NYFCC consagra Wagner Moura em marco histórico para o cinema latino-americano

Com a vitória, Wagner Moura e o filme de Kleber Mendonça Filho consolidam presença na corrida aos Óscares
OS FILMES MAIS ESPERADOS DE 2019 17 1 OS FILMES MAIS ESPERADOS DE 2019 17 2
Foto: Gareth Cattermole/Getty Images/AFP

“O Agente Secreto” e Wagner Moura voltaram a fazer soar alto os nomes do cinema brasileiro além-Atlântico. O filme de Kleber Mendonça Filho conquistou o prémio de Melhor Filme Internacional, enquanto o actor arrebatou o de Melhor Actor no New York Film Critics Circle. O anúncio foi feito esta terça-feira (2), nas redes sociais da própria organização.

Fundado em 1935, o Círculo de Críticos de Nova Iorque congrega jornalistas das mais influentes publicações da cidade e afirma-se, há décadas, como um dos primeiros grandes barómetros da época de prémios. Nem sempre os seus desígnios coincidem com os do Óscar, mas, por se manifestarem tão cedo no calendário, tendem a moldar expectativas e a orientar muitas das apostas.

Para Kleber Mendonça Filho, o momento tem algo de regresso ao ponto de partida. É a segunda consagração na categoria, depois da vitória com “Bacurau”, em 2020. Pelo intervalo, passaram vencedores como “Tudo Que Imaginamos Como Luz”, em 2024, e “Anatomia de Uma Queda”, em 2023. Este último acabaria mesmo por confirmar o estatuto nos Óscares.

No caso de Moura, o prémio vem com um significado que salta à vista. Em nove décadas de história, nunca um latino-americano tinha vencido na categoria de Melhor Actor. O intérprete brasileiro continua, assim, a reforçar o seu trajecto internacional com “O Agente Secreto”, depois das distinções somadas em palcos como os festivais de Cannes, Zurique, Chicago e Newport Beach.

No cômputo geral, “O Agente Secreto” ultrapassa já a fasquia dos 20 prémios internacionais desde a estreia em Cannes, em Maio. Prossegue agora o seu curso natural pela temporada, à espera de possíveis nomeações para os Critics Choice Awards, os Globos de Ouro e, naturalmente, os tão aguardados Óscares.

Esse fôlego voltou a confirmar-se esta quarta-feira (3), com a nomeação para Melhor Filme Internacional nos Film Independent Spirit Awards 2026, numa lista que inclui ainda “All That’s Left of You”, de Cherien Dabis, “On Becoming a Guinea Fowl”, de Rungano Nyoni, “A Poet”, de Simón Mesa Soto, e “Sirāt”, de Oliver Laxe.

O feito se repete

Antes do NYFCC, Wagner Moura já havia feito história ao tornar-se o primeiro artista da América do Sul a receber o Golden Eye Award, distinção do Festival de Zurique, na Suíça.

O prémio reconhece o conjunto da obra de um artista, destacando tanto a sua carreira diversificada como actor e realizador, quanto o desempenho em “O Agente Secreto”.

“Estou a receber este prémio em nome do cinema sul-americano”, afirmou o actor na ocasião.

Wagner com seu premio Golden Eye @zurichfilmfestival@neonrated @vitrine filmes @oagentesecreto f 3
Reprodução/Instagram de Kleber Mendonça Filho

As chances do Brasil nos Óscares aumentam?

A trajectória de “O Agente Secreto” rumo aos Óscares começou cedo e de forma calculada. Em declarações à CNN, Kleber Mendonça Filho admitiu que a campanha internacional do filme ganhou corpo logo após a estreia no Festival de Cannes, em Maio. O que, na prática, confirma como a corrida aos prémios é hoje pensada desde o primeiro grande festival.

O filme entrou em competição, foi bem recebido e saiu de Cannes com prémio. Ainda no festival, a distribuidora norte-americana Neon adquiriu os direitos de distribuição. Foi também aí que a equipa percebeu que o filme tinha passado, quase automaticamente, da lógica artística para a engrenagem da temporada de prémios, onde visibilidade, agenda e estratégia contam tanto como o próprio objecto cinematográfico.

Desde então, a promoção tem sido intensa e dividida entre o circuito internacional e o Brasil. O realizador insiste na importância de garantir uma boa carreira no País, mas o calendário de viagens, exibições especiais e encontros com a imprensa revela bem onde está hoje o centro de gravidade desta campanha.

