Um dos acontecimentos de Cannes: “O Riso e a Faca” de Pedro Pinho

Um dos grandes acontecimentos de Cannes, o segundo filme de Pedro Pinho é um épico de quase quatro horas em que um engenheiro português descobre a África, o desejo e os fantasmas coloniais de Portugal.
"O Riso e a Faca", de Pedro Pinho Academia Portuguesa de Cinema "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho Academia Portuguesa de Cinema
"O Riso e a Faca", de Pedro Pinho

Foi há apenas três anos que, ali no último dia da competição em Cannes, o festival era chacoalhado por Pacifiction, a epopeia paranoica de Albert Serra que encerrava aquela edição como uma espécie de fantasma colonial a pairar sobre a Croisette. Naquele delírio polinésio, Benoît Magimel vagava como um fantasma da colonização francesa; ainda presente, mas já deslocado. Um europeu em missão para “manter a ordem”, que sorri, negocia, observa, enquanto ao seu redor tudo é névoa: rumores, conspirações, silêncios. Era um filme sobre o fim de um certo poder branco, encarnado nesse homem que tenta manter as aparências de controle num mundo que já não precisa mais dele – ou que talvez nunca tenha precisado.

O Riso e a Faca, novo filme de Pedro Pinho, exibido na paralela Un Certain Regard, pode até partilhar o fio temático e o escopo da ambição do filme de Serra, mas parece existir no extremo oposto desse mesmo espectro. Também seguimos aqui um europeu em território outrora colonizado, uma Guiné Bissau ressentida com Portugal (“os tugas estão chegando”) mas onde o impulso já não é o de manter controle, mas o de se perder. Se Pacifiction encenava o crepúsculo do poder, “O Riso e a Faca” parece querer investigar as fissuras desse sujeito diante do desejo, da culpa e da fricção cultural.

Depois do seu celebrado A Fábrica de Nada (Quinzena, 2017), Pinho retorna a Cannes com um épico pós-colonialista de quase quatro horas, onde a ficção se dilui numa crônica improvisada sobre deslocamento, o sexo e os restos de uma história mal resolvida. O filme segue Guilherme (vivido por Guilherme Coragem), um engenheiro ambiental português que embarca numa viagem a trabalho até uma Guiné-Bissau quase ficcionalizada. Alguns locais repetem com espanto que ele chegou por lá “de carro” sugerindo que essa África é mais um território simbólico, entre a fábula política e o delírio geográfico.

Guilherme foi contratado por uma ONG para construir uma estrada entre o deserto e a selva. Ele chega com a típica postura do europeu bem-intencionado: um misto de ignorância e curiosidade. Aos poucos, se envolve com dois expatriados – a exuberante Diara (Cleo Diára), com suas perucas coloridas, em constante estado de imprevisibilidade, e o brasileiro de espírito livre Guilherme (Jonathan Guilherme). Entre os três se estabelece uma relação marcada por desejo, instabilidade e uma tensão racial e geopolítica silenciosa. Em determinado momento um guineense questiona Guilherme: “Mas qual é a diferença entre você, brasileiro, e o Sérgio, português?” Ao que ele responde: “Eu sou preto, ele é branco. Ele coloniza, eu sou o colonizado.” 

É também um filme profundamente sensual. Pinho filma cenas de sexo com uma frontalidade natural e desavergonhada, onde os corpos se descobrem e se confrontam, sem moralismos nem a necessidade de definições. Há uma cena em especial, de sexo a três, entre Sérgio, Diara e um amante dela em que Sérgio é penetrado. A inversão do gesto se dá ali não como metáfora, mas como experiência literal e física. É um momento de entrega, de ambiguidade, de perda de controle, que também ressoa como uma alegoria crua da relação entre os corpos colonizadores e os territórios desejados.

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O que Pedro Pinho propõe aqui não é uma simples fábula moral. Ao contrário: o filme evita cuidadosamente o didatismo e a  tentação de “explicar” a África para europeus ou vice-versa. Há um desconforto permanente — nos diálogos, nas atuações, nas situações absurdas que surgem, que impede qualquer leitura confortável. A narrativa de Pinho brinca com o improviso, e muitas das conversas parecem atravessadas por vozes não roteirizadas, captando falas de pessoas reais que coexistem com a ficção. É muito bonito o efeito disso tudo.

O cinema de Pinho continua interessado nas estruturas que nos moldam. O trabalho, o capital, o privilégio. Mas aqui ele expande sua lente para o território pantanoso do neocolonialismo. A estrada que Guilherme tenta construir é uma metáfora escancarada: um gesto de ligação entre mundos que ele mesmo não compreende. O filme é, nesse sentido, também uma comédia trágica sobre a impossibilidade da ponte, sobre a arrogância de quem acha que pode pavimentar uma conexão sem antes entender o terreno.

A personagem de Sérgio é construída com precisão: um homem gentil e curioso, mas de certa forma não consciente dos seus privilégios. Em uma longa cena de sexo, quando leva uma prostituta para casa, ele tem uma crise de consciência e a ereção falha. A reação da mulher é brutal. Ela explode, com sarcasmo: “Com o que é que te importas?” ela o questiona, “como bem-estar das mulheres? com o tráfico humano? com a falta de água potável?”,  e a pergunta reverbera para além da cena.

Mesmo nos momentos de desconforto, o filme encontra espaço para o humor. Em uma outra sequência, hilária e melancólica, uma senhora local pergunta a Guilherme se é verdade que, em Lisboa, se usa água potável para dar descarga nas casas de banho. Ele hesita, constrangido, mas assenta positivamente com a cabeça. O absurdo não está na pergunta, mas no fato de ela ser verdadeira — expondo o abismo que ainda separa o norte e o sul global.

“O Riso e a Faca” é, no fundo, um filme sobre a educação de Guilherme. Uma educação sem redenção fácil, sem transformação miraculosa. Sua jornada pela Guiné-Bissau o desestabiliza, mas não o “cura”. Quando lhe perguntam o que encontrou na Guiné que não existe na Europa, ele pausa, e responde apenas: “Muita coisa.” Uma resposta de uma honestidade embaraçada, e que resume bem o tom do filme: aberto, contraditório, e profundamente humano.