Fernanda Montenegro

Atriz Fernanda Montenegro é eleita para Academia Brasileira de Letras

Vinte e dois anos após ser indicada ao Oscar de melhor atriz, Fernanda Montenegro, foi eleita na tarde desta quinta-feira (4), integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL) – com 70 anos de carreira, Fernanda Montenegro é a única atriz da lusofonia a receber uma indicação ao Oscar.

A obra de relevância com a qual se inscreveu no pleito da ABL foi sua autobiografia “Prólogo, ato e epílogo”, escrita em parceria com Marta Góes, lançada em 2019 pela Companhia das Letras – A construção do livro se deu a partir de 18 entrevistas que Fernanda concedeu a escritora Marta Góes.

Capa de “Prólogo, ato e epílogo”

A votação acabou sendo uma mera formalidade, já que a Grande Dama do Teatro, do Cinema e da Televisão brasileira era a única candidata para a vaga — ninguém ousou enfrentá-la. Em entrevista especial à Sofia Cerqueira e Marina Lang, da Revista Veja, a atriz comentou o fato:

‟A disputa da ABL se apresentou, diria, não convencional, mas, tradicional. Aceitei me candidatar dentro do ritual da casa. Com concorrentes ou sem concorrentes, a ABL me aceitou. Estou feliz”, comentou a Montenegro.

 

Sofia Cerqueira e Marina Lang também indagaram Montenegro sobre qual teria sido a motivação dela para disputar uma vaga na ABL. Sobre a indagação Montenegro respondeu o seguinte:

 

‟A ABL é um referencial cultural de 125 anos. Abrigou e abriga representantes que honram a diversidade da nossa criatividade em várias áreas. Inclusive honram também personalidades não literárias, segundo informações, como consta nos estatutos. Vejo a academia como um espaço de resistência cultural. A cultura das artes vive um momento de desmonte, de desconexão, de destruição bestial. O atual comando político nem sabe o que é sujeito, verbo e predicado. Diante desta ignorância absoluta, que vem de um cérebro limítrofe, viva a nossa Academia Brasileira de Letras. Reconheço e agradeço o avanço cultural e humanista ao aceitarem, entre seus membros, uma atriz – profissão, por incrível que pareça, ainda alternativa. Muitas vezes tida preconceituosamente como marginal”.

 

A sessão ocorreu a portas fechadas, em reunião com participações presenciais dos acadêmicos – Fernanda não esteve presencialmente no local, já que, por norma da ABL, candidatos não podem participar da sessão, que teve início às 16h.

A grande Fernanda Montenegro foi eleita por maioria absoluta à cadeira de número 17 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ela recebeu 32 dos 34 votos dos acadêmicos — 2 foram brancos. Montenegro passa a ocupar a cadeira 17, vaga desde a morte do escritor e diplomata Affonso Arinos de Mello Franco, em 15 de março de 2020.

Os ocupantes anteriores da cadeira 17 foram: Sílvio Romero (1815-1914) (fundador) – que escolheu como patrono Hipólito da Costa (1774-1823). Os demais ocupantes são: Osório Duque-Estrada (1870-1927) –  autor da letra do Hino Nacional Brasileiro, Roquette-Pinto (1884-1954) – considerado o pai da radiodifusão no Brasil, Álvaro Lins (1912-1970) – agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo de Portugal e com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade de PortugalAntônio Houaiss (1915-1999) – grande enciclopedista e ministro da cultura do Brasil no governo Itamar Franco.

 

“Lembro que cruzei com Affonso Arinos algumas vezes, uma figura referencial. Ele me parava e dizia: “Fernanda, escreva um livro e entre na Academia”, revelou Montenegro, em entrevista ao jornal O GLOBO.

“Eu respondia: “Mas eu? Eu sou só uma atriz!” Agora veja esse milagre: a Academia me aceita e ele me antecede. Vai explicar um fenômeno desses”, finalizou a Atriz.

 

O presidente da ABL, Marco Lucchesi, comemorou a eleição de Montenegro para a instituição:

 “É um momento importante, primeiro pela renovação que se dá com a eleição na Academia Brasileira de Letras. É um sinal de novos horizontes. Isso é sempre importante. Por outro lado, Fernanda é uma grande intelectual, uma representante importante da cultura brasileira. Ela já é parte do imaginário de nosso país e, de alguma forma, ela talvez nos obrigue a aumentar as cadeiras de 40 para 80. Se trouxer todas as personagens que amamos, vamos ter que dobrar o número de cadeiras [da ABL]. Então, vamos ficar com ela, que vale muito”, declarou Lucchesi.

 

A eleição da cadeira 17 é a primeira das quatro previstas para novembro. A academia permanece com quatro de suas 40 cadeiras vagas. Na próxima quinta-feira (11), será escolhido o substituto para o assento 11, que será disputado pelo cantor Gilberto Gil e pelo poeta Salgado Maranhão. Haverá disputas ainda nos dias 18 e 25.

Permanecem vagas ainda as cadeiras 20, do jornalista Murilo Melo Filho, morto no dia 27 de maio de 2020; a 12, do professor Alfredo Bosi, morto no dia 7 de abril de 2021; a 39, do vice-presidente da República Marco Maciel, morto no dia 12 de junho deste ano; e a cadeira 2, ocupada pelo professor Tarcísio Padilha, que morreu no dia 9 de setembro.

Vale destacar que embora seja uma entidade dedicada à literatura, a ABL tem procurado se abrir mais à cultura popular, a instituição de Machado quer a incorporação de outras artes. Um exemplo disto foi a eleição do cineasta Cacá Diegues em 2019. A candidatura de Gilberto Gil vai nesta mesma direção.

