O espetacular Mágico de Oz pode não ser aquele mago ranzinza, mas bondoso que ajudou Dorothy e os amigos a conquistar os maiores sonhos no clássico musical infantil que encantou o público em 1939 inspirado nos livros escritos por Frank Baum no início do século XX.
O mundo de Oz sempre foi um sucesso, antes da produção que deu cor ao cinema, foram escritos 14 livros ambientados no cenário que nos anos seguintes receberam adaptações nos mais diferentes formatos. Uma destas adaptações é a releitura sob a perspectiva Bruxa Má do Oeste, escrita por Gregory Maguire em 1995 que rapidamente ganhou os palcos da Broadway.
Desde 2003 a peça de “Wiked” é apresentada em Nova Iorque e em vários teatros pelo mundo, mas sempre foi envolta de alguma controvérsia no acto final com sentimentos conflitantes de amá-lo e odiá-lo. Algo que infelizmente se reflecte na versão cinematográfica.
Em “Wiked” somos apresentados à Elphaba, a Bruxa Má do Oeste que supostamente derreteu depois de Dorothy ter deitado um balde de água na clássica história Mágico de Oz. Conhecemo-la desde o nascimento e percebemos como precisou de lidar com preconceitos por causa da cor esverdeada da pele. O primeiro filme foca-se na jornada de aceitação da personagem e na discriminação que sofreu de todos os que conheceu, em especial do pai, que a culpava pelo que aconteceu com a esposa e a segunda filha.
Outra personagem de destaque é Glinda, a mimada e egocêntrica colega de faculdade de Elphba que, ao longo do tempo, acaba por se tornar uma colega e confidente, mas que na segunda parte se transforma numa antagonista resistente. Após chegar ao ápice com o número musical de tirar o fôlego “Defying Gravity”, a continuação mostra o avanço da política supremacista do Mágico de Oz, que controla a população colocando Elph como a maldade que precisa de ser eliminada, e Glinda aproveitando um pouco do glamour da mentira (mesmo sofrendo um pouco).
É um musical de fantasia que, à partida, se equilibra bem entre o drama e o humor, principalmente na interacção entre Elph e Glenda, que possuem personalidades antagónicas e em constante confronto, mas que, pela escolha correcta do tom dado desde o início, ajuda na empatia com as personagens. Contudo, falha na continuação, pois, apesar de tentar desenvolver algo distópico sobre temas complexos e pesados, estes são meramente superficiais e didácticos, não funcionando.
Parece que toda a jornada e luta de Elphaba não valeu de nada, ficando apenas como um legado vazio que Glinda precisa de assumir de forma velada. Fica a sensação de um vazio e de que não adianta lutar contra os abusos, pois a mesquinhez acaba sempre por vencer. O tema do preconceito ganha força para além do arco da protagonista, apresentando-se numa trama que corre em paralelo e que deverá ser mais explorada na continuação, mas que já mostrou como o mundo fantástico não é tão utópico como muitos tendem a acreditar.
Esteticamente, a ambientação bebe do original de 1939, que trouxe a marca da cor ao cinema de forma simbólica e metafórica; nesta revisita encontramos uma boa mistura de efeitos digitais com cenográficos e muitas cores, com composições entre o verde e o rosa.
Para os amantes de easter eggs, vemos a criação das personagens clássicas como o Leão sem coragem, o Homem de Lata e o Espantalho no segundo filme, todos fruto de falhas das boas acções e que acabam por se voltar contra a protagonista, atropelada pelo ódio e pela inveja que cultivaram contra ela.
Por fim, a sensação final é de enorme desbalanço: se nas primeiras duas horas e meia temos um ritmo harmonioso e embalado por números musicais bem inseridos, que não tomam toda a narrativa, mas contribuem para ampliar o envolvimento do espectador em cada canção, mais emotiva, cómica ou dinâmica, a finalização escorrega num ritmo problemático que não engrena, muito dependente de flashbacks meramente expositivos e repetitivos, com músicas completamente esquecíveis e que não empolgam em nenhum momento.
Vídeo-crítica “Wicked 1”:
Vídeo-crítica “Wicked 2”:

