martins, destaca que se trata de uma proposta madura, amadurecida ao longo de anos de discussão, e que a criação da graduação já se fazia necessária.

Ela também ressalta a importância da inserção do curso na estrutura da universidade, ao afirmar que a iniciativa responde a uma forma de expressão social em expansão. Segundo a diretora, a produção audiovisual nacional tem ganhado visibilidade e qualidade, e a universidade busca acompanhar e contribuir com esse movimento.

O curso será vinculado à Fabico e terá duração de quatro anos, com carga horária de 2.955 horas. A estrutura curricular inclui teoria do cinema, práticas de realização, roteiro, produção e linguagens audiovisuais contemporâneas.

Reconfiguração do ensino do audiovisual

Em conjunto, essas iniciativas apontam para um processo mais amplo de reconfiguração do ensino do audiovisual no Brasil, que não se limita à abertura pontual de cursos, mas sugere uma mudança gradual na forma como o cinema é pensado dentro da universidade pública.

Durante décadas, a formação nessa área concentrou-se em alguns centros específicos, com forte predominância do eixo Rio–São Paulo, onde se consolidaram escolas, mercados de trabalho e redes de produção mais estruturadas. O que se observa agora é uma tentativa de redistribuição geográfica e institucional desse saber, ainda em fase inicial, mas com sinais consistentes de continuidade.

Esse movimento de descentralização não resulta apenas de uma dinâmica acadêmica, estando diretamente associado à expansão do setor audiovisual em escala nacional, à multiplicação de produtoras independentes e ao impacto das plataformas digitais, que transformaram profundamente os modos de produção, circulação e consumo de imagens.

A esse quadro soma-se o aumento do investimento público no setor. Em 2025, o audiovisual brasileiro recebeu R$ 1,41 bilhão em recursos públicos, o maior volume já registrado na série histórica, segundo balanço divulgado pelo governo federal. O valor representa um crescimento de 29% em relação a 2024 e de 179% na comparação com 2021.

A convergência desses fatores ajuda a explicar não apenas a diversificação da produção, mas também a pressão crescente por formação especializada, refletida na expansão dos cursos universitários em diferentes regiões do país.

Nesse contexto, a universidade deixa de responder apenas a uma demanda estudantil em crescimento e passa a reagir a uma transformação estrutural do próprio campo profissional, cada vez menos dependente dos grandes centros industriais tradicionais e mais disperso em redes produtivas, tecnológicas e territoriais.

Ao mesmo tempo, a criação desses cursos indica uma mudança mais profunda na forma como o cinema é legitimado enquanto objeto acadêmico. Ele deixa de ocupar um lugar periférico, associado sobretudo à prática artística ou a formações complementares, e passa a ser reconhecido como campo autônomo de conhecimento.

Isso implica uma reorganização interna das universidades, com a definição de matrizes curriculares próprias e a articulação entre teoria e prática, integrando áreas como estética, tecnologia, narrativa, economia da cultura e estudos da imagem.

Há também uma inflexão na relação entre universidade e contemporaneidade. O audiovisual já não pode ser pensado apenas a partir do cinema clássico ou das estruturas tradicionais de produção. A presença de novas tecnologias, incluindo inteligência artificial, a expansão das plataformas de streaming e a proliferação de linguagens híbridas, exige atualização constante dos currículos e das metodologias de ensino.

Nesse sentido, os novos cursos não respondem apenas à demanda existente, mas constituem também uma tentativa de reposicionamento da universidade diante de um ecossistema em rápida mutação.

Apesar dessa dinâmica, os projetos enfrentam constrangimentos. A dependência de autorização do Ministério da Educação, a necessidade de criação de vagas docentes e técnicas e as limitações orçamentárias das universidades federais impõem um ritmo mais lento do que aquele que o setor audiovisual exige. Trata-se de uma tensão recorrente entre a velocidade das transformações culturais e a estrutura administrativa do ensino superior público.

Somam-se ainda desafios de infraestrutura e consolidação institucional. Não se trata apenas de criar disciplinas, mas de construir ecossistemas formativos capazes de integrar produção, pesquisa e extensão universitária, o que envolve estúdios, equipamentos, parcerias externas e redes de colaboração com o setor cultural e profissional.

Sem essas condições, a formação corre o risco de permanecer excessivamente teórica ou distante das práticas contemporâneas.

Ainda assim, essas iniciativas sugerem uma virada relevante no ensino do audiovisual. O cinema e o audiovisual passam a integrar de forma mais sistemática o espaço acadêmico brasileiro, não como apêndice das áreas de comunicação ou das artes, mas como campo estruturado de conhecimento.

Esse processo, embora desigual e ainda em consolidação, aponta para uma transformação de longo prazo, em que a universidade pública procura se reposicionar diante de um setor cultural cada vez mais descentralizado, tecnológico e transversal.