Fábio Grellet, do Uol, frisa que para integrar a ABL não é necessário ter uma carreira literária de sucesso. O estatuto exige que, para se tornar um “imortal”, como são conhecidos os integrantes da Academia, as pessoas “tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário”.

 

Pronunciamento de Fernanda:

“É algo assim, é uma viagem no imaginário, uma viagem no sublime. A minha arte não é imortal. A arte do ator é enquanto ele está ali vivo, presente em carne e osso. Mas, de uma forma poética, vamos dizer que é imortal. Eu fico muito espantada que uma academia que tem como princípio ser imortal, acolher uma atriz que só existe quando está em cena carnificando o personagem”, disse a atriz em entrevista a Malu Gaspar, do Jornal O GLOBO.

 

A atriz também destacou a pouca participação de mulheres na academia:

“Já não teve nenhuma mulher [na academia]. Isso [mulheres ocupando cadeiras na ABL] não vai parar. Vai chegar uma hora que talvez tenha mais mulheres do que homens. Certamente, a chegada das mulheres vai ter força e será aceito. É do tempo atual, da justiça em torno da existência humana”, comentou a atriz em entrevista a Malu Gaspar.

 

Fernanda também criticou o atual governo:

“Esse atual governo é uma forca, um vômito, é uma apunhalada no ventre. Mas vai acabar. Uma hora vai acabar. A grande tristeza é que ele entrou pelo voto. (…) As pessoas votaram no Bolsonaro. E por que votaram? Talvez porque os governos anteriores cumpriram só metade do prometido. Talvez tenha causado uma desilusão”, finalizou a atriz em entrevista a Malu Gaspar.

 

Sobre Fernanda Montenegro:

Fernanda Montenegro, nome artístico de Arlette Pinheiro Monteiro Torres, nasceu em 16 de outubro de 1929, no bairro do Campinho, zona norte do Rio de Janeiro. Atuou em um palco pela primeira vez aos 8 anos de idade, para participar de uma peça na igreja. Sua estreia oficial no teatro, entretanto, ocorreu em dezembro de 1950, ao lado do marido Fernando Torres (1927-2008), no espetáculo 3.200 Metros de Altitude”, de Julian Luchaire (1876-1962).

Na TV Tupi, participou, durante dois anos, de cerca de 80 peças, exibidas nos programas Retrospectiva do Teatro Universal e Retrospectiva do Teatro Brasileiro. Ganhou o prêmio de Atriz Revelação da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, em 1952, por seu trabalho em Está Lá Fora um Inspetor”, de J.B. Priestley (1894-1984), e Loucuras do Imperador, de Paulo Magalhães.

Fernando Torres e Fernanda Montenegro, em 1953, recém casados

Mudou-se para São Paulo em 1954, onde fez parte da Companhia Maria Della Costa e do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Com o marido, formou sua própria companhia, o Teatro dos Sete – acompanhada também de Sergio Britto (1923-2011), Ítalo Rossi (1931-2011), Gianni Ratto (1916-2005), Luciana Petruccelli e Alfredo Souto de Almeida. A estreia da companhia fez sucesso com a peça O Mambembe (1959), de Artur Azevedo (1855-1908), atraindo centenas de espectadores ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Em 1963, estreou na TV Rio, com as novelas Amor Não é Amor” e A Morta sem Espelho”, ambas de Nelson Rodrigues (1912-1980). Nesse período, na recém-criada TV Globo, participou da série de “teleteatro 4 no Teatro” (1965), dirigida por Sérgio Britto. Em 1967, também integrou o elenco da TV Excelsior, interpretando a personagem Lisa, em Redenção”, de Raymundo López.

Ao longo da carreira, Fernanda participou também de minisséries como Riacho Doce (1990), Incidente em Antares (1994), O Auto da Compadecida” (1999) e Hoje é Dia de Maria (2005).

No cinema, Fernanda participou de mais de 50 produções, entre elas podemos citar: “A Falecida” (1965), de Leon Hirszman, “Marília e Marina” (1976), de Luiz Fernando Goulart, “Eles Não Usam Black-tie” (1981), de Leon Hirszman, “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto, “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, “Gêmeas” (1999), de Andrucha Waddington, “O Auto da Compadecida” (2000), de Guel Arraes, “Olga” (2004), de Jayme Monjardim, “O Tempo e o Vento” (2013), de Jayme Monjardim, “Infância” (2015), de Domingos de Oliveira e “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz.

Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri em “Eles Não Usam Black-Tie”

Em 1999, Fernanda Montenegro foi condecorada com a maior comenda que um brasileiro pode receber da Presidência da República, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito “pelo reconhecimento ao destacado trabalho nas artes cênicas brasileiras”. Na época, uma exposição no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, comemorou os 50 anos de carreira da atriz. Em 2004, aos 75 anos, recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Tribeca, em Nova York, por sua atuação em O Outro Lado da Rua”, de Marcos Bernstein.

Fernanda Montenegro completou 92 anos de idade no dia 16 de outubro. Considerada uma das melhores atrizes do Brasil, Fernanda foi a primeira latino-americana e a única brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz por seu trabalho em Central do Brasil” (1998). Foi, ainda, a primeira brasileira a ganhar o Emmy Internacional na categoria de melhor atriz pela atuação na série “Doce de Mãe”, da TV Globo, em 2013.

Montenegro com seu Emmy Internacional de Melhor Atriz

 

* Texto originalmente publicado no Brasil pelo jornal Tribuna do Sertão.

 

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