Em poucos meses, “O Agente Secreto” passou por mais de 15 festivais, em países como Austrália, Espanha, Estados Unidos, Polónia e Peru. Esta circulação constante não responde apenas ao entusiasmo em torno do filme, mas também à lógica de exposição contínua exigida para que um título se mantenha relevante na disputa pelos grandes prémios.

Com a aproximação do final do ano, o discurso sobre os Óscares assume agora protagonismo. Kleber fala abertamente do esforço de divulgação de um filme brasileiro no estrangeiro, enquanto a Neon sustenta uma agenda descrita como intensa, pesada e altamente estratégica, pensada para manter o filme em rotação permanente no circuito de influência da indústria.

À medida que a temporada se abre, desenha-se para o filme um horizonte competitivo que extravasa a categoria de Filme Internacional, avançando para Melhor Filme, Direcção, Argumento Original e Actor, pela mão de Wagner Moura. Falta saber se esta arquitectura de expectativas resistirá ao crivo definitivo.

Por onde anda Wagner?

Ainda sob o eco da recente vitória, Wagner Moura marcou presença na apresentação da colecção Métiers d’art 2026 da Chanel, realizada na noite de terça-feira (2), na estação Bowery, em Nova Iorque. Antes do evento, o actor recorreu à experiência de Bruna Marquezine para saber como se portar no universo dos desfiles.

Moura sentou-se na primeira fila ao lado de nomes como Emily Ratajkowski, Sofia Coppola e Nicole Scherzinger. A colecção destacou o trabalho artesanal dos ateliês da maison francesa.

O actor admitiu que nunca tinha assistido a um desfile de moda em quase 30 anos de carreira. Por isso, enviou uma mensagem directa a Bruna Marquezine, habituée das semanas de moda internacionais.

“Perguntei à Bruna como era isso tudo. Ela explicou direitinho: chega, tira foto, senta, assiste e depois tem festa. Achei tudo óptimo”, contou à revista Elle durante o evento.

Na ocasião, Moura também encontrou Martin Scorsese e o rapper americano A$AP Rocky. Os encontros foram registados pela edição brasileira da revista.

O Agente Secreto

Ambientado no Recife de 1977, sob o peso asfixiante da ditadura militar, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, constrói-se como uma narrativa de retorno e de exílio interior. Marcelo (Wagner Moura), professor universitário e especialista em tecnologia, regressa à sua cidade natal depois de um longo afastamento, carregando a sombra de um passado violento em São Paulo; um passado insinuado, talvez irredutível, que envolve um poderoso industrial e a disputa em torno de uma patente ou invenção.

A viagem de regresso não lhe devolve a pertença, mas expõe a fragilidade do seu lugar no mundo. Entre a tentativa de reencontrar o filho pequeno (guardado pelos avós maternos, sendo o avô projecionista no mítico Cinema São Luiz) e a busca clandestina por documentos que revelem o estatuto civil da mãe falecida, Marcelo move-se num território marcado pela constante ameaça, pela vigilância do regime e pela consciência de que o exílio definitivo poderá ser a única saída. O refúgio oferece-se num “aparelho”: espaço liminar, habitado por dissidentes, marginalizados e exilados, entre eles um casal de angolanos, o veterano Euclides e a figura maternal de Tânia Maria.

À medida que tenta reintegrar-se no quotidiano, descobre que a cidade se tornou um organismo vigiado e corrompido, submetido a dispositivos tecnológicos de controlo que ampliam o alcance do poder autoritário. O protagonista vê-se então enredado numa teia de espionagem e conspirações, onde dilemas morais e afectivos se entrecruzam com a necessidade de preservar os seus e de confrontar segredos que não pertencem apenas à sua memória individual, mas também à memória colectiva da sua família e do país.

A obra de Mendonça Filho expande-se, assim, para além do enredo, configurando-se como reflexão sobre os mecanismos da repressão, sobre a vigilância como forma de poder, sobre a manipulação da verdade e a persistência da resistência. O filme, que cruza suspense, drama e a arquitectura narrativa do thriller, é também um ensaio cinematográfico: mistura crítica social, evocação de traumas históricos e ressonâncias do folclore local, numa mise-en-scène que devolve à História brasileira a sua dimensão trágica e espectral.