Globos de Ouro 2026: Wagner Moura torna-se o primeiro brasileiro nomeado a Melhor Actor em Drama

A presença de Wagner Moura sublinha o momento de expansão global dos Globos de Ouro, em que o cinema latino-americano ganha protagonismo
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Foto: Frazer Harrison/Wirelmage

Nesta segunda-feira (8) foram anunciados os nomeados aos Globos de Ouro de 2026 e, entre esse escol de agraciados, surge o brasileiro Wagner Moura, que acaba de inscrever o seu nome na crónica dos feitos improváveis, sendo o primeiro actor do Brasil a ser nomeado ao galardão de melhor actor em drama graças à sua inesquecível actuação em “O Agente Secreto” de Kleber Mendonça Filho.

A nomeação sinaliza um pequeno terramoto simbólico no ecossistema dos prémios internacionais, espaço onde a presença brasileira e latina, sobretudo em interpretação, sempre esbarrou numa frieza estrutural. O reconhecimento de Moura segue a sua vitória histórica no Círculo de Críticos de Cinema de Nova Iorque, que o tornou o primeiro actor latino a vencer o prémio de melhor actor. Críticos têm destacado a precisão da sua leitura, que conjuga contenção, leveza e um subtexto emocional que parece sempre à beira de irromper.

Moura concorre ao lado de Joel Edgerton (“Train Dreams”), Oscar Isaac (“Frankenstein”), Dwayne Johnson (“The Smashing Machine”), Michael B. Jordan (“Pecadores”) e Jeremy Allen White (“Springsteen Deliver Me From Nowhere”). O conjunto forma um panorama improvável de masculinidades cinematográficas em competição, num ano que, aliás, se revela prodigioso em interpretações masculinas de alto quilate.

Em “O Agente Secreto” Moura interpreta um professor universitário subitamente enredado numa teia de vigilância estatal e conspiração, oferecendo aquela que muitos consideram uma das suas performances mais maduras. O encontro com Mendonça Filho, exímio realizador de “Bacurau”, “Aquarius” e “Retratos Fantasmas”, devolve à dupla a cumplicidade criativa que vinha a germinar há anos. Não surpreende por isso que o filme tenha sido presença firme no circuito internacional de festivais, tendo estreado em Cannes, onde se tornou o título mais laureado da selecção, arrecadando os prémios do júri de realização e de interpretação.

A produção teve igualmente um desempenho auspicioso e histórico nos Globos de Ouro, recebendo nomeações para melhor filme (drama) e melhor filme em língua não inglesa, indício de que a maré enfim poderá estar a mudar.

Rompendo a bolha

Mesmo que o Brasil surja aqui e ali no radar das grandes premiações, da nomeação histórica de Fernanda Montenegro por “Central do Brasil” (1998) à aclamação recente de sua filha, Fernanda Torres, por “Ainda Estou Aqui” (2024), os actores brasileiros raramente conseguiram transpor o muro invisível que separa a admiração distante da consagração efectiva.

A nomeação de Moura reforça o seu peso internacional, alimentado pelos seus papéis em séries como “Narcos” (2015-2017) e “Dope Thief” (2025), por filmes como “Tropa de Elite” (2007) e até pelas suas origens televisivas em novelas da Rede Globo, como “Paraíso Tropical” (2007). O reconhecimento surge num momento em que Hollywood revela um apetite renovado por desempenhos em línguas não inglesas, visível na ascensão de nomes como Pedro Pascal, Jenna Ortega, Xolo Maridueña, Xochitl Gomez e Tenoch Huerta.

Há quem aposte que Moura poderá perfeitamente repetir o número protagonizado por Torres no ano passado, quando um Globo de Ouro estrategicamente bem pousado acabou por se converter num convite inesperado aos Óscares. Nos bastidores, comenta-se até que ela teria ficado em segundo lugar, logo atrás da sempre discutida Mikey Madison (“Anora”). A diferença essencial, porém, é que Moura não é um desconhecido para o público americano. Essa familiaridade ajuda a explicar a sua presença no Critics’ Choice, distinção da qual Torres, recorde-se, ficou ausente. Tudo indica, portanto, que ele, ao contrário dela, já terá praticamente assegurado um lugar entre os nomeados a Melhor Actor.

Como o filme também surge entre os candidatos a melhor filme, reaparece a pergunta que ninguém articula em voz alta, mas todos ruminam em silêncio: não estará “O Agente Secreto” a preparar uma pequena travessura latino-americana nesta temporada de prémios? E a resposta, tudo o indica, é um cauteloso sim, já que o título vem sendo lembrado por várias associações e circuitos, não apenas na categoria de Filme Internacional, mas também na de melhor filme, lado a lado com produções como “Batalha Atrás de Batalha” e “Pecadores”.

A presença de Moura adensa a sensação de que os Globos de Ouro atravessam uma fase inesperadamente cosmopolita, fruto de uma reestruturação que lhes devolveu o fôlego e a ambição. O reconhecimento do actor ocorre num ano particularmente fértil para cineastas e intérpretes latino-americanos, ampliando o alcance global de uma temporada que, pela primeira vez em muito tempo, parece verdadeiramente disposta a afinar o ouvido para outras cadências.

A cerimónia dos Globos de Ouro acontecerá a 11 de Janeiro.